O globo, n. 30988, 10/05/2018. País, p.11
Ex-funcionário de coronel Lima diz que reforma foi ‘favor’ a Temer
Mateus Coutunho
10/05/2018
Arquiteto orçou a obra na casa da filha do presidente da República
Em depoimento à Polícia Federal no dia 28 de maio, um arquiteto que trabalhou para o coronel reformado da PM João Baptista Lima Filho, suspeito de ser o operador de propinas do presidente Michel Temer (MDB), relatou que a atuação da empresa do coronel Lima na reforma da casa da filha do presidente em São Paulo foi um “favor” para Temer.
O arquiteto Diogo Figueiredo de Freitas trabalhou na Argeplan, empresa do coronel Lima, entre 2012 e 2017. Foi logo ao chegar na empresa, ainda em 2012, que ele foi abordado pelo dono da companhia sobre o favor para o então vicepresidente da República.
“João Baptista Lima Filho procurou o depoente e informoulhe que gostaria de prestar um favor a um amigo, auxiliando-o na escolha de uma construtora para executar uma obra em imóvel da filha deste colega, tendo informado naquela ocasião, se tratar de imóvel de Maristela Temer", afirmou o arquiteto em depoimento ao qual O GLOBO teve acesso. O pedido foi o único do tipo recebido pelo arquiteto no período em que trabalhou na Argeplan.
Segundo Freitas, o coronel também deixou claro na ocasião que o levantamento de preços para as reformas era apenas um favor e que não era para ele se envolver na execução da obra. Após a solicitação, Freitas relatou ter levantado o orçamento do projeto apresentado pela arquiteta de Maristela e o levou para a filha de Temer, que teria achado o valor muito alto. Depois disso, Freitas disse que não acompanhou os desdobramentos da obra e não soube informar se o projeto foi executado.
A reforma na casa da filha do presidente é um dos pontos centrais da investigação da PF sobre suspeitas de que Temer teria recebido propinas de empresas do setor portuário para favorecê-las. Amigo de longa data do ex-presidente, coronel Lima é apontado como o operador financeiro de Temer e sua empresa bancou a reforma da residência de Maristela Temer com pagamentos em dinheiro em espécie, segundo admitiram fornecedores e até o engenheiro que atuou na execução da reforma.
PLANALTO VÊ “INVERDADES”
O presidente tem negado reiteradamente o recebimento de propinas e feito críticas à investigação da PF. O emedebista já disse que nunca realizou negócios comerciais ou de qualquer outra natureza que envolvessem a transferência de recursos financeiros para o coronel.
A defesa de Temer disse que não se manifestará sobre o depoimento de Freitas pois não teve acesso aos autos. “Essas questões têm sido objeto de constantes e insistentes inverdades. Portanto serão esclarecidas no âmbito devido, que é o Judiciário”, diz a nota do Planalto.
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RN: governador é citado por delatora
Aura Mazda
10/06/2018
Ex-procuradora diz que Robinson Faria chefiava esquema de servidores fantasmas
A delação premiada de uma ex-procuradora da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte (ALRN) joga luz sobre a suspeita de participação da cúpula da política e do Judiciário do estado em um esquema que empregou centenas de funcionários fantasmas no Legislativo local. As colaborações de Rita das Mercês e cinco familiares da ex-servidora podem comprometer o atual governador, Robinson Faria (PSD), cinco deputados federais, um ex-deputado federal, dois senadores, um exsenador, deputados estaduais e oito conselheiros do Tribunal de Contas do Estado (sendo três já aposentados), além de dez desembargadores e quatro ex-governadores.
Os agentes políticos e membros do judiciário são apontados como supostos beneficiados e mandantes do esquema de inclusão de funcionários fantasmas na folha do Poder Legislativo. As ações criminosas teriam ocorrido durante nove anos, entre 2006 e 2015, e foram investigadas na Operação Dama de Espadas, deflagrada em agosto de 2015. Nas planilhas e documentos entregues por Rita das Mercês ao Ministério Público Federal (MPF), a procuradora aposentada cita o nome de 52 agentes públicos que pediram para incluir nomes na folha de pagamento. Ela também aponta os supostos funcionários fantasmas.
GOVERNADOR NÃO SE PRONUNCIA
Procurado, o governador não respondeu aos questionamentos da reportagem até o fechamento desta edição. A assessoria do governo disse, em nota, que “não irá se pronunciar sobre temas relacionados à operação Dama de Espadas, por se tratar de assunto de âmbito pessoal e anterior ao cargo de governador”.
O grupo, de acordo com as investigações, empregava funcionários fantasmas, desviando o dinheiro dos salários para os envolvidos. Ao MPF, Rita das Mercês confirma todos os nomes e diz que o grupo desviou, pelo menos, R$ 5,5 milhões da Casa. Até 2015, políticos e juízes — segundo o depoimento — teriam indicado centenas de nomes para receber salários. A maior parte desses indicados, segundo Rita, não prestava nenhum serviço.
Firmado em 4 de agosto de 2017 com Ministério Público Federal (MPF), a delação foi homologada em 4 de outubro pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF). No acordo, detalhado ao longo de 19 páginas, ficou estabelecido que, em troca de informações e documentos, os seis colaboradores não serão presos quando houver um julgamento.
O desvio de dinheiro da Assembleia Legislativa, segundo o relato de Rita das Mercês na colaboração, teve início com o objetivo de arrecadar dinheiro ao deputado estadual à época e atual governador Robinson Faria, em 2006, sendo ele o “principal beneficiário da situação”. Segundo ela, o esquema continuou a funcionar na gestão dos ex-presidentes da Casa, Ricardo Motta e Ezequiel Ferreira. Robinson Faria foi presidente da ALRN por quatro biênios, entre 2003 e 2010.
“METADE DO SALÁRIO DELE”
A ex-procuradora mencionou um episódio em que o deputado Ricardo Motta — presidente da ALRN entre fevereiro de 2011 e janeiro de 2015 — foi até a sua sala e pediu que ela indicasse alguém de nível superior para ocupar uma vaga no TJRN. “Eu falei que tinha uma neta e indiquei Mariana Morgana para o cargo. Ele já foi dizendo que metade do salário seria dele”, disse Rita em colaboração. A neta de Rita foi nomeada em julho de 2011 para TJ-RN. Ela foi exonerada em março de 2017.
Procurada, a defesa do governador Robinson Faria, representada pelo advogado José Luis Oliveira Lima, não se manifestou sobre as acusações.
A defesa do deputado estadual Ricardo Motta, representada pelo advogado Thiago Cortez, disse que vai se manifestar nos autos do processo, “entendendo que a delação não trouxe nenhum elemento novo de prova e que será comprovado que não houve nenhum dos fatos ali narrados. Que a simples palavra do colaborador deve ser provada de forma cabal e não apenas por presunção”.
A assessoria jurídica do atual presidente da ALRN, Ezequiel Ferreira, informou que não teve acesso aos termos da colaboração premiada de Rita das Mercês Reinaldo. “O deputado rechaça a existência de irregularidade no exercício de seu mandato e se coloca à disposição da Justiça ou de qualquer órgão de investigação para esclarecimentos, caso sejam necessários”.