Correio braziliense, n. 20165, 06/08/2018. Mundo, p. 12

 

Maduro promete resposta implacável

06/08/2018

 

 

VENEZUELA » Presidente adverte que “não vai haver perdão” para os responsáveis por incidente classificado como um ataque com explosivos na noite de sábado, em Caracas. Seis pessoas são presas, e oposição teme o endurecimento das perseguições políticas no país

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, promete ser implacável contra os responsáveis por um ataque com explosivos do qual afirma ter sido vítima na noite de sábado. “Justiça! Máximo castigo! E não vai haver perdão (…), os perseguiremos e os capturaremos onde quer que estejam escondidos. Eu prometo!”, garantiu, em um discurso depois do incidente, do qual saiu ileso. Agora, a oposição teme uma onda repressiva ainda mais dura do que o tratamento normalmente dispensado aos adversários do regime. “Alertamos que o que foi anunciado pelo governo madurista abre a porta para uma perseguição e uma onda de repressão que pode justificar qualquer coisa”, adverte Nicmer Evans, dissidente do chavismo e líder da opositora Frente Ampla, chamando o atentado de “show madurista” em sua conta no Twitter. Seis suspeitos de envolvimento no ataque estão presos.

Desde 2013 no poder, Maduro enfrenta uma enorme rejeição popular, em consequência do colapso econômico que assola o país, e culpa a “ultradireita” de tramar o que teria sido, segundo ele, uma tentativa de matá-lo. As explosões ocorreram durante um desfile militar em comemoração aos 81 anos da Guarda Nacional Bolivariana, no centro de Caracas. O governo diz que drones lançaram bombas contra pontos da Avenida Bolívar e na direção do palanque em que o presidente estava, ao lado da mulher, Cilia Flores, e de outros importantes nomes do governo.

Um vídeo divulgado pelo Palácio de Miraflores mostra o momento em que uma explosão é ouvida, e os seguranças de Maduro cobrem-no com um colete à prova de balas. Ao contrário do presidente, que permaneceu de pé e tentou observar o que acontecia, vários militares a seu lado se abaixaram e, pouco depois, o governante foi retirado do local. Maduro acusou os Estados Unidos e o líder colombiano, Juan Manuel Santos, de terem planejado o ataque, no qual sete militares ficaram feridos, segundo o governo, sem gravidade.

“Trata-se de um atentado para me matar, tentaram me assassinar no dia de hoje (sábado). Não tenho dúvidas de que o nome de Juan Manuel Santos está por trás deste atentado”, afirmou Maduro, logo após o incidente. “São absurdas e carecem de qualquer fundamento as declarações de que o presidente colombiano seria o responsável pelo suposto atentado contra o presidente venezuelano”, reagiu o Ministério das Relações Exteriores da Colômbia em um comunicado. O conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, John Bolton, também negou qualquer vínculo dos Estados Unidos com o episódio. “Posso afirmar, categoricamente, que não houve absolutamente nenhuma participação do governo americano no que aconteceu”, afirmou Bolton ao canal Fox.

Repúdio

Aliados de Caracas, os governos de Cuba, Bolívia, Síria, Irã, Turquia e Rússia condenaram o incidente. Em um tuíte, o líder do governista Partido Comunista de Cuba (PCC), Raúl Castro, e o presidente do país, Miguel Díaz-Canel, rechaçaram “energicamente a tentativa de atentado contra o presidente Nicolás Maduro”.

“Consideramos que o uso de métodos terroristas como ferramenta para as lutas políticas é categoricamente inaceitável. É óbvio que tais ações estão destinadas a desestabilizar a situação no país depois do congresso do Partido Socialista da Venezuela, que delineou os passos prioritários que devem ser dados para restaurar a economia nacional”, reagiu a chancelaria russa. Teerã considerou que o incidente “é um passo rumo à instabilidade e à insegurança na Venezuela, que só poderia beneficiar os inimigos do povo e do governo do país”, segundo o porta-voz da chancelaria, Bahram Ghasemi. A Espanha criticou “qualquer violência com fins políticos”, e a Alemanha afirmou que “acompanha de perto a evolução do caso”.

A resposta dura ao incidente é respaldada pela Força Armada, considerada o principal apoio de Maduro no país. “Permanecemos incólumes e aferrados às convicções que nos caracterizam, apoiando de maneira incondicional e com irrestrita lealdade a nosso comandante em chefe”, afirmou ontem o ministro da Defesa, Vladimir Padrino. Em declaração à imprensa, o general confirmou a denúncia de que o ataque foi perpetrado por drones carregados de explosivos.

O ministro do Interior, Néstor Reverol, afirmou que seis pessoas envolvidas no ataque foram identificadas e presas. O procurador-geral, Tarek William Saab, ligado ao governo, informou que hoje revelará as identidades dos detidos. “Haverá uma sanção implacável”, alerta Saab, que testemunhou o incidente. Em entrevista à CNN, ele disse que um dos drones gravava o desfile e o discurso de Maduro. Segundo Patricia Poleo, jornalista de oposição venezuelana radicada nos Estados Unidos, um suposto grupo rebelde formado por civis e militares, o Movimento Nacional Soldados de “Franelas” (camisas), reivindicou a autoria do atentado.

Agora, a oposição teme que a perseguição aumente, em um país onde se denuncia a existência de 248 presos políticos. “Não queremos atentados nem autoatentados, não queremos golpes nem autogolpes! Tampouco queremos mais hiperinflação, mais fome ou mortes por falta de remédios”, declarou Jesús Torrealba, ex-secretário da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD), atualmente muito dividida. “O governo tenta criminalizar aqueles que legitimamente e democraticamente se opõem a ele, aprofundar a repressão e a violação sistemática do império da lei”, denunciou a oposição Frente Ampla, em nota.

Frase

“Trata-se de um atentado para me matar, tentaram me assassinar”

Nicolás Maduro, presidente da Venezuela

 

“Não queremos atentados nem autoatentados, não queremos golpes nem autogolpes! Tampouco queremos mais hiperinflação, mais fome ou mortes por falta de remédios”

Jesús Torrealba, adversário político do chavismo

 

“Permanecemos incólumes e aferrados às convicções que nos caracterizam, apoiando de maneira incondicional e com irrestrita lealdade a nosso comandante em chefe”

Vladimir Padrino, ministro da Defesa da Venezuela