Título: Gurgel vai se explicar por escrito
Autor: Mascarenhas, Gabriel
Fonte: Correio Braziliense, 16/05/2012, Política, p. 3

O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, terá cinco dias úteis, a partir de hoje, para explicar à CPI do Cachoeira quais os motivos que o levaram a não pedir a abertura de inquérito para apurar as relações de Carlinhos Cachoeira com políticos e agentes de grandes empresas. O colegiado aprovou um requerimento para enviar um questionário com cinco perguntas ao procurador-geral, evitando, assim, que ele tenha de prestar depoimento na condição de testemunha.

Caso comparecesse ao colegiado, Gurgel estaria impedido de receber o relatório final da CPI, futuramente, já que não poderia desempenhar o papel de acusador, como procurador-geral, e de testemunha num mesmo procedimento. A alternativa de apresentar as explicações por escrito foi costurada por assessores do procurador-geral, conforme o Correio adiantou no último sábado, e recebeu o apoio da maioria dos parlamentares presentes à sessão de ontem. O único a exigir a ida de Gurgel à CPI foi o senador Fernando Collor (PTB-AL).

Encerrada a reunião, petistas incomodados com declarações recentes de Gurgel voltaram a tensionar a corda: "Em nenhum momento, fui a favor da convocação, mas continuo defendendo que ele deve explicações à sociedade. Ele tinha informações (sobre a rede de relacionamentos de Cachoeira) desde 2009, mas esperou até 2012 para formular a denúncia contra o senador Demóstenes Torres. Alguns dizem que ele não pode ser convocado. Qualquer autoridade pode ser convocada. Acontece que, se ele vier, não poderá dirigir o processo fruto de investigação desta CPI, o que ficaria a cargo do subprocurador", alfinetou o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP).

Na semana passada, Gurgel afirmou que os que defendem a convocação dele são os que "estão morrendo de medo do julgamento do mensalão", provocando a revolta dos petistas, principais acusados no inquérito de compra de apoio parlamentar no Congresso, no primeiro mandato do governo Lula. Relator da CPI, o deputado Odair Cunha (PT-MG) mandou um recado a Gurgel. "Essa CPI não pode desconhecer a versão do Ministério Público. Não acredito que o MP só irá dialogar com a comissão por intermédio da mídia. Queremos, sim, a colaboração do Ministério Público." O senador Humberto Costa (PT-PE) aproveitou a sessão da CPI para, mais uma vez, contra-atacar o Gurgel, afirmando que o PGR desrespeitou o Congresso.

Adiamento A CPI decidiu ainda que só ouvirá os procuradores da República responsáveis pela investigação da quadrilha de Cachoeira, Daniel Salgado e Lea de Oliveira, depois de 31 de maio, data da audiência de instrução do processo, quando, a partir de então, eles deixarão de ter vínculo com o procedimento. Conforme o Correio informou ontem, Daniel e Lea pediram a interlocutores que trabalhassem para o adiamento do depoimento deles, inicialmente marcado para amanhã. A exemplo do que ocorre com Gurgel, eles também poderiam ficar impedidos de continuar atuando no processo se depusessem como testemunha.