O globo, n. 31025, 17/07/2018. País, p. 6
Investigado, ministério do trabalho é invadido
Jailton de Carvalho e Adirana Mendes
17/07/2018
Servidores encontram documentos espalhados no chão, e PF apura se há tentativa de destruição de provas
-BRASÍLIA- A Polícia Federal vai abrir inquérito para investigar a invasão de duas salas do Ministério do Trabalho durante o fim de semana. Ontem pela manhã, quando chegaram ao trabalho, funcionários encontraram vários documentos oficiais espalhados pelo chão na sobreloja do prédio onde funcionam os setores de segurodesemprego, big data (central de computadores da pasta) e a Secretaria de Políticas Públicas. Pelo menos quatro laptops foram roubados, diz a PF.
Um grupo de servidores do alto escalão do ministério está no centro da Operação Registro Espúrio, investigação sobre fraudes na concessão de registros sindicais. A operação já resultou na prisão do ex-secretário executivo Leonardo Arantes e na queda do agora ex-ministro Helton Yomura. Entre os alvos da investigação está também o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, um dos mais próximos auxiliares do presidente Michel Temer.
No início do mês, a Polícia Federal solicitou busca e apreensão no gabinete do ministro, no Palácio do Planalto. Mas, com parecer contrário da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, o ministro Edson Fachin, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF), rejeitou o pedido. Ao longo da investigação, a Polícia Federal descobriu registros de conversas de Viviane Melo, chefe de gabinete de Marun, com dirigentes do Ministério do Trabalho suspeitos de participação na emissão ilegal de registros de sindicatos.
Ela teria pedido o registro de vários sindicatos. Para a polícia, a assessora agia em nome do ministro. Quando o caso veio a público, Marun criticou a polícia, mas reconheceu que a assessora teve conversas com pelo menos um dos servidores do Ministério do Trabalho investigados por suposto envolvimento na concessão indevida de registro a sindicatos. O ministro alegou, no entanto, que apenas encaminhou ao Ministério do Trabalho pedidos recebidos de sindicalistas no Mato Grosso.
Também são investigados na operação os deputados Jovair Arantes (PTB-GO), Paulinho da Força (SD-SP), Nelson Marquezelli (PTB-SP) e Wilson Filho (PTB-PB), entre outros. Todos negam qualquer irregularidade. A polícia suspeita que políticos e servidores do ministério vendiam registros a sindicatos. Parte das transações se destinaria a arrecadação de dinheiro. Uma outra parte teria como objetivo o controle político dos sindicatos e, assim, influência decisiva sobre grupos de eleitores.
A polícia trabalha com a hipótese de que o ex-ministro Yomura agiu, no período em que esteve à frente do ministério, como “testa de ferro” dos interesses da deputada Cristiane Brasil (PTB-RJ) e de seu pai, o ex-deputado Roberto Jefferson. Cristiane foi impedida de assumir a pasta no início do ano, após a revelação de que fora processada por ex-funcionários na Justiça do Trabalho e que usava contas de uma outra funcionaria para fazer o pagamento de suas condenações. Chamado para depor sobre o assunto há duas semanas, Yomura permaneceu calado.
Ao longo do dia de ontem, a polícia recolheu digitais, fez levantamento dos eventuais danos causados e interrogou servidores. A apuração preliminar não indicou vínculos entre a invasão e a Registro Espúrio.
— As investigações estão em andamento. Não tem nada concluído. Mas ainda não encontramos indícios de que tenha havido tentativa de destruição de provas da Espúrio — disse um investigador.
Mesmo assim, segundo ele, a polícia tem obrigação de abrir inquérito formal e esclarecer o que aconteceu. Os investigados na operação trabalham em outras áreas, não vinculadas às salas invadidas. O novo ministro do Trabalho, Caio Vieira de Mello, tomou posse na última quinta-feira e suspendeu todos os procedimentos de análise e as publicações relativas a registros sindicais na pasta pelo prazo de 90 dias. Ele disse que, “se for necessário, será feita” uma limpa no ministério.
SUPERINTENDENTE NO RIO
A Operação Registro já resultou também nas prisões do chefe de gabinete do Ministério do Trabalho, Júlio de Souza Bernardes, conhecido como Canelinha, de Jonas Antunes Lima, chefe de gabinete do deputado Nelson Marquezelli e do superintendente do Ministério do Trabalho no Rio de Janeiro, Adriano José Lima Bernardo. Dois ex-servidores, Leonardo e Rogério Arantes, estão presos em caráter preventivo desde o início do mês passado. Os dois são sobrinhos de Jovair Arantes.
Investigadores estão analisando documentos apreendidos nas três primeiras fases da operação e a indicação é que o caso avance ainda mais.