Correio braziliense, n. 20178, 19/08/2018. Mundo, p. 14
Kofi Annan, 80, Nobel da Paz
19/08/2018
OBITUÁRIO » Primeiro negro africano a assumir o posto de secretário-geral das Nações Unidas morre de uma “breve enfermidade” e deixa um legado de defesa dos direitos humanos, igualdade e combate à pobreza que lhe rendeu reconhecimento mundial
“Sou um otimista teimoso, nasci otimista e continuo otimista.” Assim, Kofi Annan se definiu em uma de suas últimas declarações públicas, em abril, ao completar 80 anos. O ex-secretário-geral da ONU (1997-2006) — primeiro negro africano a ocupar o cargo — e Prêmio Nobel da Paz reafirmava a confiança em um futuro com desenvolvimento social e igualdade entre os povos. Quatro meses depois, o mundo se despede, com consternação, do otimista que foi um dos maiores artífices dos direitos humanos, do combate à fome e à pobreza, da luta contra a Aids e pela paz mundial.
O ganense morreu na madrugada de ontem, “depois de uma breve enfermidade”, em um hospital de Berna, na Suíça, segundo comunicado de sua fundação, sediada em Genebra. A causa da morte ainda não foi divulgada. “Sua esposa, Nane, e seus filhos Ama, Kojo e Nina estavam junto a ele em seus últimos dias”, informou o comunicado. Segundo a agência suíça ATS, ele morreu em um hospital da parte alemã da Suíça, país que escolheu para viver.
Ativistas, autoridades e governos de todo o mundo expressaram tristeza e prestaram homenagens a Annan (Leia ao lado). O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, qualificou o seu antecessor como a “força que guiava para o bem”. “De muitas maneiras, Kofi Annan encarnava as Nações Unidas. Saiu das próprias fileiras para dirigir a organização para um novo milênio, com dignidade e determinação inigualáveis”, disse Guterres, que foi indicado por Annan para chefiar o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).
O Itamaraty divulgou nota de pesar, em que destaca a “admirável habilidade diplomática” de Annan e ressalta que “sua reconhecida autoridade moral o levou a continuar a atuar em favor de um mundo mais pacífico e justo até os últimos dias”. A nota do governo brasileiro define o ex-secretário-geral da ONU como um “amigo do Brasil” e lembra sua proximidade com o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, cuja morte, ocorrida em atentado a bomba contra a sede das Nações Unidas em Bagdá, completa hoje 15 anos. Os dois trabalharam juntos depois que Mello foi nomeado, em 1983, adjunto da chefia do Departamento de Recursos Humanos da Acnur, à época ocupada por Annan.
Dirigente popular
O Nobel da Paz nasceu em Kumasi, Gana, em 1938. Pela sua morte, o país decretou uma semana de luto nacional a partir de segunda-feira. Primeiro chefe da ONU originário da África Subsaariana, Annan foi secretário-geral da organização de 1º de janeiro de 1997 a 31 de dezembro de 2006. Ele também foi o primeiro funcionário de carreira das Nações Unidas a ocupar o mais alto cargo da instituição.
Annan enfrentou momentos desafiadores durante sua gestão, como a guerra do Iraque e acusações de corrupção no programa Petróleo por alimentos. No entanto, ao deixar o cargo, ele foi considerado um dos dirigentes mais populares da ONU. Junto com as Nações Unidas, Annan recebeu, em 2001, o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços “em favor de um mundo mais organizado e mais pacífico”. “Tentei situar o ser humano no centro de tudo: da prevenção dos conflitos ao desenvolvimento, passando pelos direitos humanos”, afirmou, ao receber o prêmio, em Oslo.
Salvo alguns anos como diretor de Turismo de Gana, Annan dedicou 40 anos de sua vida à ONU, onde primeiro dirigiu o setor de Recursos Humanos e, depois, o de Orçamento, antes de chefiar, a partir de 1993, o Departamento de Manutenção da Paz e de ser promovido, quatro anos mais tarde, à Direção da organização.
Momentos críticos
Foi à frente do serviço de manutenção da paz que ele viveu dois de seus períodos mais sombrios: o genocídio ruandês e a guerra na Bósnia. À época, os Capacetes Azuis se retiraram, em 1994, de Ruanda em pleno caos e violência étnica. Um ano mais tarde, a ONU não conseguiu impedir que as forças sérvias matassem milhares de muçulmanos em Srebrenica, na Bósnia.
“(Esses fracassos) me confrontaram com o que iria se converter em meu mais importante desafio como secretário-geral: fazer compreender a legitimidade e a necessidade de intervir em caso flagrante dos direitos humanos”, escreveu Kofi Annan em sua autobiografia.
Uma vez nomeado secretário-geral da ONU, Annan se adaptou rapidamente ao papel, multiplicando as aparições na televisão ou frequentando jantares em Nova York, até converter-se no que alguns classificaram de “estrela do rock da diplomacia”.
Em grande parte, Annan deveu sua nomeação aos Estados Unidos, que vetou um segundo mandato de seu predecessor, o egípcio Butros Butros-Ghali. Isso não o impediu de demonstrar independência ante as grandes potências. Ele irritou Washington ao classificar de ilegal a invasão ao Iraque em 2003, deflagrada mesmo sem a aprovação do Conselho de Segurança da ONU. “O pior momento foi a guerra do Iraque que, como organização, não pudemos deter, embora tenhamos feito tudo para isso”, disse, em entrevista de despedida das Nações Unidas.
Em contrapartida, Annan considerava uma de suas principais conquistas ter participado da criação do Objetivos do Milênio, um conjunto de metas, lançado em julho de 2005, com foco no combate à pobreza e à fome, na luta contra a Aids, na preservação do meio ambiente e no desenvolvimento sustentável.
Após concluir sua missão nas Nações Unidas, em fevereiro de 2012, ele foi escolhido, pela própria organização e pela Liga Árabe, para realizar uma mediação na guerra da Síria, mas jogou a toalha cinco meses depois. Acusou, então, as grandes potências de manter divergências que tornaram sua mediação uma “missão impossível”.
O diplomata criou a Fundação Kofi Annan dedicada ao desenvolvimento e à paz, e fez parte do grupo dos Elders (termo inglês que significa os mais velhos ou sábios), criado por Nélson Mandela para promover a paz e os direitos humanos. Ontem, o grupo resumiu a grandiosidade do membro ilustre em poucas palavras: “Uma voz de grande autoridade e sabedoria, em público e no privado”.
Em 10 datas
8 de abril 1938
Nasce em Kumasi, Gana, em uma família aristocrática da tribo dos Fante
1962
Depois de estudar economia em Genebra, entra para a Organização Mundial da Saúde (OMS). Trabalha em várias agências da ONU, em especial no Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur)
1993-1996
Atua como secretário-geral adjunto para as operações de manutenção da paz da ONU durante o genocídio de Ruanda e a guerra na Bósnia
1º de janeiro de 1997
Assume como secretário-geral da ONU. É reeleito para um segundo mandato de cinco anos em junho de 2001
12 de outubro de 2001
Ganha conjuntamente com a ONU o Prêmio Nobel da Paz
23 agosto de 2003
Veio ao Rio de Janeiro para o velório de Sérgio Vieira de Mello, morto em uma explosão na sede das Nações Unidas em Bagdá. O diplomata brasileiro foi adjunto de Kofi Annan na Acnur
2005
Vê-se envolvido em um escândalo de corrupção vinculado ao programa Petróleo por Alimentos no Iraque
2007
Soma aos Elders (os sábios), um grupo de personalidades internacionais que trabalha para a resolução de conflitos no mundo, lançado por Nelson Mandela. Cria a Fundação Kofi Annan
Fevereiro de 2012
Eleito pela ONU e pela Liga Árabe para mediar na guerra na Síria. Renúncia cinco meses mais tarde
18 de agosto 2018
Morre, na Suíça, aos 80 anos
Reações
“De muitas maneiras, Kofi Annan encarnava as Nações Unidas. Subiu nas fileiras para dirigir a organização para um novo milênio, com dignidade e determinação inigualáveis”
Antonio Guterres, secretário-geral da ONU
“O ex-secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan foi o primeiro da África Subsaariana a ocupar essa exaltada posição. Ele trouxe considerável renome ao nosso país por essa posição e por sua conduta e comportamento em a arena global”
Akufo-Addo, presidente de Gana
“O maior reconhecimento que podemos fazer a Kofi Annan é preservar seu legado e seu espírito (…) Ele dedicou sua vida a fazer do mundo um lugar mais pacífico e unido”
Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia
“O governo brasileiro deseja que seja sempre recordado o legado de Kofi Annan, um dos maiores defensores do multilateralismo, para que suas ações e seus ideais de paz, justiça e tolerância continuem a servir de inspiração para as gerações vindouras”
Ministério das Relações Exteriores do Brasil
“Um grande líder e diplomata extraordinário (…) hasteou a bandeira da paz em todo o mundo”
Cyril Ramaphosa, presidente da África do Sul
“Uma voz de grande autoridade e sabedoria, em público e no privado”
The Elders, grupo fundado por Nelson Mandela, do qual Kofi Annan fazia parte, para promover a paz e os direitos humanos
“Me entristece a notícia da morte de Kofi Annan. Era um homem de Estado excepcional a serviço da comunidade mundial.”
Angela Merkel, chanceler alemã
“Não esqueceremos jamais o seu olhar tranquilo e decidido, nem a força de suas lutas,”
Emmanuel Macron, presidente da França