O globo, n. 30988, 10/06/2018. País, p. 4

 

Os presidenciáveis e suas línguas ferinas

Jeferson Ribeiro

Marcelo Remigio

10/06/2018

 

 

Além da política, Ciro Gomes e Jair Bolsonaro também disputam a competição das frases mais polêmicas

O bate-boca se transformou em um poderoso instrumento dos presidenciáveis na corrida pelo Palácio do Planalto. Que o digam Ciro Gomes (PDT) e Jair Bolsonaro (PSL). Na semana passada, o pedetista subiu o tom do confronto verbal entre os dois ao chamar o deputado de “boçal” e “maluco”. Ciro mira sua artilharia pesada em Bolsonaro, na tentativa de estancar o crescimento do adversário em faixas de eleitores que não votavam, até então, nele. O capitão da reserva do Exército, por sua vez, devolve toda vez que é atacado pelos adversários.

Apesar de considerada eficiente por boa parte dos políticos, a língua ferina também tem se mostrado uma dor de cabeça para a dupla. Somente Ciro Gomes foi envolvido em 70 processos por indenizações ou crimes contra a honra por causa da agressividade nos discursos — parte deles por declarações contra Bolsonaro; o presidente Michel Temer; o presidente do Senado, Eunício de Oliveira (MDB-CE); o ex-prefeito de São Paulo João Doria (PSDB) e o senador José Serra (PSDB-SP).

“ESSA FIGURA É UMA COISA PERIGOSA”, DIZ CID

Já Bolsonaro responde a duas ações no Supremo Tribunal Federal (STF) sob acusações de injúria e incitação ao estupro — em 2014, ele disse que não estupraria a colega Maria do Rosário (PT-RS) por ela ser “feia” e “não fazer seu gênero” —, além de uma denúncia por racismo: criticou benefícios aos quilombolas em uma palestra.

Coordenador de campanha do irmão, o exgovernador Cid Gomes diz que Ciro, ao disparar contra Bolsonaro, não quer conquistar o eleitorado fiel do adversário, responsável pelas reeleições do deputado. Mas sim os votos que migraram recentemente para o pré-candidato do PSL por simpatia.

— Essa figura, o Bolsonaro, é uma coisa perigosa, mas nossa estratégia não é de polarização com ele. Estamos preocupados porque ele está ampliando o espaço de simpatia no eleitorado. Se fosse o (Geraldo) Alckmin, por exemplo, com esse percentual nas pesquisas, a reação do Ciro seria diferente — diz Cid, ao chamar a campanha de Bolsonaro de gueto. — Tem um público que não vamos atrás, aqueles que são preconceituosos, machistas, racistas. Mas tem frações do eleitorado que estão com ele e que precisam ser alertadas sobre o que o Bolsonaro significa, e isso é o que Ciro vem fazendo. A candidatura dele é um gueto e não estamos preocupados com esse gueto, queremos que ele fique restrito a esse público — argumenta.

Bolsonaro, conhecido por suas declarações polêmicas, tenta, numa estratégia de mudar a imagem de agressividade, evitar confrontos. No entanto, basta ser provocado sobre declarações críticas de adversários para soltar a língua.

— O Ciro me chamou de boçal, de câncer a ser extirpado. E, depois, eu que sou destemperado. Em respeito a ele, um ex-governador, nem vou falar que “é a mãe”. O Alckmin, que me criticou, esse aí nem falo nada. Não comento sobre candidatos com um dígito nas pesquisas — ataca o deputado. — Não vou, durante a campanha, ficar polarizando com o Ciro — adianta a estratégia.

Bolsonaro diz não ter filtro. Fala o que vem na cabeça. Nas das redes sociais — um dos trunfos de sua pré-campanha —, afirma que cuida de todas as postagens de seu perfil no Facebook. Já no Twitter, as declarações são disparadas pelo filho chamado de “Zero Dois”, o vereador Carlos (PSC). Às vezes, ele envia frases ao filho. Uma equipe de apoiadores se encarrega de abastecer, junto com a família Bolsonaro, o Instagram.

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Por barganha, centrão vai adiar ao máximo apoio a presidenciáveis

Maria Lima

Bruno Góes

10/06/2018

 

 

Partidos como o PP esperarão cenário mais claro para definir alianças

O pragmatismo vai ditar os rumos do PP na disputa para presidente da República. Principal e mais forte partido do centrão, o PP só irá jogar suas fichas no cavalo ganhador e vai esperar até o último minuto para medir a temperatura e farejar o candidato com mais chances de chegar ao Planalto. Não hesitará, por exemplo, em abandonar a articulação do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que tenta comandar um blocão formado por DEM, PP, PR, PRB e Solidariedade para atuar de forma conjunta na eleição presidencial e ter influência também na próxima legislatura do Congresso Nacional.

O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), se define como homem pragmático e diz que não há nada decidido nem em relação ao blocão de Maia, nem sobre o candidato a presidente que terá o apoio e o tempo de TV do partido. O mais provável é apoiar um candidato, mas liberar o partido para alianças com outras siglas nas eleições estaduais. Foi a fórmula bemsucedida empregada pelo PP em 2010, quando a legenda integrou oficialmente a chapa do PT que elegeu Dilma Rousseff para o Palácio do Planalto.

Pelo levantamento informal feito por integrantes do PP, hoje são 11 os diretórios estaduais mais propensos a apoiar, nacionalmente, o pré-candidato do PSDB, Geraldo Alckmin (RS, ES, RJ, SC, GO, DF, MT, PR, SP, PA, AC).

Como o PP é bem forte no Nordeste, em segundo lugar nas preferências vem o précandidato do PDT, o cearense Ciro Gomes, com oito diretórios a seu favor (PI, PB, SE, CE, PE, MS, RN, AL). O pré-candidato do MDB, Henrique Meirelles, tem a preferência de três executivas estaduais (MG, RO, RR). Com o pré-candidato do PT, seja ele o ex-presidente Lula ou outro, estão os diretórios da Bahia e do Maranhão.

Apesar da divisão interna, o PP mantém conversas frequentes com DEM, PR, PRB e Solidariedade. Essas legendas ora sinalizam um caminho em comum, ora indicam que se separarão. O DEM decidiu sepultar a candidatura de Rodrigo Maia à Presidência e se mostra dividido entre Ciro, Alckmin e Josué Gomes (PR).

O PR, partido de Josué, espera o resultado de uma pesquisa qualitativa encomendada pelo chefe do partido, Valdemar Costa Neto, para avaliar a possibilidade de sucesso em uma possível candidatura. Segundo um dirigente do partido, entretanto, um terço dos parlamentares da sigla são favoráveis à candidatura de Jair Bolsonaro (PSL). O capitão da reserva do Exército já expressou ser a favor de uma chapa com o senador Magno Malta (PR-ES) como vice.

Em avaliação feita a aliados, Valdemar disse que vê Geraldo Alckmin com poucas chances de decolar e que Bolsonaro está praticamente certo no segundo turno. O partido ainda mantém uma interlocução muito boa com o PT.

— Alckmin não tem demonstrado a capilaridade necessária para sair de onde está nas pesquisas. Além disso, perde até em São Paulo para o Bolsonaro — diz José Rocha, líder do partido na Câmara.

O PRB tem como pré-candidato o dono da Riachuelo, Flávio Rocha. Mas também trabalha com alternativas caso o empresário não decole. Na semana passada, o presidente do partido, Marcos Pereira, conversou com Renata Abreu, presidente do Podemos, legenda que tem como précandidato Álvaro Dias. Analisaram o cenário eleitoral, mas não chegaram a um acordo. De todos os pré-candidatos de centro, Álvaro Dias é o que tem mais resistência em retirar a candidatura. O Solidariedade, liderado por Paulinho da Força, chegou a lançar Aldo Rebelo ao Planalto, mas está disposto a negociar uma solução conjunta, principalmente em combinação com Rodrigo Maia.