O globo, n. 31060, 21/08/2018. País, p. 4
INDEFINIÇÃO NA CORRIDA PRESIDENCIAL
21/08/2018
Sem Lula, Bolsonaro lidera, mas brancos e nulos sobem. Ciro e Marina vêm logo atrás; No cenário sem o ex-presidente, Haddad aparece em empate técnico com Alckmin
A primeira pesquisa Ibope para presidente da República realizada após o registro das candidaturas, divulgada ontem, mostra Jair Bolsonaro (PSL) na frente, seguido de um empate técnico entre Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT), no cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Bolsonaro aparece com 20% das intenções de voto, contra 12% de Marina e 9% de Ciro. Votos brancos, nulos e indecisos aumentam de 22% para 38% quando Lula sai da disputa. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos.
Em quarto lugar, Geraldo Alckmin (PSDB) tem 7% das intenções de voto e está tecnicamente empatado com Ciro. Neste cenário em que Lula não concorre, o Ibope considerou a candidatura de Fernando Haddad, atualmente registrado como vice na chapa petista. Haddad aparece com 4% e também está em empate técnico com Alckmin.
Questionados sobre a possibilidade de Lula ser impedido de disputar a eleição e declarar apoio a Haddad, 60% disseram que não votarão no ex-prefeito de São Paulo de jeito nenhum. Outros dados, no entanto, podem indicar um potencial de crescimento de Haddad: 14% dizem que poderão votar, 13% votarão com certeza, 7% não o conhecem o suficiente para opinar e 5% não sabem ou não responderam.
A pesquisa, encomendada pela TV Globo e pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, também levantou um cenário com a participação de Lula. O ex-presidente seria o líder, com 37% das intenções de voto, deixando Bolsonaro em segundo, com 18%. Ontem, o Ministério Público Eleitoral voltou a se manifestar a favor da inelegibilidade de Lula, condenado em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá. O parecer, assinado pelo vice procurador-geral eleitoral Humberto Jacques de Medeiros, cita a Lei da Ficha Limpa. O pedido do registro de candidatura do ex-presidente, preso em Curitiba desde abril, tramita no Tribunal Superior Eleitoral. O ministro Luís Roberto Barroso será o relator, e pode dar seu parecer antes do início do horário eleitoral gratuito, no dia 31.
De acordo com o Ibope, o candidato que tem a maior rejeição é Bolsonaro — 37% dizem que não votariam nele de jeito nenhum. A seguir vêm Lula, com 30%, e Alckmin, com 25%. Em quarto lugar está Marina, com 23%, seguida por Ciro, com 21%.
A pesquisa, realizada de 17 a 19 de agosto, foi feita após os dois primeiros debates na TV, o da Band e o da Rede TV !. Esse último, que ocorreu na noite de sexta-feira, quando a pesquisa já estava em campo, foi marcado por um embate entre Bolsonaro e Marina.
A campanha de Bolsonaro considera que sua liderança na pesquisa indica uma curva de crescimento que permite sonhar com uma vitória no primeiro turno.
— Temos uma grande interrogação, uma vez que a farsa da candidatura do Lula não se consolidará. É uma obra de ficção —disse o deputado federal Major Olímpio, presidente do PSL de São Paulo.
Por meio de sua assessoria, Marina disse que há muitos indecisos para serem conquistados. “A campanha está começando e ainda temos um grande número de indecisos. Vamos continuar apresentando as nossas propostas e valores de uma maneira limpa e transparente, trabalhando para tornar conhecido nossos propósitos”, diz trecho da nota.
O presidente do PDT, Carlos Lupi, afirmou que Ciro apresenta crescimento “sustentável”:
—Ele está em um crescimento permanente e vai crescer a cada momento para ir a o segundo turno. Evai crescer mais nos debates e coma exposição maior de entrevistas. Não acredito na sustentação do Bolsonaro.
Alckmin não comentou os números do Ibope. Ele tem dito a interlocutores que as pesquisas vão mudar assim que começar o horário eleitoral gratuito, no qual ele tem o maior tempo entre os candidatos.
Haddad procurou minimizar os 4% que possui no cenário sem Lula.
— Eu não sou candidato. Eu nem sei porque a pesquisa (com o meu nome) está sendo feita.
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Até agora, nada impactou o eleitorado
Paulo Celo Pereira
21/08/2018
Oficialização dos candidatos, alianças e debates não modificaram o cenário
Nunca houve algo parecido: a corrida presidencial de 2018 começa com um candidato preso e inelegível liderando as pesquisas, seguido por dois representantes de partidos nanicos. A pesquisa Ibope é o retrato da indefinição que domina a disputa deste ano, na qual ao menos cinco nomes parecem ter chances de estar no segundo turno.
Embora não possa ser feita uma comparação direta entre a pesquisa divulgada ontem e as que a antecederam, já que antes havia outros pré-candidatos, o cenário pouco se alterou. A intensa negociação de alianças, os dois primeiros debates televisivos, o lançamento das candidaturas, as diversas entrevistas concedidas... Aparentemente, nada impactou o eleitor.
A resistência do lulismo, no entanto, chama atenção. Condenado por corrupção e lavagem de dinheiro, preso em Curitiba e inelegível, o ex-presidente Lula é o preferido de 37% dos eleitores. Mais importante que esse número, no entanto, é a constatação de que, ainda que de forma tênue, o expresidente pode ter começado a transferir votos para aquele que será o verdadeiro candidato do partido, o exprefeito Fernando Haddad.
Sem uma propaganda televisiva sequer, o petista chegou a 4%, se posicionando numericamente à frente de Álvaro Dias. A partir do dia 31, Haddad terá o segundo maior tempo de televisão e rádio para se associar a seu padrinho político.
Para conter a tensão de seus muitos aliados, Geraldo Alckmin repetiu seu bordão: que as pesquisas só se alterarão quando a campanha de TV começar — e, nela, sua vantagem é enorme. Contra o tucano, no entanto, está o fato de Jair Bolsonaro, com quem ele disputa os votos que historicamente iam para PSDB, aparecer em uma sólida primeira colocação no cenário sem Lula, com 20% das intenções de voto — três pontos a mais do que alcançara em junho.
Ciro Gomes e Marina Silva têm contra eles o fantasma lulista. A saída do ex-presidente da disputa leva a candidata da Rede a dobrar suas intenções de voto, de 6% para 12%, e tira Ciro de um empate numérico com Alckmin, ambos com 5%, para a terceira posição, com 9% —enquanto o tucano vaia 7%.
O problema de Ciro e Marina é que as pesquisas mostram uma enorme disposição do eleitor lulista de votar em quem o ex-presidente apontar. Quando indagados sobre o que farão se Lula for impedido de disputara eleição eap oi arHadd ad ,13% dos entrevistados dizem que “com certeza” votarão no ex-prefeito e outros 14%, que “poderiam” votar nele. Mas nem tudo são flores para o PT. Apesar de os lulistas semostrarem determinados atentar acender um novo “poste”, 60% dos entrevistados dizem que não votarão “de jeito nenhum” em Haddad caso Lula o apoie.