Título: Milhagens elevam o uso do dinheiro de plástico no país
Autor: Martins, Victor; Mainenti, Mariana
Fonte: Correio Braziliense, 06/05/2012, Economia, p. 16

Cartões de crédito e de débito são usados até em compras de pequeno de valorNotíciaGráfico

A multiplicação das vantagens oferecidas pelos cartões de crédito e o aumento da renda do brasileiro nos últimos anos causaram um boom no uso do dinheiro de plástico. Ao contrário do passado recente, quando o consumidor recorria à forma de pagamento apenas quando precisava comprar algo de valor mais elevado, agora o cartão é usado para pagar pequenas despesas. O fenômeno não se restringe aos novos usuários — os pobres que emergiram à classe média —, e a mudança de comportamento é identificada até mesmo naqueles que os bancos chamam de clientes premium, os de renda mais elevada. Diante de tamanha oferta, especialistas em educação financeira advertem, no entanto, que o consumidor precisa ter cautela com o dinheiro de plástico.

"Os programas de benefícios têm apelo propício para clientes que gostam de viajar e contabilizam seus gastos com cartão em pontos utilizados para milhagens aéreas, por exemplo", afirma o diretor da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) Milton Kruger. Com isso, a utilização de cartões destinados ao público de alta renda não é mais restrita a gastos em lugares e em produtos sofisticados. "Agora, os clientes de alta renda pagam tudo o que podem com cartão", diz.

A bandeira Diners, do primeiro cartão de crédito do Brasil, é um exemplo dessa mudança de comportamento. "Os clientes estão usando mais o cartão. O volume de transações aumenta cerca de 10% a cada ano", identifica Rodrigo Cury, superintendente de produtos do Citibank, que administra o Diners. "Ele é voltado aos clientes que buscam entretenimento, viagens, prazeres gourmet e oferece benefícios como o acesso às salas vips (destinadas a "pessoas muito importantes") dos aeroportos. Para ter acesso às vantagens, os clientes estão usando o cartão para todo tipo de compra", relata. Para atender ao novo perfil de uso e ampliar o número de estabelecimentos em que é aceita, a bandeira fez parcerias com a Redecard e a Cielo.

No bolso Em busca desses clientes mais disputados, as empresas estão ampliando cada vez mais a oferta de benefícios. A MasterCard, por exemplo, já oferece o serviço de assistente pessoal, que ajuda desde a encontrar uma babá de última hora para os filhos até enviar flores ou fazer um jantar romântico. Com tantos apelos, o uso vem aumentando. "Antigamente, as pessoas tinham vergonha de usar os cartões em pequenos pagamentos. Agora, é mais conveniente do que andar com dinheiro no bolso", diz Kruger.

Para os de renda média, também não faltam opções. "Há novos programas surgindo nos bancos, para nichos específicos, como cartão-presente. As opções de parcelamento também são boas. Muitas vezes é possível comprar com até 40 dias de prazo", destaca o diretor da Abecs. Com tantos apelos, houve um salto no número de cartões emitidos no Brasil. Em 2006, havia 82 milhões de plásticos no país. A quantidade mais do que dobrou até dezembro do ano passado, chegando a 173 milhões.

A nova classe média, incrementada em 30 milhões de brasileiros nos últimos 10 anos, tem proporcionado um avanço expressivo da bancarização no país. Pelos dados do Banco Central, apenas entre 2007 e 2010 o número de consumidores que possuem conta em uma instituição financeira passou de 39% da população para 51%, um dado que segue em plena expansão ainda em 2012, puxado pela sede por crédito e compras. Somente no varejo, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), as famílias vão deixar R$ 1,38 trilhão este ano — 8,3% mais que em 2011. Serão gastos com mercado, alimentação, higiene, lazer e luxos, boa parte pagos com cartões de crédito e de débito.

Salto Em 2007, o plástico era utilizado em 11% das compras; três anos depois, em 20%. Enquanto isso, a participação do dinheiro como forma de pagamento caiu de 77% para 59%. "A estabilidade econômica fez com que melhorassem as condições do brasileiro em tudo, para adquirir a casa própria, elevar a renda. Uma grande massa que não possuía cartão agora tem e quem tinha só um passou a adquirir outros. Com isso, o volume dos gastos nas transações vem aumentando até 20% ao ano", estima Kruger.

O avanço do plástico e dos meios de pagamento virtuais se acentuou de tal maneira que os brasileiros começam a usar o cartão de crédito até mesmo para pagar contas, como água, luz, telefone e condomínio. Uma prática que tem como vantagens reunir todos os gastos do consumidor em uma mesma data e ainda gera o benefício de aumentar a pontuação do cliente nos programas de relacionamento com o banco, pontos que podem ser trocados por passagens aéreas e prêmios.

O problema é que, desde o ano passado, isso deixou de ser interessante depois que o governo classificou a operação como financiamento e impôs a cobrança de Imposto sobre Operação Financeira (IOF) de 0,38% ao mês. Os bancos também cobram juros nos pagamentos de contas nessa modalidade, no mínimo 1,8% mensal a depender da instituição. Em alguns casos, tarifas também podem ser cobradas.

Cautela Diante de tanta oferta de cartões e sem ter que entrar em fila para ter o cadastro aprovado nas lojas que oferecem crédito — o que é necessário no caso do cheque —, o consumidor precisa ter muito cuidado para não gastar mais do que pode. O educador financeiro e autor do livro Livre-se das dívidas, Reinaldo Domingos, ensina que o correto é ter um cartão de crédito com um limite equivalente a apenas 50% da renda. Se o trabalhador tem um salário de R$ 2 mil, o cartão pode ter limite de apenas R$ 1 mil para que as contas não fujam do controle. "Mas não é isso o que ocorre. As pessoas têm limites muito superiores aos seus ganhos e quase sempre extrapolam. Assumem prestações a perder de vista", afirma.

-------------------------------------------------------------------------------- adicionada no sistema em: 06/05/2012 04:24