Título: Delta atrasa salário de terceirizados
Autor: Abreu, Diego
Fonte: Correio Braziliense, 03/05/2012, Política, p. 6

OPERAÇÃO MONTE CARLO/ Funcionários são responsáveis pelo serviço de limpeza pública no DF da empresa ligada a Cachoeira. Em protesto devido à falta de pagamento, eles fecharam o acesso à construtora

A crise que atinge a Delta Construções, em virtude do envolvimento do bicheiro Carlinhos Cachoeira com a empresa, já afeta a prestação do serviço de limpeza pública, em Brasília. Ontem, cerca de 20 caminhoneiros que prestam serviço à Delta cruzaram os braços e bloquearam os portões de entrada e saída da companhia, na Avenida das Nações, próxima ao Centro Universitário UniEuro. O grupo, que organizou a manifestação para cobrar os pagamentos que estão atrasados desde o fim de janeiro, ficou no local por mais de cinco horas e só liberou o acesso depois da promessa de quitação de dois meses da dívida até a próxima terça-feira.

Envolvida em escândalos de fraude, a Delta presta serviço de limpeza urbana no DF. Por volta das 7h de ontem, os primeiros caminhões foram estacionados em frente à sede da empresa, impedindo a saída dos veículos de coleta de lixo. Representantes da Delta acionaram a polícia, que chegou ao local pouco antes das 11h, mas não retirou os manifestantes, uma vez que a empresa se dispôs a negociar a dívida.

De acordo com o motorista de caminhão Lourival de Souza Dias, 45 anos, o pagamento não é depositado para os terceirizados desde 30 de janeiro. Os caminhoneiros prestam o serviço de retirada de entulhos e galhos, que são levados para a Estrutural. “Não estamos obstruindo via pública, só a entrada de caminhões de coleta de lixo. Vamos ficar aqui por tempo indeterminado até recebermos o que nos devem”, disse o trabalhador no momento em que começou o protesto. Ele relatou que a empresa lhe deve mais de R$ 20 mil, já que são quatro parcelas de R$ 5,5 mil em atraso.

Diante da promessa de que os manifestantes não sairiam do local até que o pagamento fosse feito, a Delta concordou em conversar com os prestadores de serviço e com representantes do Serviço de Limpeza Urbana do Distrito Federal (SLU). A empresa pretendia pagar uma primeira parte da dívida no dia 14, mas cedeu ao se comprometer a quitar o equivalente a dois meses de serviços prestados até o dia 8 deste mês.

Promessa “Assinaram uma ata com o compromisso de pagar até terça. Se eles não pagarem, o SLU vai suspender os repasses feitos à Delta e nós voltaremos a bloquear o local já na próxima quarta de manhã”, alertou o caminhoneiro Alexandre Pessoa, 30 anos, que é um dos cerca de 50 prestadores de serviço que não estão recebendo em dia.

Um dos manifestantes, Lenilson de Souza, 38, disse que interrompeu a prestação do serviço ainda em janeiro, após a Delta atrasar o primeiro pagamento. Durante a manifestação, funcionários da Delta apoiaram o ato dos terceirizados. Eles, porém, relatam que têm recebido o salário normalmente.

Na semana passada, o proprietário da companhia, Fernando Cavendish, pediu afastamento do comando da Delta, sendo substituído por Carlos Alberto Verdini. Procurada, a Delta informou “que já tomou todas as providências para regularizar o pagamento, que será efetuado em até cinco dias úteis”.

Empresa na mira

A Delta é alvo de investigações em pelo menos seis frentes, pelos governos do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso e Amazonas, além do Executivo federal e da CPI do Cachoeira. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Ministério Público apura a dispensa de licitação vencida pela Delta para o serviço de lixo da prefeitura de Duque de Caxias. Em todo o país, a construtora tem 300 contratos e foi a que mais recebeu repasses da União em 2011. Auditoria da Controladoria-Geral da União identificou irregularidades em 60 acordos, no valor de R$ 632 milhões, entre 2007 e 2010.