Correio braziliense, n. 20178, 19/08/2018. Brasil, p. 8
Confronto em Roraima
Gabriela Vinhal
19/08/2018
TERROR NA FRONTEIRA » Brasileiros e venezuelanos se enfrentam em Pacaraima, depois de um assalto sofrido por um comerciante na sexta-feira. Houve destruição de acampamentos e uso de bombas de gás contra os imigrantes. Governo enviará 60 homens da Força Nacional
Mais um tumulto entre venezuelanos e brasileiros elevou a tensão ontem, em Pacaraima, fronteira de Roraima com o país vizinho. Moradores da cidade destruíram os acampamentos dos imigrantes, que chegaram ao Brasil em busca de uma vida melhor. Sob o governo de Nicolás Maduro, a Venezuela vive há mais de dois anos um crise humanitária e econômica, que deixou milhares de pessoas desamparadas. Ontem à noite, o Ministério da Segurança Pública informou que enviará amanhã 60 militares da Força Nacional para Roraima, a fim de apoiar o contingente que já atua no estado.
De acordo com a Polícia Militar, o ato começou a partir de uma manifestação pacífica contra o onda migratória, convocada após um comerciante local ser espancado por quatro venezuelanos e ter R$ 23 mil roubados na noite de sexta-feira. O protesto levou cerca de mil moradores às ruas contra os venezuelanos que lá estavam.
Apesar de ter começado sem violência, o ato se dispersou. Moradores da cidade saíram em grupos e começaram a destruir e queimar pertences dos venezuelanos. Bombas de gás e pedras foram usadas contra os imigrantes. O confronto cresceu, saiu do centro da cidade e seguiu até a fronteira. Com pedradas, brasileiros impediam que venezuelanos atravessassem o local.
Com a confusão, venezuelanos também passaram a atacar os brasileiros e quebraram alguns carros que estavam na divisa. Não é o primeiro episódio xenofóbico no estado. Desde o início do processo migratório, Roraima já chegou a receber cerca de 130 mil venezuelanos, que buscaram refúgio no país.
Imagens do confronto circularam nas redes sociais e mostram roupas, colchões e outros objetos dos imigrantes sendo amontoados no meio da rua e queimados. Em um dos vídeos, um homem não identificado diz que o comerciante era boa pessoa e que, com os venezuelanos, “agora vai ser assim”. Raimundo Nonato de Oliveira, 55 anos, foi atacado quando chegava em casa e sofreu uma lesão na cabeça, possivelmente causada por uma paulada.
Ele foi socorrido pela equipe médica de plantão do Hospital Délio de Oliveira Tupinambá e encaminhado para Boa Vista em estado grave. De acordo com um último boletim de ocorrência, ele já se encontrava em situação estável.
Reforço na segurança
A Força-Tarefa Logística Humanitária, composta pelas Forças Armadas e integrada por organismos internacionais, ONGs e entidades civis, afirmou, em nota, que o assalto “gerou um descontentamento de alguns moradores” e, por isso, fizeram a “manifestação com atos de violência e destruição de acampamentos de imigrantes situados em alguns locais públicos”.
Segundo a força-tarefa, todo o efetivo de policiais militares da cidade foi enviado para conter as manifestações de violência. Parte da equipe médica do grupo também acabou deslocada para a unidade de saúde da cidade, o Hospital Délio de Oliveira Tupinambá, para apoiar eventuais casos, em consequência da manifestação.
“A Força-Tarefa Logística Humanitária repudia atos de vandalismo e violência contra qualquer cidadão, independentemente da nacionalidade. As Forças Armadas atuam em prol da sociedade brasileira, sempre disponíveis em ajudar a população em todo o território nacional”, diz, em nota.
Nos últimos dias, o fluxo de imigrantes que cruzam a fronteira aumentou para aproximadamente 500 pessoas por dia. O Exército estima, ainda, que mais de 2 mil venezuelanos estejam dormindo em barracas improvisadas no local. Para tentar conter a violência entre os grupos, a governadora Suely Campos pediu novamente ao governo federal reforço na segurança pública de Roraima. Em ofício enviado ao ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, quer o envio da Força Nacional de Segurança para atuar no policiamento.
A equipe da governadora afirmou que os pedidos de ajuda para a segurança estão sendo feitos desde 2016. No entanto, “não estão sendo atendidos — tanto para reforço policial em Pacaraima como recursos e equipamentos para as polícias locais atuarem na capital e no interior”. Ontem à noite, o governo federal atendeu o pedido. Segundo o Ministério da Segurança Pública, foi requisitado neste sábado um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para transportar 60 homens da Força Nacional, que vão se somar a 43 outros militares da tropa que já atuam em Roraima.
“Nosso estado está sofrendo com o aumento repentino da população. Com isso, registramos aumento também na criminalidade, mas, para combater, precisamos também do apoio do governo federal”, disse Suely. Além do reforço para segurança, o documento pede, ainda, medidas emergenciais para controle mais rigoroso da entrada de estrangeiros na fronteira com a Venezuela.
Frase
"As Forças Armadas atuam em prol da sociedade brasileira, sempre disponíveis em ajudar a população em todo o território nacional”
Trecho da nota divulgada pela Força-Tarefa Logística Humanitária