O globo, n. 31030, 22/07/2018. País, p. 4

 

A acirrada briga da esquerda por apoio do PSB

Catarina Alencastro

22/07/2018

 

 

PT tenta obter ao menos neutralidade de socialistas para não dar mais espaço a Ciro e manter hegemonia

A desistência do bloco de cinco partidos do centrão de apoiar a candidatura do pedetista Ciro Gomes empurrou a esquerda para uma disputa fratricida em torno do apoio do PSB. Além de Ciro, o PT faz um cerco agressivo aos pessebistas. O partido sabe que não pode contar com o PSB para uma aliança formal em torno da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso há mais de três meses em Curitiba, e seu eventual substituto. Mas não desiste de tentar impedir uma adesão oficial do partido à campanha do PDT, para manter a hegemonia na esquerda. Sem o centrão, Ciro e o candidato do PT passam definitivamente a concorrer no mesmo campo por uma vaga no segundo turno.

Enquanto o PT se concentra em conquistar a neutralidade do PSB, o PDT mantém conversas diárias com caciques da sigla para não sofrer mais uma derrota. Para o PT, o ganho seria simbólico, uma demonstração de que, mesmo com seu maior líder preso, continua a ser um grande ator político.

PERNAMBUCO É PEÇA-CHAVE

Para o PDT, a aliança representaria um salto importante no tempo de TV. Além disso, Ciro ganharia entrada no segundo maior colégio eleitoral do país, Minas Gerais, tendo como vice o ex-prefeito de Belo Horizonte Márcio Lacerda. O nome dele está acertado no caso de confirmação do apoio do PSB a Ciro.

O presidente do PSB, Carlos Siqueira, que nutre preferência não declarada a Ciro, tem se limitado a dizer que é contra a neutralidade do partido. A pressão sobre Siqueira é grande dos dois lados. O presidente do PDT, Carlos Lupi, diz que conversa com ele todos os dias. E a presidente do PT, Gleisi Hoffman, encontrou-se com ele quase uma dezena de vezes nas últimas semanas.

Gleisi e Siqueira não falam, porém, a mesma língua. A senadora é aguerrida e inflamada. Siqueira, manso. Outro dia, quando debatiam o texto da frente ampla de esquerda em defesa da democracia, Gleisi insistia numa crítica ao Judiciário, mas Siqueira foi contra.

— O Siqueira é quase um monge. E a Gleisi, num debate, se levantou da mesa falando alto e xingando o Judiciário. Perplexo, ele se levantou e foi embora — disse um petista.

O PT centra todas as suas fichas no principal bunker de resistência no PSB ao apoio a Ciro: Pernambuco. Gleisi esteve na semana passada com o governador Paulo Câmara, fervoroso defensor de Lula. Os petistas jogam com o temor de Câmara de perder a reeleição para Marília Arraes, a vereadora de Recife que está praticamente empatada com ele nas pesquisas de intenção de votos. Além disso, Câmara comanda um estado onde Lula detém mais de 60% da preferência eleitoral.

— Se não tiver o PSB, o PT vai investir tudo na campanha de Marília. Paulo Câmara já sentiu que ela tem um potencial enorme no estado — disse um petista de Pernambuco.

Além de Pernambuco ter o maior diretório, Paulo Câmara é vice-presidente do PSB. Sua posição tem peso, mas o restante da cúpula partidária prefere Ciro. O ex-prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, e o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, defendem essa posição. A decisão será tomada na reunião do diretório nacional no dia 30.

— PDT e PSB juntos dão à centro-esquerda um tamanho importante, sem ter mais o PT, que ficou estigmatizado por todos os erros cometidos, como referência. Seríamos uma visão mais moderna e progressista — disse o presidente da Fundação João Mangabeira, Renato Casagrande, outro defensor da adesão a Ciro.

Além do PSB, outro partido de esquerda que vem sendo cortejado por PT e PDT é o PCdoB, que mantém a candidatura de Manuela D'Ávila para o Palácio do Planalto. Num prazo de 48h, na semana passada, a presidente do partido foi procurada por Gleisi e Ciro.

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Uma rivalidade histórica

Guilherme Evelin

22/07/2018

 

 

Há quase 40 anos, petistas e pedetistas se digladiam pelo comando da esquerda

Com lenço vermelho no pescoço e “Brizola na alma”, o presidente do PDT, Carlos Lupi, viu o lançamento da candidatura de Ciro Gomes, na última sexta-feira, como uma “oportunidade para virar o jogo” numa disputa histórica. Há quase 40 anos, PT e PDT competem pelo comando da esquerda — e, desde 1989, quando Luiz Inácio Lula da Silva suplantou Leonel Brizola por 450 mil votos e passou para o segundo turno da eleição contra Fernando Collor, esse jogo está sendo vencido pelo PT.

A rivalidade entre os dois partidos começou na abertura política da ditadura, quando Brizola tentava recuperar o comando do PTB criado por Getulio Vargas. De volta do exílio, Brizola foi ao encontro de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo para explorar uma aliança. Mal-humorado, por entender que o getulismo gerara o peleguismo sindical, Lula recebeu Brizola sentado em sua mesa. Quando Brizola falou das “tradições trabalhistas de Getulio”, Lula o interrompeu, seco.

— Getulio ferrou o trabalhador — afirmou.

O encontro constrangedor terminou sem Lula se levantar para se despedir de Brizola. No segundo turno de 1989, Brizola engoliu o “sapo barbudo”, como chamou Lula, e transferiu votos para o PT. Mas Brizola nunca deglutiu totalmente o revés — mesmo depois de ter sido vice de Lula em 1998.

Quatro anos depois, Brizola ficou exultante quando Ciro, então filiado ao PDT, liderou por algum tempo a corrida presidencial. Na convenção em Pindamonhangaba (SP), em que Ciro foi oficializado como candidato, Brizola, convencido de que o trabalhismo varguista seria ressuscitado, leu emocionado a carta testamento de Getulio. Com a ida do PT para o Planalto, com menos de um ano de mandato de Lula, Brizola rompeu com o governo.

De novo com Ciro, os pedetistas esperam finalmente deixar a posição subalterna em relação aos rivais.

— Nós sempre os apoiamos. Chegou a vez de eles nos apoiarem — disse Lupi.

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Doações fantasmas ao PDT entram na mira da Lava-Jato

Hudson Côrrea

22/07/2018

 

 

Valores foram recebidos por Carlos Lupi e tesoureiro Marcelo Panella

‚ÄčA Procuradoria da República vai investigar doações de empresas fantasmas ao PDT, do presidenciável Ciro Gomes. O valor de R$ 500 mil foi recebido pelo presidente do partido, Carlos Lupi, e pelo tesoureiro, Marcelo Panella, em maio de 2010. As cinco doadoras pertencem ao grupo de empresas de fachada criadas pelos empresários Samir e Adir Assad, e aparecem na delação que eles fizeram na Lava-Jato em agosto de 2017.

— A colaboração dos irmãos Assad foi homologada em três locais diferentes: Rio, São Paulo e Curitiba. Com certeza iremos investigar. Só não sabemos ainda quem ficará responsável — disse o procurador Eduardo El Hage.

Outros três casos de doações suspeitas, descobertos na Lava-Jato, também envolvem o PDT. Incluindo os R$ 500 mil atribuídos a fantasmas, as contribuições duvidosas somariam R$ 9,4 milhões entre 2010 e 2014. Ciro Gomes se filiou ao partido em setembro de 2015.

Lupi e Panella são amigos há mais de 30 anos. Quando um assumiu a presidência do PDT, em 2004, o outro ficou com a tesouraria do partido. Panella é empresário, responsável por lotear uma fazenda de plantação de laranjas herdada do pai. Lupi virou ministro do Trabalho no segundo mandato do governo Lula, e o companheiro chefiou o gabinete.

O empresário Adir Assad promovia shows em São Paulo, até entrar no negócio de fazer caixa dois para grandes empreiteiras do país. O esquema parecia perfeito por envolver apenas firmas privadas. A partir de 2008, Assad criou empresas fantasmas de terraplanagem. Ele colocava apenas uma máquina no canteiro de obras e cobrava por mais de 50.

— Quem vai saber o tamanho do buraco que fiz. A Receita Federal não consegue dimensionar — disse Assad ao juiz Marcelo Bretas, em agosto passado.

Empreiteiras como Andrade Gutierrez, Delta e Carioca Engenharia pagavam a Assad pelo serviço não realizado. Ele retinha comissão de até 20% e devolvia o resto em espécie. Mantinha estrutura de segurança para fazer saques na boca do caixa. A lavagem de dinheiro permitia às construtoras pagar propina a políticos pelo caixa dois sem que os órgãos de fiscalização detectassem. Em depoimento a Bretas, Assad listou as empresas fantasmas que usava.

INQUÉRITO NO STF

Legend Engenheiros Associados, SP Terraplanagem, Power To Tem, JSM Engenharia e Soterra Terraplanagem doaram juntas R$ 500 mil ao PDT no dia 5 de maio de 2010. Foram as primeiras contribuições daquele ano ao partido. Lupi e Panella assinaram o demonstrativo de doação.

— As empresas tinham CNPJ à época. Não é nossa competência examinar anos depois se eram de fachada ou não — afirmou Lupi. — Não há ato ilícito em receber doação oficial e com recibo. Todas as denúncias dos delatores premiados não têm prova. Minha consciência é limpa — acrescentou.

Há outra movimentação suspeita nas contas do partido em 2010. Alvos da Lava-Jato, as distribuidoras de bebidas Leyroz de Caxias e a Praiamar Indústria deram juntas R$ 500 mil ao PDT. Delatores da Odebrecht disseram que a empreiteira usava as duas empresas para ocultar ajuda a políticos. Para tanto, acionava o Grupo Petrópolis, dona da cervejaria Itaipava, que, por sua vez, repassava a tarefa à Leyroz e Praiamar.

A Procuradoria da República considera a triangulação crime de falsidade ideológica eleitoral. O GLOBO obteve os depoimentos de Roberto Lopes, dono das distribuidoras de bebidas, e Walter Faria, proprietário da Itaipava. Lopes diz que, por indicação de Faria, fez o repasse ao PDT e a inúmeros partidos. Faria confirma que a Odebrecht pediu a intermediação do Grupo Petrópolis, mas diz que a operação foi registrada na Justiça Eleitoral, e não deu prejuízo porque descontou os valores do que pagaria à Odebrecht pela construção de fábricas de cerveja.

Panella e Lupi respondem a inquérito aberto no Supremo Tribunal Federal (STF), que apura peculato (corrupção de servidor público) e lavagem de dinheiro. Em abril, o ministro Edson Fachin mandou o caso à Justiça de São Paulo porque envolve o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega. Delatores da Odebrecht afirmam que Mantega pediu repasse de dinheiro a partidos em troca de tempo na TV para a reeleição de Dilma Rousseff.

O executivo Fernando Reis afirma que despachou R$ 4,4 milhões para o PDT. Diz que acertou o repasse num encontro com Panella na Confeitaria Colombo, no Centro do Rio. A entrega ocorreria em quatro vezes. Um emissário pediria a senha antes de entregar as malas de dinheiro. Torcedores do Fluminense, Panella e Reis teriam combinado as senhas com nomes de ex-jogadores do time: Fred, Conca, Assis e Washington. Em depoimento à PF, Panella disse que pediu apenas doações oficiais e nem foi atendido.

O nome de Lupi também aparece na delação do executivo da Ricardo Saud, do Grupo JBS. Segundo ele, a empresa pagou propina de R$ 4 milhões “na forma de doações oficiais para o diretório nacional”. A acusação ainda dormita no imenso processo da delação da JBS em tramitação no STF.

— As contas aprovadas do partido são a prova da lisura dos atos. Todas essas acusações não têm sequer uma prova — afirma Lupi.