Correio braziliense, n. 20188, 29/08/2018. Cidades, p. 18

 

Início com assuntos espinhosos

Ana Viriata

29/08/2018

 

 

Questionamentos feitos por jornalistas do Correio abriram o debate com sete candidatos ao GDF. Operação Lava-Jato, escândalos de corrupção, rejeição à classe política, contratos públicos e prisão de Lula estiveram entre os temas abordados

Ligação com políticos investigados na Operação Lava-Jato, envolvimento em escândalos de corrupção, promessas de campanha não cumpridas, defesa a candidatos enquadrados na Lei da Ficha Limpa: temas espinhosos pautaram, ontem, os questionamentos realizados por Ana Maria Campos, Denise Rothenburg, Helena Mader e Vicente Nunes, jornalistas do Correio Braziliense, no primeiro bloco do debate mediado pela editora-chefe da TV Brasília, Simone Souto. Sob pressão e ao vivo, alguns concorrentes optaram por se esquivar e dedicaram os dois minutos de resposta a abordagens distintas, em vez de prestar contas ao eleitorado.

Os contratos milionários firmados entre as empresas prestadoras de serviços da família de Eliana Pedrosa (Pros) e o poder público estiveram entre as discussões. Um dos empreendimentos, a Dinâmica, faturou mais de R$ 400 milhões na última década — a verba saiu dos cofres do GDF. Há negócios, ainda, com tribunais e o governo federal. Alguns acertos vigoram até o fim de 2019. Portanto, perguntou-se qual caminho a candidata seguiria: rescisão dos contratos, com a demissão de trabalhadores e possíveis impactos nos serviços, ou liberação de recursos para empresas as quais é ligada.

A ex-distrital declarou que os empreendimentos manterão vínculo com a administração pública até o fim da vigência contratual. “A segurança jurídica é um princípio que quero estabelecer claramente no meu governo. Então, se algum contrato estiver em vigor, chegará ao seu fim. Ao término dele, a empresa não participará de nova licitação”, assegurou.

Na sequência, a reportagem confrontou o deputado federal licenciado Rogério Rosso (PSD) sobre um episódio conhecido no meio político. Em 2016, Alberto Fraga (DEM) disse, em público, que havia uma fita com imagens de Rosso recebendo dinheiro de Durval Barbosa, delator da Operação Caixa de Pandora. O parlamentar do PSD negou de forma incisiva a existência da gravação: “Fraga mentiu. Jamais, na minha vida pública, tive qualquer tipo de conduta negativa”, rebateu. O democrata, escolhido para comentar a resposta, alegou que falou a verdade, mas fez considerações. “Disse e vou repetir aqui: falei que teria visto Francinei (Arruda), em uma delação, afirmar que tinha editado um vídeo com relação ao Rogério Rosso”, emendou.

Nota à gestão

Candidato à reeleição, Rodrigo Rollemberg (PSB) teve de comentar o próprio desempenho. Analistas políticos apontam que o índice de rejeição do socialista, que ultrapassa os 70%, deve-se, em parte, a compromissos de campanha não cumpridos. O Correio, então, questionou como o eleitorado poderia acreditar em um segundo mandato diferente. “Quero dizer que, hoje, a rejeição aos políticos e a política é generalizada. Todos esses escândalos acabam fazendo com que as pessoas desacreditem da política. Nós fizemos o que precisava ser feito para colocar a casa em ordem”, comentou.

Aposta do MDB, legenda que está no centro da Lava-Jato e da Panatenaico, o estreante Ibaneis Rocha apresenta-se como “novo”. O questionamento foi se ele conseguirá manter fora de sua gestão a corrupção. “Cada um com seu pecado. Não tentem colocar em mim os pecados dos outros”, pontuou.

Crítico aos gastos do GDF, Alberto Fraga precisou comentar o uso de R$ 400 mil de verba indenizatória em 2017. A reportagem indagou se ele faria uso de benesses numa eventual gestão. “É evidente que eu não faço esse discurso demagógico, o parlamentar tem de ter um bom salário exatamente para não se envolver em corrupção”, disse. Segundo ele, o que não se pode é usar verba de gabinete para outras finalidades. E emendou: “Vamos cortar os excessos”. Responsável pelo comentário relativo à resposta, Rollemberg cutucou: “Olha a diferença entre nós: eu como senador não gastei nem um real com verba indenizatória”. O socialista ouviu de volta: “Mas também não trouxe um real para o DF”, frisou Fraga.

Com a postura do PSol de apoio à candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso devido à condenação por lavagem de dinheiro e corrupção passiva no caso do triplex do Guarujá, perguntou-se a Fátima Sousa se ela defende o direito de outros políticos condenados de concorrerem a um cargo eletivo. “Sou a favor da ficha limpa. A posição do meu partido é defender Lula em liberdade para que ele possa ter direito de prestar contas à sociedade, dos grandes acertos e erros do seu governo”, pontuou.

A Júlio Miragaya (PT), questionou-se o que o petista faria diferente do correligionário Agnelo Queiroz, uma vez que o governo do petista é marcado por supostas irregularidades, como o superfaturamento do Estádio Nacional Mané Garrincha e regalias no sistema penitenciário, a exemplo da ala construída pelo senador cassado Luiz Estevão no Complexo Penitenciário da Papuda, onde cumpre pena. “Inicialmente, nós devemos fazer um debate político voltado para a solução dos nossos problemas. A questão sobre a arena tem de ser tratada pelos órgãos de fiscalização e, para mim, o problema tem de ser visto do ponto de vista do que fazer com o estádio”, esquivou-se.

O que eles disseram

“Eu estaria preocupado se tivesse usado a verba de gabinete para pagar funcionário e receber de volta. Mas não. A gente gasta porque um mandato parlamentar, realmente, é custoso. Você tem de pagar informativo, fazer várias ligações. No meu entender, é, sim, justificável”

Alberto Fraga (DEM)

 

“O empresariado, necessariamente, não é inimigo do Estado. Uma pessoa não empresária não quer mais bem ao Estado do que o empresário. Temos de mudar essa lógica. O Brasil cresceu com essa noção de que o empresariado é errado. É por isso que nós ficamos atrás”

Eliana Pedrosa (Pros)

 

“Lula está sendo julgado por uma posição política. E mais do que isso: está sendo julgado de forma mais rápida que os demais. A Justiça não pode ser menor para uns do que para outros. A Justiça tem de ser igual para todos. Nesse caso, o Brasil e o mundo sabem que Lula está sendo injustiçado”

Fátima Sousa (PSol)

 

“Eu tenho que concorrer através de um partido político. Pouquíssimos partidos neste país não têm algum nome envolvido em escândalos de corrupção. Não existem partidos criminosos, existem pessoas criminosas”

Ibaneis Rocha (MDB)

 

“Não podemos prejulgar ninguém. Senão, entramos numa situação de denuncismo, que não ajuda em nada a resolver os graves problemas da sociedade brasiliense”

Júlio Miragaya (PT)

 

“No país da Lava-Jato, da Drácon e da Pandora, uma nova política é governar com honestidade e responsabilidade. Quem vai dar uma nota para o nosso governo é a população, em 7 de outubro. Estamos dialogando, ouvindo e recebendo, com humildade, as críticas”

Rodrigo Rollemberg (PSB)

 

“Infelizmente, aqui no Distrito Federal, existe uma fábrica do submundo da política, onde querem atingir e denegrir a imagem das pessoas sérias, honestas, que se sobressaem pelo seu trabalho e dedicação ao DF”

Rogério Rosso (PSD)