Título: Movimento ganha a internet
Autor: Caitano, Adriana
Fonte: Correio Braziliense, 19/05/2012, Política, p. 2
Quando Herbert Vianna cantou, em meados da década de 1990, sobre os “300 picaretas com anel de doutor”, não imaginava que, quase duas décadas depois, a situação no Congresso Nacional continuaria a inspirar revolta. “A música, infelizmente, não conseguiu ficar velha”, dispara o baixista do Paralamas do Sucesso, Bi Ribeiro, em entrevista ao Correio. O músico e membros da classe artística receberam com entusiasmo e endossaram a indignação dos que exigem a extinção dos 14º e 15º salários de deputados e senadores, transformada na campanha iniciada pela atriz Maria Paula cujo símbolo é a expressão #AbaixoAMordomia. Até o momento, faltam 498 deputados desistirem da regalia.
“O que eles ganham já é muito. A gente não está rasgando dinheiro para sustentar esses caras a pão de ló”, desabafa Ribeiro — carioca, que morou em Brasília entre 1971 e 1980. Para o poeta Nicolas Behr, os parlamentares estão ferindo um dos princípios básicos da Constituição, o qual afirma que “todos são iguais perante a lei”. “Os políticos estão lá atrás, mas as demandas da sociedade estão lá na frente. Não demos a eles o poder de legislar em causa própria. No fundo, eles não passam de servidores públicos”, constata o poeta.
Os músicos Ney Matogrosso e Dominguinhos também reverberaram os questionamentos da população sobre o ganho exclusivo dos congressistas. “Os políticos precisam entender que eles não são donos do país, eles trabalham para o país e são pagos pelo povo brasileiro”, desafia Matogrosso. Dominguinhos considera o assunto tão “absurdo” que acha que não deveria nem “ser mencionado”. “Somos nós que pagamos e ninguém sabe quanto eles realmente ganham. Enquanto isso, o cidadão comum não tem direito a nada”, denuncia.
“Em um país onde o salário mínimo é mínimo mesmo, é uma imoralidade que não tem tamanho”, revolta-se o fotógrafo Luiz Humberto. Para o escritor João Silvério Trevisan, o 14º e o 15º são um sintoma de como funciona o poder no Brasil. “Essa é uma maneira muito baixa de roubarem o nosso dinheiro”, indigna-se.
O carioca Leoni elogia a atitude dos 16 parlamentares que já se livraram do benefício indevido. “A instituição está sendo malvista. Soa como um privilégio injustificado. O povo paga para quem o representa, mas o povo mesmo não tem o benefício”, diz.
Coro local
Digão, dos Raimundos; Philippe Seabra, da Plebe Rude; e Bruno César Araújo, do Móveis Coloniais de Acaju, se animaram com a ideia de tuitar a hashtag #AbaixoAMordomia e aderiram à campanha contra a remuneração extra. “É excessivo. Eles não merecem, pois não trabalham o suficiente para ganhar isso. Quem deveria receber a mais são os professores, por exemplo”, propõe Digão. “Queria ver se fosse para ganhar salário mínimo e vale-transporte se eles iriam querer ser políticos”, provoca.
Para Seabra, é a mentalidade reinante de “cuidar sempre do seu” que faz com que ações desse tipo ainda deem a tônica da esfera política do país. “Espero que isso acabe por iniciativa deles, pois o povo brasileiro é muito passivo. Quem votar contra a extinção vai levar essa marca para sempre consigo”, acredita o roqueiro. Bruno César avalia que, no Brasil, a política não é só representativa, mas um meio de ascensão social. “Se é um trabalho, tem que ser remunerado como qualquer outro trabalho”, defende.
"Queria ver se fosse para ganhar salário mínimo e vale-transporte se eles iriam querer ser políticos" Digão, dos Raimundos