Título: Sem submissão ao mercado
Autor: Hessel, Rosana
Fonte: Correio Braziliense, 18/05/2012, Economia, p. 11

Num dia de forte oscilação dos mercados, por conta da crise europeia, a presidente Dilma Rousseff afirmou que o Brasil vive um momento de transformação e destacou que a condução do crescimento do país não pode ser delegada exclusivamente às “forças de autorregulação do mercado”. “Nós não acreditamos mais que podemos nos desenvolver sem nos libertarmos das amarras que nos prendiam a interesses nacionais em outras regiões do mundo. Hoje, vivemos uma grande transformação. Uma benigna subordinação da lógica econômica à agenda dos valores indissociáveis da democracia e da inclusão social”, disse a presidente.

A afirmação foi feita durante a solenidade de entrega do prêmio Almirante Álvaro Alberto de Contribuição Científica à sua ex-professora de economia Maria de Conceição Tavares. Emocionada, Dilma disse que falava de discípula para mestra e atribuiu a Maria da Conceição grandes contribuições ao desenvolvimento econômico do país.

“O Brasil tem vivido nos últimos nove, dez anos, um ponto de mutação na história do seu desenvolvimento. Para que isso ocorresse, foi necessário que nós tivéssemos compreensão, compromissos e ideias e, de uma forma ou de outra, o mapa do caminho”, disse a presidente. “Para isso, a professora Maria da Conceição Tavares deu grandes contribuições. Nós hoje não admitimos mais a possibilidade de construir um país forte e rico dissociado de melhorias nas condições de vida de nossa população”, emendou, sem economizar elogios à antiga mestra.

“Temos hoje ainda alguns entraves a romper. E, magistralmente, a professora Maria da Conceição Tavares sempre se manifestou de maneira enfática, para mim pelo menos, quais são esses entraves e como é urgente rompê-los”, acrescentou.

Dilma teve o apoio de Maria da Conceição, que já foi deputada pelo PT do Rio de Janeiro, durante sua campanha à Presidência, em 2010. Pouco antes de receber a homenagem, a economista, de 82 anos, em discurso, observou que a crise econômica na Europa está muito distante de uma solução. “Não vou conseguir passar pela a crise europeia, porque ela será muito longa”, afirmou ela, que é portuguesa de nascimento. Em relação ao Brasil, elogiou o governo petista e criticou a administração de Fernando Henrique Cardoso.

Professora-titular da Universidade Estadual de Campinas e professora-emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Maria da Conceição Tavares se opôs fortemente às reformas econômicas implementadas pelo tucano nos anos 1990, entre elas a privatização e a quebra dos monopólios estatais nas áreas de petróleo e telecomunicações. “Durante o mandato do presidente FH eu resolvi ir para a política porque não adiantava falar nada. Ele mudou a Constituição em pontos fundamentais. Não conseguiu mudar tudo, graças a Deus. Aquele foi um período estranho”, disse.

Sobre os governos Lula e Dilma, sua visão é oposta. “Estamos enfrentando este ano, outra vez, uma crise internacional”, disse. Mas é a primeira vez que o Brasil não entrou em parafuso. Não teve que fazer moratória, não interrompeu o desenvolvimento, e isso é sinal de que nós estamos indo por outro caminho.”

"Hoje, nós vivemos uma benigna subordinação da lógica econômica à agenda dos valores indissociáveis da democracia e da inclusão social"

Dilma Rousseff, presidente da República

"É a primeira vez que o Brasil não teve que fazer moratória, não interrompeu o desenvolvimento, e isso é sinal de que nós estamos indo por outro caminho"

Maria da Conceição Tavares, economista