O globo, n. 31061, 22/08/2018. País, p. 14

 

O jornalista 'crítico', apartidário e pluralista

22/08/2018

 

 

OBITUÁRIO - Otavio Frias Filho / 1957-2018

Diretor de Redação da ‘Folha de S.Paulo’ teve papel fundamental na modernização do jornalismo brasileiro; escritor e ensaísta, ele também é autor de seis peças de teatro

Diretor de Redação da “Folha de S. Paulo” por 34 anos, Otavio Frias Filho comandou o processo de renovação da imprensa brasileira a partir dos anos 80, implantando linha editorial “crítica, apartidária e pluralista”. Foi dramaturgo e ensaísta. Diretor de Redação da “Folha de S.Paulo” nos últimos 34 anos, o jornalista, escritor e dramaturgo Otavio Frias Filho foi responsável por implementar um projeto de modernização inovador à época, engajou a “Folha” na campanha das Diretas Já e levou o jornal a se tornar um dos mais importantes do país a partir dos anos 1980.

Mais velho dos três filhos de Octavio Frias de Oliveira e Dagmar de Arruda Camargo, Otavio começou a trabalhar no jornal da família em 1975, escrevendo editoriais e sob a orientação do então editor-chefe, Cláudio Abramo. Em 1978, tornou-se secretário do recém-criado conselho editorial da “Folha”, na época dirigida por Boris Casoy.

Já formado em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo, assumiu a direção de Redação em 1984, aos 26 anos. Foi responsável pela introdução da linha editorial “crítica, apartidária e pluralista”, marca do jornal que ficou conhecida como o “Projeto Folha”. Nesse mesmo ano, criou o “Manual da Redação”, conjunto de medidas de normatização e de procedimentos, ainda em vigor.

Gostava de reproduzir frase que atribuía ao jornalista Luiz Alberto Bahia: “O grande jornal burguês tem que ser conservador em economia, liberal em política e revolucionário em cultura”. Perfeccionista, sempre teve uma visão crítica do jornalismo.

— Acho que nós, que trabalhamos com jornalismo, estamos sempre vivendo uma frustração diária, porque os jornais são feitos sob a égide da pressa. Há uma urgência muito grande, há uma premência muito grande, então, a quantidade de falhas, de incompletudes, de deficiências, é sempre muito grande — disse, em entrevista ao programa “Roda Viva”, em 1996.

Preferia a mensuração objetiva ao impressionismo. Estimulou a criação do Datafolha e o uso das pesquisas como ferramentas jornalísticas, abraçou a quantificação e a avaliação da produção da Redação por meio de categorias como unidades informativas e centimetragem de produção. Muitas vezes, começava a leitura do jornal pela seção Erramos, uma das marcas da “Folha”.

Sob o comando de Otavio, a “Folha de S.Paulo” chegou a publicar mais de 1 milhão de exemplares aos domingos. Mesmo antes de assumir a Redação, foi um dos defensores da tese, vencedora, de que o jornal deveria se engajar com afinco na campanha das Diretas Já, pelo fim do regime militar.

“O êxito da tese das eleições diretas será tão menos improvável quanto mais firme e abertamente ela seja sustentada pelos setores da opinião pública que lhe são favoráveis”, afirmava editorial da “Folha”, em março de 1983. “Na atual situação de graves dificuldades econômicas e demandas sociais insatisfeitas, tal forma de escolha [eleições diretas] se apresenta como a mais apta a estabelecer vínculos sólidos e de confiança entre governo e sociedade”, sustentava o jornal.

Naquele período, a “Folha” já havia se afastado do apoio que, por dez anos, deu à ditadura militar. Nos 50 anos do golpe, o jornal abordou o tema em editorial: “Às vezes se cobra desta Folha ter apoiado a ditadura durante a primeira metade de sua vigência, tornando-se um dos veículos mais críticos na metade seguinte. Não há dúvida de que, aos olhos de hoje, aquele apoio foi um erro”.

DRAMATURGO

Além da atividade como jornalista, Otavio escreveu seis peças de teatro e livros como “Queda Livre”, ensaios sobre suas experiências de vida e “Seleção Natural — Ensaios de Cultura e Política”, com textos sobre teatro, cinema e jornalismo.

Em “Queda Livre”, quando descreveu sua atuação como ator, dizia que sua turma de verdade era a do teatro, apesar de ter passado 43 anos frequentando quase diariamente uma Redação. Atuou por uma noite na peça “Boca de Ouro” dirigida por José Celso Martinez Corrêa, do Teatro Oficina.

Ingressou no curso de pósgraduação em Ciências Sociais na USP, como orientando de Ruth Cardoso, em 1980. Completou os créditos do mestrado em Antropologia, em 1983, mas não apresentou a dissertação.

Desde o fim do ano passado, Otavio lutava contra um câncer no pâncreas. Morreu na madrugada de ontem, no Hospital Sírio-Libanês.

O corpo foi velado no cemitério Horto do Paz, em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo e cremado logo em seguida. Além de amigos e familiares, participaram intelectuais, artistas, empresários, políticos e dirigentes dos principais órgãos de comunicação. Os candidatos a presidente Ciro Gomes (PDT) e Henrique Meirelles (MDB), o governador de São Paulo, Márcio França (PSB), e o prefeito paulistano, Bruno Covas (PSDB), compareceram.

REPERCUSSÃO

Presidenciáveis lamentaram a morte do jornalista.

Ciro Gomes disse que “a imprensa perde um grande quadro. Uma pessoa que tinha um senso crítico muito apurado das contradições da vida brasileira”.

Geraldo Alckmin (PSDB) lembrou que Otavio buscou “incessantemente fazer um jornalismo crítico, preciso, plural, perseguindo cotidianamente a excelência”.

Para Marina Silva (Rede), o compromisso de Otavio com a pluralidade e a democracia “tornaram a Folha o jornal que ela é hoje: rigoroso na fiscalização do poder, um componente crucial do debate público no Brasil”.

Para Henrique Meirelles, a dedicação e seriedade de Otavio “foram fundamentais para a construção de uma democracia sólida”.

O candidato a vice na chapa de Lula, Fernando Haddad (PT), disse que o jornalismo brasileiro “perde uma das suas lideranças mais expressivas e inovadoras”.

O presidente Michel Temer também lamentou a morte de Otavio e disse que “sob a sua direção, o jornal tornou-se palco dos grandes debates intelectuais do país, com pluralismo e diversidade de opiniões”.

O presidente do Conselho Editorial do Grupo Globo, João Roberto Marinho, divulgou a seguinte nota de pesar sobre a morte de Otavio Frias Filho:

“Convivi cerca de trinta anos com Otavio Frias Filho. Em todo esse período, pude testemunhar sua paixão por um jornalismo técnico, que levasse ao público os fatos com a maior correção possível, sempre num espírito plural. Foi um vitorioso naquilo que traçou para a ‘Folha de S. Paulo’ e deixa um legado de realizações. Quero destacar o lado pessoal. Firme em suas posições, nunca abandonou seu jeito gentil, de saber ouvir, de se interessar pelo que o outro dizia, mesmo se discordasse. E um aspecto cada vez mais raro nos dias de hoje: apesar da posição de destaque, sempre preferiu a discrição, qualidade dos que sabem que a obra diz mais do que o homem. Fará muita falta, mas os alicerces que plantou dão a certeza de que a ‘Folha’ seguirá sua trajetória de êxitos. Nesse instante, em nome do Grupo Globo, expresso nossos sentimentos à família e aos colegas da ‘Folha’”.

Francisco Mesquita Neto, diretor-presidente do Grupo Estado, que edita o jornal “O Estado de S. Paulo” afirmou que Otavio “criou na ‘Folha’ um novo jornalismo, inovador e corajoso, que serviu de exemplo para várias empresas do setor”.

Otavio deixa a mulher, Fernanda, duas filhas, Miranda, de 8 anos, e Emília, de 2, e e os irmãos Maria Helena, Luiz e Maria Cristina.