Título: União instável
Autor: Vicentin , Carolina
Fonte: Correio Braziliense, 13/05/2012, Mundo, p. 20

A escolha de um presidente socialista na França e o não dos gregos aos partidos favoráveis à austeridade, há uma semana, deixaram o sistema financeiro europeu à beira de um ataque de nervos. Essas eleições, no entanto, não foram as primeiras que evidenciaram o descontentamento da população com a condução da crise no continente. Nos últimos dois anos, diversos países assistiram a trocas ideológicas de governo e ao fortalecimento de legendas com inclinação radical, tanto para a direita como para a esquerda. Sem encontrar a medida que tranquilize os mercados e, ao mesmo tempo, agrade aos cidadãos, a Europa deve enfrentar, na melhor das hipóteses, um longo período de tensão e instabilidade. Embora não haja uma regra, nações mais ao norte do continente têm experimentado uma ascensão de partidos conservadores (veja arte). Em alguns lugares, as alianças são formadas com a participação de legendas de extrema direita, que defendem políticas no limite da legalidade. Na Hungria, o nacionalista Jobbik levanta a bandeira da xenofobia e chegou a organizar manifestações pedindo a saída do país da União Europeia, em janeiro. "Esmagadas por forças além de seu controle, as pessoas se voltam contra os "estranhos" em seu meio e se refugiam na fortaleza do nacionalismo", comenta a jornalista Maria Margaronis, especialista em política europeia, em artigo publicado no semanário norte-americano The Nation. Até mesmo entre os franceses, que elegeram o socialista François Hollande no último domingo, há um forte apoio à ultradireita. No primeiro turno, ainda em abril, a líder da Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, obteve 17,9% dos votos. Seu capital político pode não ter sido capaz de levá-la ao segundo turno, mas impulsionou a briga por cadeiras nas eleições legislativas do mês que vem (leia reportagem na página 21). Seria a primeira oportunidade de a FN conquistar esse tipo de espaço na política francesa. Na Grécia, a tendência vem do lado oposto. Os partidos de centro-direita não conseguiram formar um governo de coalizão após a eleição legislativa de 6 de maio. Em meio à indefinição, o candidato da aliança Syriza, de esquerda radical, tem conquistado cada vez mais adeptos. Alexis Tsipras, que ficou em segundo lugar nas urnas, com 16,8% dos votos, promete oposição às medidas de austeridade da União Europeia, redistribuição de riqueza e restauração de direitos sociais — tudo o que o sistema financeiro europeu mais teme. Seja como for, é improvável que as boas intenções de Tsipras, ou mesmo as promessas esquerdistas de François Hol-lande, na França, se traduzam em mudanças políticas reais para a Europa. "Ainda que haja uma alternância do ponto de vista ideológico, os governos têm muito pouco espaço de manobra", observa Sérgio Costa, sociólogo brasileiro radicado na Alemanha, onde a novidade no cenário político é uma legenda de protesto. "Os países assumem compromissos internacionais e, se tentarem fugir disso, perdem a credibilidade. Hoje, as agências de classificação de risco acabam por ter o poder de definir a política", disse o especialista, pesquisador na Universidade de Berlim.

Diálogo

É por conta disso que a conversa entre o presidente francês e a chanceler (chefe de governo) alemã, Angela Merkel, não deve provocar uma turbulência ainda maior no continente. Hollande, que viajará a Berlim logo após a posse, na próxima terça-feira, propôs medidas de crescimento para o bloco europeu, uma sugestão que contrariou Merkel. A chanceler vem avisando que novos gastos públicos não serão autorizados, mas analistas acreditam que alguma mudança deve surgir das negociações. "As reações à "política do crescimento" de Hollande têm sido positivas, em parte porque muitos países odiavam a arrogância da dupla "Merkozy"", lembra Virginie Guiraudon, professora do Centro de Estudos Europeus no Instituto de Estudos Políticos de Paris, o conceituado Sciences Po. "É possível, até mesmo, que Merkel aproveite a eleição do socialista francês para mudar sua estratégia", especula a pesquisadora. Em um cenário de crise econômica, nunca se sabe quando a avalanche vai chegar. Com a instabilidade constante, especialistas não sustentam uma previsão otimista, na qual o euro estaria estável e as nações europeias voltariam a crescer em poucos meses. "É um tabuleiro de xadrez dificílimo, não há saídas fáceis", comenta o sociólogo Sérgio Costa. O brasileiro também não vislumbra o pior cenário, com o colapso da Grécia sendo seguido por um processo semelhante na Espanha e em Portugal. "Creio que o sistema financeiro vai acompanhar tudo com muita cautela e a política da União Europeia vai ser de apagar incêndios. Será a administração do risco nos próximos meses ou anos", aposta.

Onda pirata Em meio ao medo da crise e ao crescimento de legendas nos extremos do espectro político, emerge na Europa um novo movimento: o Partido Pirata. A legenda está presente em algumas dezenas de países e, na Alemanha, chegou em quarto lugar na eleição legislativa do maior estado do país, ficando atrás apenas dos partidos mais tradicionais. Os piratas pregam princípios de transparência e de "organização horizontal" — tanto é que têm dificuldades para apontar uma liderança. "Eles querem tornar a política transparente, o que é uma ilusão, mas sua existência representa uma mudança importante na sociedade", diz o sociólogo Sérgio Costa.