O Estado de São Paulo, n. 45561, 15/07/2018. Política, p. A4

 

Corupção e crise fazem das mulheres maioria do não voto

Adriana Ferraz , Gilberto Amendola e Paulo Beraldo

15/07/2018

 

 

Eleições. Eleitorado feminino entre 35 e 44 anos representa 58% do total que declara voto nulo e em branco, como reação a escândalos políticos e incerteza sobre economia

O eleitorado feminino é hoje o responsável pela maioria dos votos brancos e nulos declarados em pesquisas de intenção de voto para presidente da República. Segundo recorte feito pelo Ibope a pedido do Estado, seis em cada dez eleitores dispostos a não votar nos pré-candidatos apresentados são mulheres na faixa etária dos 35 aos 44 anos, desiludidas com os recorrentes escândalos de corrupção envolvendo a classe política e preocupadas com o rumo da economia.

A mesma preponderância feminina é observada no grupo dos indecisos. Em ambos os casos, a participação de mulheres é superior se comparada ao número de votos que detêm no País. O detalhamento da última pesquisa CNI/Ibope para presidente mostra que, enquanto elas representam 52% do eleitorado nacional, são 58% na fatia dos que votam branco ou nulo e 55% entre os que não sabem.

A indignação feminina diante da corrupção e as incertezas relacionadas à recuperação da economia, especialmente a retomada do emprego e o risco da inflação, explicam o fenômeno, segundo pesquisas qualitativas feitas pelo Ibope. Especialistas ouvidos pelo Estado apontam mais dois motivos: o sentimento de que os atuais políticos não representam as mulheres – em 2014, elas preencheram só 10% das vagas na Câmara dos Deputados – e a indefinição em torno de quem será ou não candidato.

A vendedora Denise de Melo, de 35 anos, faz parte dessa estatística. Ela diz que vai anular o voto porque não sente empatia por qualquer dos pré-candidatos. “A gente pesquisa, pesquisa, mas não encontra ninguém que possa nos representar com dignidade”, afirma. Para ela, o que mais influencia na sua vontade de não votar são “os casos de corrupção que aparecem a todo momento”.

A especialista em marketing Ana Paula Paura, de 36 anos, já optou pelo voto em branco. “Ninguém me empolga. Não existe um candidato que me mobilize. Tenho desconfiança nos políticos em geral e aquela sensação de que muitos estão envolvidos em corrupção”, diz.

 

Nulo. O porcentual de eleitores dispostos a anular o voto chama a atenção. No cenário sem a participação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso pela Lava Jato, o índice de eleitores que declaram voto branco ou nulo chega a 31%, contando mulheres e homens. Em 2014, segundo o Ibope, a taxa nessa mesma época do ano era de 16%.

Entre os eleitores que se dizem indecisos, ou seja, respondem não saber em quem votar, o porcentual se mantém em 8%. Apesar de se considerar também uma desiludida com a política, Iris Cristina dos Santos Liu, de 37 anos, diz querer “fugir” do voto branco ou nulo. Dona de um salão de beleza em São Paulo, ela diz que, por enquanto, nenhum pré-candidato conquistou sua confiança. “Quero escolher um nome, como sempre fiz. Mas o voto em branco não está descartado”, afirma.

 

Crise. Para a cientista política Vera Chaia, da PUC-SP, o não voto não significa desinteresse. “A mulher critica, reivindica e participa mais hoje. Há muito mais cobrança, movimentos contra assédio, a favor da equiparação de salários e isso faz com que as mulheres tenham mais poder de decisão. Esse número de votos brancos e nulos é uma crítica ao atual momento da política e aos candidatos que não representam isso”, afirma.

O resultado das pesquisas qualitativas do Ibope confirma essa percepção. Segundo o instituto, as mulheres deixam para decidir nos últimos dias da campanha, quase na véspera da eleição, justamente porque são mais críticas, avalia a CEO do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari Nunes.

A enfermeira Renata Lima Gonçalves, de 37 anos, se encaixa nesse perfil. Afirma que “quanto mais se informa sobre os candidatos, mais fica em dúvida”, mas rejeita a hipótese de votar branco ou nulo. “Acho que em cima da hora vou fazer a minha escolha.”

 

Voto

31%​ é o porcentual de eleitores, homens e mulheres, que declaram intenção de votar branco ou nulo no cenário sem Lula. Em 2014, nessa mesma época, o índice era bem menor: 16%.

 

8%​ é o porcentual de eleitores que declaram não saber em quem votar, também no recorte sem Lula. O índice se mantém estável desde 2014.