O globo, n. 30985, 07/06/2018. País, p. 7
FH pediu doações eleitorais a Marcelo Odebrecht em 2010
Dimitrius Dantas
07/06/2018
Em e-mails, ex-presidente solicitou ‘ajuda’ a campanhas de tucanos
-SÃO PAULO- E-mails encontrados pela Polícia Federal num dos notebooks de Marcelo Odebrecht mostram que o expresidente Fernando Henrique Cardoso pediu doações ao empresário durante as eleições de 2010. O laudo foi anexado ao processo que investiga o ex-presidente Lula pelo recebimento de vantagens indevidas da Odebrecht na Lava-Jato.
As mensagens começam em setembro de 2010. Na primeira delas, FH envia os dados bancários da conta criada para a campanha de Antero Paes de Barros, candidato ao Senado por Mato Grosso nas eleições daquele ano. “O candidato ao senado pelo PSDB, Antero Paes de Barros, ainda está em segundo lugar, porém a pressão do governismo, ancorada em muitos recursos, está fortíssima. Seria possível ajudá-lo?”, escreve FHC.
Na resposta, Marcelo Odebrecht indica que outros apoios e reforços foram feitos a pedido de Fernando Henrique e que o resumo seria apresentado. “Fique tranquilo (no que depender de nós). Depois aproveito, e lhe dou o feedback dos demais apoios e reforços que fizemos na linha do que conversamos", disse.
Duas semanas depois, Fernando Henrique envia outro e-mail para Marcelo Odebrecht e Benjamin Steinbruch, então presidente interino da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). O e-mail tem como assunto “o de sempre". Na mensagem, Fernando Henrique pede “atenção” para dois candidatos a senadores — novamente Antero Paes de Barros e Flexa Ribeiro, do Pará. “Ainda há tempo para eles alcançarem, no caso na verdade é manterem, a posição que os leva ao êxito", afirma.
Entre os e-mails armazenados no computador de Marcelo Odebrecht também havia uma conversa sobre contribuição da empreiteira ao Instituto Fernando Henrique Cardoso. Sob o assunto “iFHC”, André Amaro, presidente da Odebrecht Defesa e Tecnologia, escreve a Marcelo dizendo que, em alinhamento com Emilio Odebrecht, informou a uma pessoa chamada “Daniel” que a empreiteira contribuirá com R$ 1,8 milhões em 24 meses, de acordo com o que fora acertado “no último encontro dos empresários no Instituto".
Marcelo Odebrecht responde: “Ele me comentou. Parece que meu pai puxou para cima. Deixe meu pai avisado".
Não é possível, pelas mensagens, saber quem é Daniel.
SE HOUVE, DOAÇÃO ERA LEGAL, DIZ FH
Em nota, Fernando Henrique afirmou que “pode ter pedido" doações para Marcelo Odebrecht nas eleições de 2010, mas que elas eram legais. “Não sei se deram e não foi a troco de decisões minhas, pois na época eu estava fora dos governos, da República e do Estado", afirmou.
O senadores Flexa Ribeiro e Antero Paes de Barros afirmaram desconhecer os e-mails e que suas campanhas de 2010 não receberam da Odebrecht. O PSDB afirmou que desconhece os pedidos. A Odebrecht disse que colabora com a Justiça. A defesa de Marcelo Odebrecht disse que os e-mails são “autoexplicativos” e se referem a pedidos que sempre foram normais por parte dos políticos.
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Lava-Jato do Rio quer suspeição de Gilmar
Juliana Castro
07/06/2018
MPF aponta relação comercial entre instituto de ministro e réu Orlando Diniz
Os procuradores da força-tarefa da Lava-Jato no Rio pediram à Procuradoria-Geral da República para requerer ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspeição ou impedimento do ministro Gilmar Mendes nos casos que envolvam o ex-presidente da Fecomércio Orlando Diniz. Ele é um dos 20 presos preventivamente por determinação da Justiça Federal do Rio no âmbito da Lava-Jato aos quais Gilmar concedeu liberdade no último mês.
O pedido do Ministério Público Federal do Rio se baseia na relação comercial da Fecomércio com o Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), “instituição que é hoje controlada exclusivamente" pela família de Gilmar, como apontam os procuradores. A Fecomércio foi presidida desde o início dos anos 2000 por Orlando Diniz. Ele só deixou o cargo na entidade após sua prisão, em fevereiro deste ano. Diniz é réu sob acusação de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
A força-tarefa da Lava-Jato no Rio aponta que a quebra de sigilo fiscal da Fecomércio revela um pagamento de R$ 50 mil em 2016, durante a presidência de Diniz na entidade, em benefício do IDP. Além disso, os procuradores anotam que a Fecomércio patrocinou ao menos três eventos promovidos pelo IDP, inclusive alguns que contavam com a participação do próprio Gilmar.
"NÃO TEM CABIMENTO”
Gilmar Mendes é o relator dos casos relacionados à Operação Calicute, o braço fluminense da Lava-Jato. Por isso, analisa os pedidos de liberdade dos presos preventivamente pela operação. O pedido de suspeição apresentado pelos procuradores foi encaminhado à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que atua pelo MPF no Supremo.
A defesa de Orlando Diniz afirmou que o ex-presidente da Fecomércio não tem relação com Gilmar Mendes e que portanto o pedido não tem cabimento. O advogado diz ainda que a Fecomércio tinha uma parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) para realizar eventos de Direito e que cabia à FGV contatar e escolher os palestrantes. O GLOBO entrou em contato com o gabinete de Gilmar Mendes, que informou que o ministro só se pronunciará se houver autuação processual do pedido.