Título: Em busca da economia criativa
Autor: Hollanda, ana de
Fonte: Correio Braziliense, 06/05/2012, Diversão & Arte, p. 3

O que eles pensam

A temperatura parece estar sempre quente no Ministério da Cultura, mas Ana de Hollanda se mostra firme em seus projetos. Ela recebeu o Correio na última quinta-feira e disse que há má vontade e interesse político por trás dos ataques que recebe. Quando deixar a pasta, pretende ser lembrada como a ministra que ajudou os artistas a entrarem no mercado formal e ficarem menos dependentes de editais públicos. Falou também da saudade que tem dos tempos em que era cantora e do pouco cuidado que toma com a voz hoje em dia. Garante que o irmão, Chico Buarque, jamais interferiu em seu trabalho.

Desde que assumiu o cargo, a senhora é alvo de ataques. Por quê? São muitos motivos. Às vezes, as pessoas têm de se adaptar a mudanças de governo, a novas diretrizes. A presidente Dilma realiza outra gestão, nova etapa do projeto iniciado pelo ex-presidente Lula, mas, em certas ocasiões, é necessário rever algumas ações. A cultura é sempre uma área muito polêmica, faz parte do espírito do artista a divergência, o questionamento... cada um tem as suas teses e os seus interesses. Muita gente que estava satisfeita com a gestão anterior reclama das novas ações. É normal. Também há muita gente que cobiça esse cargo e não é mistério para ninguém. Essas pessoas insistem em procurar erros na nova gestão, há certa má vontade... no mínimo.

E qual a sua reação? Não vou ficar paralisando meu trabalho para me preocupar com ataques. Mas, se as críticas forem sérias, serei a primeira a reavaliar minhas ações, pois sou zelosa com meu trabalho. Agora, ataques por acusações infundadas, esses deixo de lado. Passaram o ano inteiro dizendo que não estávamos fazendo nada, no fim do ano a execução do que havíamos planejado foi de 98%. A pasta nunca tinha alcançado esse percentual de execução, então o argumento foi por água abaixo. Me acusam de ter interrompido os projetos do então presidente Lula, isso não tem fundamento nenhum.

Os críticos alegam que a senhora não tem competência para ser a chefe do Ministério da Cultura? Qual sua resposta? Que eles observem com um pouco mais de atenção o trabalho que está sendo feito.

Seu irmão, Chico Buarque, nunca sugeriu que a senhora deixasse a pasta e ficasse livre dessa pressão? Não, nunca.

Qual a possibilidade concreta de o Plano Nacional de Cultura sair do papel? E quais as metas de curto prazo que a senhora destaca? O plano já saiu do papel. É lei aprovada em dezembro de 2010 e, imediatamente, iniciamos um trabalho de consulta com a sociedade, ouvindo todos os setores para estabelecer as metas do plano até 2020. O plano é uma política de Estado para a cultura que vai se adequando aos poucos às novas realidades. São 53 metas em todas as áreas, como a ampliação dos pontos de cultura. Hoje, temos 3,5 mil pontos e deveremos chegar a 15 mil em todo o país.

Como conseguir "aumento de 95%" no emprego formal do setor cultural, como prevê o plano? Um dos eixos do ministério é a economia criativa. O ministro Gilberto Gil já falava dela, mas não chegou a ser desenvolvida como agora. O projeto da economia criativa envolve várias pastas. Por exemplo, a do Trabalho, da Fazenda, da Educação, do Desenvolvimento Agrário... A questão da formalização do trabalho criativo é muito importante, pois a informalidade é grande, um pouco do perfil do artista. Isso o deixa muito dependente de outros agentes que não dão a garantia de trabalho com regularidade maior que gere certa estabilidade para o artista. Se a gente conseguir realizar um mapeamento do que está sendo feito no Brasil desde o pequeno artesanato ao design, à arquitetura, à moda..., então teremos a chance de ajudar a organizar os trabalhadores, já documentados, em cooperativas, parcerias, etc... Que eles possam, por exemplo, ser acessados em site com informações sobre suas obras. A nossa diversidade criativa é enorme, mas às vezes isso fica nas mãos de poucos. Vejo objetos em lojas de decoração que são trabalhos de artesãos de uma região do país a que os comerciantes vão, compram um lote das peças e as vendem sem nenhuma referência de quem fez o trabalho, de onde saiu. A gente vai criar um selo, o Brasil criativo, em que estarão várias informações sobre o artista. Isso abre a possibilidade de novos negócios diretos.

A cultura no Brasil ainda vive no informalismo... Sim. Um dos objetivos é reduzir o informalismo, é fazer com que a cultura deixe de ser dependente de eventos, de mecenas, de editais (eles vão existir, pois são ações necessárias), mas a nossa prioridade é que os artistas possam trabalhar com regularidade sem precisar viver recorrendo e dependendo de incentivos públicos. Nossa preocupação é que o mercado de trabalho criativo seja conhecido e consumido pelo Brasil e que também seja exportado... não fique dependente de leis de incentivo somente. O mecenato é importante, mas é pontual.

E a Lei Rouanet? Ela tem qualidades, mas também tem problemas, porque é lei de mercado. Quem vai escolher o projeto artístico será o empresário. E entre patrocinar um espetáculo com artistas conhecidos ou investir em algo experimental, ele certamente ficará com o primeiro. No mundo todo, como Inglaterra e Austrália, a ideia de investimento do mercado criativo está sendo trabalhada. Estamos um pouco atrasados.

A senhora acha que a relação artista/direitos autorais é justa no Brasil? O que pode ser feito para reduzir a diferença tão grande? A questão do direito autoral é bastante problemática. É necessário transparência nessa área, ou seja, o dinheiro entrou, pertence ao artista, a ele deve ser repassado. A discussão sobre esse tema precisa ser feita. Enviamos um projeto ao Congresso que prevê, inclusive, supervisão do Ministério da Cultura: a gente vai pedir prestação de contas para as associações, ver balanços anuais, e, se irregularidades forem constatadas, encaminharemos todas à Justiça. A relação dos direitos autorais não é do Estado. Ele só supervisiona. Quem toma as providências é a Justiça.

O Ecad é o modelo certo para arrecadação dos direitos autorais no país? É um escritório necessário. Se é bem ou mal administrado, é outra questão.

A CPI do Ecad não colocou o modelo em xeque? Sempre existe o questionamento, a CPI vai checar as denúncias e tudo será examinado pela Justiça.

O que a senhora recebe de direito autoral dá para viver? Com certeza não, recebo pouco (risos). Acontece também que meus discos foram mal distribuídos e, infelizmente, hoje em dia se toca muito pouco a música brasileira nas rádios.

A ministra Ana tem saudade da cantora Ana? Tenho. Outro dia, estava ouvindo uma fala minha não sei onde e pensei: Gente, cadê minha voz? Estou rouca. Hoje não tenho o menor cuidado com a voz, durmo pouco, ando falando muito e isso para a voz de uma cantora não é bom. O Gil teve problemas também quando estava na pasta. A gente fala, fala, sempre com aquela tensão... Também tenho o lado da compositora, gosto muito de escrever. Vários parceiros me deram melodias para eu letrar, mas estou com dificuldade de tempo para relaxar e escrever. É muito difícil se desligar dos problemas que se vai enfrentar no dia seguinte...

O que o seu pai, Sergio Buarque de Holanda, diria se a senhora, ainda criança, dissesse a ele: "Papai, quando crescer, quero ser ministra da Cultura"? (risos) Ele não iria acreditar, porque nem eu acreditaria que seria ministra. Mas, às vezes, sinto muita vontade de contar o que se passa no ministério. Na última quarta-feira, estava conversando com o presidente do Iphan e ele falou de uma descoberta em uma região onde transitavam as monções (na época dos bandeirantes). Elas cruzavam um rio e registravam nas pedras de uma cachoeira as pessoas que passavam por lá, de onde vinham, para onde iam. Esse registro histórico era coisa que meu pai adoraria saber. Tem muita coisa que gostaria de comentar com ele...

Qual foi sua primeira impressão ao conhecer Brasília? Vim para cá, pela primeira vez a passeio, em 1974. Era uma cidade muito diferente. Essas árvores diante do ministério eram pequenas ainda (risos). Brasília agora é muito mais verde. Ainda hoje paro e me surpreendo com a arquitetura da cidade. Juscelino foi muito ousado, ele trouxe o Brasil para dentro.