Título: Violência sem resposta
Autor: Tranches, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 19/05/2012, Mundo, p. 20
A pouco mais de um mês das eleições presidenciais, candidatos não têm propostas concretas contra o tráfico de drogas, provocando o desinteresse da população pelas votações de 1º de julho Renata Tranches
Enquanto os discursos prometem acabar com o narcotráfico no México, as propostas dos candidatos presidenciais não convencem o eleitorado, que escolherá o substituto de Felipe Calderón em 1º de julho, em meio a uma onda de violência que assola o país. Em entrevista ao Correio, analistas mexicanos criticam a postura dos presidenciáveis sobre um dos maiores desafios do México e afirmam que suas estratégias para o tema não são claras, deixando mais distante a saída para o problema. Desde o início de maio, em uma escalada dos ataques, 72 pessoas foram mortas — decapitadas ou enforcadas — na disputa por território entre os principais cartéis mexicanos. As formas brutais de assassinato são a linguagem utilizada pelos grupos para mandar um recado ao inimigo.
Frustrados, os eleitores começam a dar sinais de que o comparecimento às urnas será baixo. Apesar de o voto ser obrigatório, não há punição para quem deixar de participar das eleições no país. A pesquisadora mexicana Guadalupe Correa-Cabrera, especialista em crime organizado da Universidade do Texas em Brownsville, tem observado que um número cada vez maior de pessoas se desinteressa pelas eleições. Ela atribui esse cenário à falta de propostas claras dos candidatos para combater a violência. "Os candidatos falam em mudança, mas ninguém sabe quais serão as reais transformações. Suas estratégias nunca foram apresentadas", disse, logo após proferir uma palestra sobre o tema em Brownsville . "O descontentamento da população com os candidatos está muito claro. O nível de preocupação e a falta de confiança em todo o processo são grandes."
Corpo de mulher é resgatado em Monterrey, onde 49 vítimas foram decapitadas
O tema está na agenda, mas não é aprofundado. O professor do Departamento de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Iberoamericana Carlos Lugo Galera, da Cidade do México, compartilha a opinião de Guadalupe e acrescenta que a população não sabe como cada candidato, uma vez eleito, lidaria com o problema. A corrida é liderada com folga pelo ex-governador do Estado do México Enrique Peña Nieto, que luta para levar seu Partido Revolucionário Institucional (PRI) de volta ao poder, de onde saiu após a derrota de 2000, acabando com 71 anos de hegemonia política. A candidata Josefina Vázques Mota, do governista Partido Ação Nacional (PAN), trava uma disputa acirrada pelo segundo lugar com Andrés Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD). "As propostas de nenhum dos candidatos são claras. Eles apenas incluem o tema em seus discursos."
Controle estratégico
Falta clareza até mesmo nas falas do presidente, cujo partido declarou guerra ao narcotráfico em 2000, com a vitória do então líder, Vicente Fox. Segundo Galera, ao abordar o tema, Calderón não menciona os mortos que o conflito já fez, sejam eles vítimas das ações contra os cartéis ou das brigas entre as próprias organizações. "Há 60 mil vítimas e não sabemos qual a origem real dos conflitos ou como essas pessoas realmente morreram", alerta o professor.
A violência dos últimos dias, segundo a pesquisadora Guadalupe Correa-Cabrera, é resultado direto do confronto aberto entre os dois principais grupos do crime organizado mexicano — Los Zetas e Sinaloa — pelo controle da cidade de Nuevo Laredo (Tamaulipas). O local é estratégico para algumas das principais rotas do narcotráfico e da imigração clandestina. É também por onde passa 30% do comércio internacional do México. Berço dos Zetas, o estado sempre foi controlado pelo grupo. Recentemente, porém, as incursões do cartel de Sinaloa para tomar o local apertaram o gatilho das mortes brutais, que ultrapassaram as fronteiras da região, segundo Guadalupe.
Em 4 de maio, os corpos de nove pessoas foram pendurados em uma ponte e outras 14 vítimas foram decapitadas em Nuevo Laredo. No último domingo, mais 49 corpos foram encontrados sem as cabeças, as mãos e os pés, abandonados em estradas de Monterrei (Nuevo León) e Reynosa (Tamaulipas). Guadalupe explica que o combate militar conseguiu enfraquecer grupos menores, mas acabou fortalecendo esses dois cartéis, que agora controlam o crime em todo o país. "O que acontece em Nuevo Laredo mostra a real situação no México."
"Há 60 mil vítimas e não sabemos qual a origem real dos conflitos ou como essas pessoas realmente morreram" Carlos Lugo Galera, professor do Departamento de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Iberoamericana
"Os candidatos falam em mudança, mas ninguém sabe quais serão as reais transformações. Suas estratégias nunca foram apresentadas"
"O nível de preocupação e a falta de confiança em todo o processo são grandes" Guadalupe Correa-Cabrera, especialista em crime organizado
Três perguntas para
Carlos Lugo Galera, Professor do Departamento de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Iberoamericana (Cidade do México)
Ao longo da semana, três generais que trabalhavam na luta contra as drogas foram detidos. Alguns críticos disseram à imprensa mexicana que as prisões têm motivações políticas. O que o senhor acha? Esses generais foram detidos sob a acusação de vínculo com o narcotráfico. Mas também há indícios de que a prisão teve motivação política, uma vez que eles estariam ligados a alguns partidos. Isso, com tudo o que já está ocorrendo no México, contamina o processo eleitoral.
Com qual partido seria essa ligação? Um dos generais presos, Tomás Angeles, participou de um ato sobre segurança organizado pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI). Essa ligação do general com o PRI também tem sido apontada por diversos analistas. A justificativa do partido é a de que ele foi convidado apenas como uma pessoa com grande conhecimento e especialista sobre o tema.
Do que exatamente os generais são acusados? Eles estão detidos em seus domicílios, mas não há declarações ou informações oficiais sobre o que realmente está ocorrendo. Não sabemos nada da investigação. Esperamos que pelo menos um comunicado seja divulgado em breve sobre esse processo.