O globo, n. 31029, 21/07/2018. Economia, p. 9

 

Trava no mercado de trabalho

Geralda Doca

Daiane Costa

21/07/2018

 

 

País tem o primeiro mês com fechamento de vagas em 2018, e o pior junho em dois anos

Depois de cinco meses consecutivos de criação de emprego, o mercado de trabalho formal parou de crescer em junho. As demissões voltaram a superar as admissões, com o fechamento de 661 vagas, segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados ontem pelo Ministério do Trabalho. É o pior resultado para o mês nos últimos dois anos e veio muito abaixo das estimativas do mercado. A mediana de projeções da Bloomberg projetava criação de 55 mil vagas. Indústria e comércio tiveram desempenho ainda pior: fecharam perto de 21 mil postos de trabalho, cada um.

Segundo economistas, os números negativos refletem a piora do nível de confiança dos empresários, resultado do que consideram uma condução desastrosa, por parte do governo, do desfecho da greve dos caminhoneiros, ocorrida em maio.

— A confiança, já abalada pelo cenário eleitoral incerto, diminuiu ainda mais. A greve expôs a fragilidade do governo em lidar com pressões setoriais, pois sacrificou as contas públicas para atender às reivindicações dos caminhoneiros. E ninguém contrata sem saber o que vai ser da economia lá na frente, pois é um investimento caro, de retorno em longo prazo — avalia Fábio Bentes, economista da Confederação Nacional do Comércio e Serviços (CNC).

EFEITO COPA DO MUNDO

A greve também pode ter adiado para junho demissões que seriam feitas em maio, pondera o economista do Ibre/FGV Bruno Ottoni. O presidente em exercício da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), José Ricardo Roriz, diz que também há um efeito Copa do Mundo sobre os dados negativos:

— Tivemos 20 dias sem trabalhar a plena carga, o que pode ter inibido contratações.

O saldo acumulado nos seis primeiros meses do ano, no entanto, segue positivo, com a geração de 392.461 vagas. Mas, esse abalo maior da confiança, combinado com as projeções de um PIB subindo 1,5%, deve fazer esse montante ficar menor até o final do ano. Nas contas da Tendências Consultoria Integrada, o país deve encerrar 2018 com um saldo positivo (diferença entre admissões e demissões) de 350 mil empregos.

— Mesmo antes da greve dos caminhoneiros, o mercado já dava sinais de recuperação lenta. Começamos 2018 pior do que nos anos anteriores em termos de geração de empregos — lembra Thiago Xavier, da Tendências.

Os dados de mercado de trabalho apurados mensalmente pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, que considera o emprego com e sem carteira, também já mostravam uma dificuldade de a economia gerar vagas. No trimestre encerrado em maio, a taxa de desemprego ficou em 12,7%, atingindo 13,2 milhões de pessoas. O índice se manteve estável em relação ao período anterior graças ao aumento do trabalho informal.

— Há muitos meses é a informalidade que impede que a taxa de desemprego continue crescendo — disse Fábio Bentes.

Para o economista da CNC, os empregos no comércio e na indústria acabam sendo os mais afetados porque são os dois setores que mais dependem da confiança — não só dos empresários como do consumidor — e da renda, que não cresce há mais de um ano.

— O dólar e a inflação mudaram de de patamar, e a segunda metade do ano deve ser ainda mais difícil — analisa Bentes.

SÓ AGRO E SERVIÇOS GERARAM EMPREGO

O mercado de trabalho formal começou o ano aquecido, mas está em processo de desaceleração. Em maio, foram criados 33.659 empregos, até então o pior resultado do ano, influenciado pela greve dos caminhoneiros, que começou no dia 20, somando dez dias de paralisação. Em junho, somente dois setores criaram empregos, a agropecuária, com saldo positivo de 40.917 postos, e serviços, com 589.

O comércio fechou o mês de junho com saldo negativo de 20.971 postos, seguido pela indústria de transformação, onde as demissões superaram as contratações em 20.470. Na construção civil, foram fechadas 934 vagas, e, na administração pública, outras 855.

No mês passado, dos 12 subsetores da indústria, 11 registraram saldos negativos. A exceção foi a indústria química. Apesar disso, entre janeiro e junho, o setor acumula resultado positivo de 75.726 postos. Já o comércio fechou 94.839 vagas no primeiro semestre de 2018 — o pior desempenho entre os principais setores da economia. Considerando os últimos 12 meses, foram criados apenas 24.605 empregos com carteira assinada no comércio.

O trabalho intermitente, nova modalidade de contratação instituída pela reforma trabalhista, em vigor desde novembro do ano passado, ficou com um saldo positivo de 2.688 empregos em junho —foram 4.068 admissões e 1.380 desligamentos.

O nível do emprego com carteira assinada em junho caiu em seis estados: Paraná, Rio Grande do Sul, São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Bahia. No conjunto das regiões metropolitanas, o resultado do mercado formal ficou negativo em 19.422 empregos, de acordo com o Caged.

Segundo o especialista em mercado de trabalho Rodolfo Torelly, o resultado de junho carrega os impactos negativos da greve dos caminhoneiros, mas também as incertezas do cenário eleitoral, que estão influenciando as expectativas e reduzindo as contratações.

— Sem confiança, ninguém investe e muito menos emprega — destacou.