O globo, n. 31000, 22/06/2018. País, p.
Patrimônio de irmã de Romário cresceu 1.800% em dois anos
Marco Grillo e Thiago Prado
22/06/2018
Bens em nome de Zoraidi passaram de R$ 649 mil para R$ 12,4 milhões
O patrimônio da vendedora Zoraidi de Souza Faria, irmã do senador Romário (Podemos-RJ), cresceu 1.800% em um intervalo de dois anos. Documentos oficiais revelam que, em 2014, ela tinha R$ 649 mil em bens, valor que saltou para R$ 12,4 milhões em 2016 — o acréscimo significa que Zoraidi multiplicou por 19 suas posses. No mesmo período, a irmã de Romário, pré-candidato ao governo do Rio, conseguiu uma renda mensal de cerca de R$ 4 mil, em média, somados salário, lucro com aplicações financeiras e uma indenização trabalhista.
Ontem, O GLOBO mostrou que um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf ) encontrou indícios de lavagem de dinheiro em transações bancárias de Romário. O senador usa, por meio de uma procuração, uma conta aberta em nome de Zoraidi em uma agência do Banco do Brasil no Congresso Nacional. Segundo o Coaf, a conta recebeu R$ 8 milhões entre agosto de 2016 e abril de 2017. Já as saídas da mesma totalizaram R$ 7,5 milhões no mesmo período. O banco também foi usado para pagar despesas do pré-candidato com advogados e com a compra de uma casa em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio.
O imóvel, que custou R$ 6,4 milhões, aparece formalmente entre os bens de Zoraidi e é um dos responsáveis pelo salto patrimonial verificado em 2016. No mesmo ano em que desembolsou a maior parcela da compra da casa — uma parte já havia sido paga em 2015— , a irmã do senador ganhou apenas R$ 8 mil em salários de uma organização social que teve contrato com a prefeitura do Rio. Zoraidi ainda guarda R$ 600 mil em espécie, R$ 4,8 milhões em uma previdência privada e tem dois carros de luxo registrados em seu nome. Os veículos foram penhorados pela Justiça, que entendeu que o mecanismo foi uma forma de Romário ocultar o patrimônio para evitar o pagamento de dívidas.
PARCELAS DE R$ 166 MIL
Ao mesmo tempo em que mantém bens do senador em seu nome, Zoraidi assinou, entre 2015 e 2016, dois contratos de empréstimos que somaram R$ 10 milhões, em uma possível tentativa de justificar o lastro financeiro para o tamanho do patrimônio. Deste valor, R$ 4 milhões foram emprestados por Romário, e R$ 6 milhões pela RSF, empresas cujos donos no papel são a mãe e o pai do senador.
Ambos os acordos preveem que Zoraidi pague os valores devidos em 60 vezes. Sem levar em conta os juros previstos de 6% ao ano, a irmã do senador precisaria arcar com parcelas de R$ 166 mil para zerar o débito. Caso decidisse quitar o pagamento mensalmente, Zoraidi teria que multiplicar vinte e uma vezes sua renda mensal de cerca de R$ 4 mil apenas para honrar as parcelas da dívida contraída junto ao irmão e à empresa registrada em nome de seus pais.
Zoraidi e Romário foram procurados ontem para comentar a evolução patrimonial, mas não responderam.
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‘Não finjo ser decente e honesto, eu sou’
22/06/2018
Pelo Twitter, senador reafirmou que será candidato ao governo do Rio
O senador Romário (Podemos-RJ) publicou ontem no Twitter que está mantida a sua disposição para concorrer ao governo do Rio. Após a divulgação do relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf ) que colocou em xeque as suas movimentações financeiras, cresceu no mundo político do Rio a tese de que ele não levará adiante a sua candidatura:
— Volto a afirmar, eu não finjo ser decente e honesto, eu sou! E outra coisa, sou précandidato sim ao governo do Rio de Janeiro — escreveu.
A decisão de Romário pode mudar o xadrez eleitoral fluminense. Todas as pesquisas internas nas mãos de partidos o colocam como o líder disparado nas intenções de votos, seguido do ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), do ex-governador Anthony Garotinho (PRP), do deputado federal Indio da Costa e do vereador Tarcísio Motta (PSOL).
Seus adversários lembram as eleições de 2014 e 2016, quando Romário também ameaçou se candidatar para o Executivo, mas voltou atrás. Há quatro anos, a desistência de sair ao Palácio Guanabara ocorreu em 17 de fevereiro. Há dois anos, ele também abdicou da disputa pela prefeitura apenas em 21 de julho, às vésperas das convenções partidárias.
Desta vez, contudo, há fatores que tornam o futuro um pouco mais incerto. Romário é a grande estrela do Podemos no Rio, um partido que até o momento insiste no nome do senador Álvaro Dias como postulante ao Planalto. Para ser competitivo, Dias precisará, necessariamente, de um bom palanque no Rio.
Além disso, tem incomodado demais a Romário a fama que se estabeleceu no estado de que, a cada eleição, ele “negocia o passe” (é exatamente este o jargão futebolístico utilizado nas rodas de conversas entre políticos). Até agora, contudo, a agenda do senador é, sim, de um candidato.
Em fins de semana, quando não está em Brasília, seu perfil no Instagram revela viagens pelo interior do Rio para reuniões partidárias. Ele anunciou que estará hoje em São João da Barra e Campos dos Goytacazes. Em conversa recente com o deputado Indio da Costa, também pré-candidato ao mesmo cargo, Romário reafirmou que estará na disputa em outubro.
O senador não respondeu aos questionamentos do GLOBO sobre as informações contidas no relatório do Coaf. Ontem, no entanto, divulgou uma nota em que afirmou que os recursos que transitaram por sua conta bancária e pela da irmã, Zoraidi de Sousa Faria, “têm origem lícita” e são resultado dos anos de trabalho como “atleta mundialmente destacado”. Ele disse ainda que tomará “as medidas necessárias contra os responsáveis pelo acesso a dados protegidos” e destacou que “vazamento de sigilo bancário é crime”.