Título: O voo de Hollande
Autor: Tranches , Renata
Fonte: Correio Braziliense, 15/05/2012, Mundo, p. 16

François Hollande assume hoje a presidência na França, mas passará fora do país a maior parte da primeira semana no cargo. Equilibrando uma frenética agenda de compromissos internos e externos, o sucessor de Nicolas Sarkozy negocia os últimos postos do novo gabinete (leia o quado ao lado) ao mesmo tempo em que se prepara para uma maratona de encontros em duas das principais reuniões de cúpula internacionais. Já na primeira noite como presidente, Hollande viaja para Berlim, onde levará à chanceler (chefe de governo) Angela Merkel sua proposta de rever o pacote de austeridade negociado para sanar a crise na Zona do Euro — no discurso de vitória, o novo governante francês defendeu estímulos ao desenvolvimento.

A transferência de poderes estava prevista para a manhã de hoje. Logo em seguida, em uma reunião a portas fechadas, Sarkozy indicará ao sucessor os procedimentos relativos ao armamento nuclear. Em seguida, Hollande fará seu primeiro discurso como presidente, antes de percorrer a Avenida Champs Élysées em carro conversível. Seguindo uma tradição, ele fará homenagens a personalidades francesas: Jules Ferry, importante nome da esquerda; e Marie Curie, cientista e ganhadora do Prêmio Nobel de Química e de Física. O novo primeiro-ministro será nomeado hoje mesmo, mas a composição completa do gabinete será anunciada amanhã.

Na imprensa internacional, o tema que dominava as análises era a expectativa quanto às relações entre França e Alemanha, que formam há décadas o polo dominante da União Europeia (UE). A via de mão dupla entre Berlim e Paris foi colocada em xeque após a vitória do socialista Hollande, que questiona o que chamou de “duopólio” entre Merkel e Sarkozy na política econômica do bloco. A escolha do premiê e do chanceler dará indicações sobre o rumo que o novo presidente francês dará ao tema que se impôs como prioridade absoluta no início de governo. Favorito para chefiar o gabinete, o líder do PS na Assembleia Nacional, Jean-Marc Ayrault, cultiva boas relações com o establishment político alemão.

Rumo aos EUA

Hollande termina a semana do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, onde se reúne na sexta-feira com o colega Barack Obama, na residência oficial de Camp David, como prólogo para a cúpula do G-8 (que agrupa as sete nações mais industrializadas e a Rússia). As propostas do chefe de Estado francês deverão enfrentar resistência não apenas da Alemanha, mas dos EUA, com quem Sarkozy costumava se alinhar. “Não será fácil. Antes mais harmônica, a cúpula poderá ter um racha neste ano”, opinou, em entrevista ao Correio, o professor de ciências políticas Marcos Del Roio, da Faculdade de Filosofia e Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

De Camp David, Hollande seguirá para Chicago, onde participará da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), no fim de semana. O evento promete evidenciar novas divergências. Um dos principais temas a serem debatidos é a instalação de um escudo antimísseis no Leste da Europa. Durante a campanha, o presidente francês manifestou “reticências” ao projeto. Analistas internacionais especulam que ele poderá condicionar seu apoio ao escudo à retirada das tropas francesas do Afeganistão ainda este ano. Em todos os eventos, pondera Del Roio, a atuação de Hollande será assistida com atenção pelos franceses. Uma impressão positiva poderá ajudar o Partido Socialista nas eleições legislativas do início de junho, cruciais para garantir ao presidente governabilidade no início de mandato.

Ontem, em sua última reunião com o Conselho Nacional do PS, Hollande reforçou a convocação à batalha por “uma maioria ampla, sólida e leal”. Parece remota a chance de uma vitória da direita, que forçaria a “coabitação” entre o presidente e um premiê do campo adversário. Mas uma maioria socialista estreita pode exigir a negociação de acordos com a esquerda radical.