Correio braziliense, n. 20217, 27/09/2018. Política, p. 3
Haddad no papel de vidraça
27/09/2018
ELEIÇÕES 2018 » Na ausência de Bolsonaro, líder nas intenções de votos, o candidato do PT, segundo colocado, foi o alvo preferencial dos adversários em um debate com poucos confrontos diretos e esforços para cortejar as mulheres ainda indecisas
A pouco menos de duas semanas para as eleições presidenciais, o debate realizado ontem pelo UOL, em parceria com o SBT e a Folha de S. Paulo, refletiu as estratégias dos candidatos por uma vaga no segundo turno e mostrou uma elevação moderada no tom dos embates. Ausente do evento, o líder nas pesquisas, Jair Bolsonaro (PSL), que se recupera de um atentado a faca sofrido em Juiz de Fora (MG), foi praticamente escanteado pelos adversários. Fernando Haddad (PT), segundo colocado nas intenções de voto, foi o alvo preferencial dos ataques e mostrou postura bastante defensiva.
O tucano Geraldo Alckmin, estagnado nas pesquisas abaixo do patamar de 10%, poupou Bolsonaro a maior parte do tempo. Só se referiu ao adversário nas considerações finais, classificando-o como o “candidato da discriminação”. O ex-governador de São Paulo manteve a tática de criticar a polarização entre Bolsonaro e Haddad e apresentar-se como a melhor opção para “colocar o país nos trilhos”. Também voltou a tentar demonstrar distanciamento do governo Temer, embora o PSDB tenha sido um dos mais fortes pilares no apoio à administração do emedebista.
Guilherme Boulos (PSOL), que aparece com 1% das intenções de voto nos últimos levantamentos, protagonizou um dos momentos mais agressivos do debate. Logo no início, dirigindo-se a Alckmin, disse que, como professor, viu de perto que “faltava giz na sala de aula, faltava papel higiênico no banheiro das escolas, professores (eram) desvalorizados”. Boulos também citou uma das principais pedras no sapato do ex-governador de São Paulo. “O que eu e o Brasil todo queremos saber sobre a educação, Alckmin, é: cadê o dinheiro da merenda?”, provocou.
O tucano defendeu os indicadores do estado na educação e também partiu para o ataque ao líder dos sem-teto. “Tenho 40 anos de vida pública, sempre trabalhei, não fui desocupado, não invadi propriedade, não tenho nenhuma condenação”, reagiu, acrescentando que “ninguém envolvido” no escândalo de desvio de recursos da merenda escolar é ligado a ele.
Ciro Gomes (PDT), terceiro colocado nas pesquisas, que na véspera tinha se submetido a um procedimento na próstata, seguiu direto do hospital Sírio Libanês para os estúdios do SBT. O candidato, que passou boa parte do tempo sentado, questionou diretamente Haddad — sem, no entanto, provocar embate entre ambos, que disputam diretamente uma vaga no segundo turno.
Embora Bolsonaro tenha sido poupado de ataques, Ciro Gomes, Cabo Daciolo (Patriota) e Marina Silva (Rede) enalteceram as mulheres e anunciaram que elas serão prioridade em seus eventuais governos. O candidato que lidera as pesquisas enfrenta grande rejeição entre o eleitorado feminino.
“Bolsonaro foi poupado dos ataques porque os adversários sabem que o seu eleitorado já está praticamente consolidado, enquanto Haddad iniciou um crescimento nas pesquisas de opinião”, avaliou Aninho Mucundramo Irachande, professor de ciência política e relações internacionais na Universidade de Brasília (UnB). “Quanto à citação às mulheres, os candidatos sabem muito bem que metade do eleitorado feminino ainda não definiu o voto. Isso representa um quarto do eleitorado brasileiro”, acrescentou.
O professor da UnB observou que os debates não têm contribuído para que o eleitor defina o seu voto. “Nem os debates, nem as entrevistas. As entrevistas não dão espaço para os candidatos apresentarem suas propostas. Nos debates, eles priorizam a desconstrução dos adversários”, concluiu o docente. “O eleitor está cansado disso.”
Frase
“Os candidatos sabem muito bem que metade do eleitorado feminino ainda não definiu o voto. Isso representa um quarto do eleitorado brasileiro”
Aninho Mucundramo Irachande, professor de ciência política da UnB
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CNI/Ibope: estabilidade
27/09/2018
O quadro da corrida presidencial se manteve inalterado, na pesquisa CNI/Ibope divulgada ontem, em relação à sondagem fechada na segunda-feira, pelo mesmo instituto, para a Rede Golbo e o jornal O Estado de S. Paulo. Jair Bolsonaro (PSL) mantém a liderança com 27% (28% no levantamento anterior), seguido por Fernando Haddad (PT), com 21% (22%) e Ciro Gomes PDT), com 12% (11%). Geraldo Alckmin (PSDB) estacionou em 8% e Marina Silva (Rede), oscilou de 5% para 6%. Nas simulações de segundo turno, Bolsonaro aparece em desvantagem diante de Haddad (42% contra 38%), Ciro Gomes (44% contra 35%) e Geraldo Alckmin (40% a 36%), e aparece em empate técnico com Marina, mas com vantagem numérica (40% a 38%).
A taxa de rejeição dos candidatos mostrou evolução semelhante. A de Bolsonaro oscilou de 46% para 44%, dentro da margem de erro de dois pontos, e a de Haddad caiu de 30% para 27%. O petista aparece empatado com o pedetista, seguido por Alckmin (19%) e Marina (16%). Na pesquisa 28% dos eleitores admitiram como “alta” ou “muito” alta a possibilidade de mudar a escolha para barrar um candidato que considere indesejável — o voto útil.