Título: ONG para cooptar eleitores
Autor: Jeronimo, Josie
Fonte: Correio Braziliense, 20/05/2012, Política, p. 7

Dadá tentou criar associação de atividades esportivas para operários da Delta, que poderiam assegurar pelo menos 3,6 mil votos aos políticos escolhidos pela quadrilha de Cachoeira » Josie Jeronimo

O potencial de exploração da empreiteira Delta com a rede de contravenção de Carlinhos Cachoeira e seu aparato político não se encerrava na conquista de grandes licitações do governo federal e de estados. A quadrilha do bicheiro escalou o sargento da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, para transformar a mão de obra contratada pela Delta em votos. Antes de ser preso na Operação Monte Carlo, Dadá negociava a criação de uma ONG para oferecer modalidades esportivas para funcionários da Delta com o objetivo de arregimentar o maior número de pessoas em torno de um projeto político.

Escutas da Polícia Federal feitas com autorização judicial revelam que o grupo calculava que os funcionários da Delta em Goiás renderiam pelo menos 3,6 mil votos diretos no estado e no Entorno do Distrito Federal nas eleições municipais em outubro deste ano. A ONG teria o objetivo de apresentar um leque de produtos sociais aos "cenourinhas", como são chamados os trabalhadores da Delta. "Dentro desse projeto, a gente monta uma ginástica para eles, alguma coisa nesse sentido. Há um certo apoio da empresa, estou abrindo os olhos deles, dizendo que ali a gente tem 3,6 mil votos diretos, fora os de familiares. Então a gente pode alguma coisa", diz Dadá em um dos grampos, argumentando que a Delta teria o interesse em financiar o projeto em troca da fidelidade eleitoral dos funcionários que aderissem à proposta.

As investigações mostram que a Delta seria a patrocinadora da associação do sargento da Aeronáutica. Dadá ganhou grande importância no grupo do contraventor Carlinhos Cachoeira, pois utilizava seus conhecimentos militares e a influência nos órgãos de inteligência policial para repassar informações privilegiadas à quadrilha.

Folha Empresa da construção civil, a Delta tem como principal elemento de despesa a folha de pagamento. A estimativa é que a firma empregue cerca de 30 mil funcionários em obras pelo país. O mote da ONG do araponga de Cachoeira seria o handebol. O projeto do comparsa do contraventor era reunir grupos de trabalhadores mais jovens para formar times de handebol, disputando campeonatos pelo país, e oferecer aulas e estrutura de ginástica para os demais funcionários. Para não registrar a ONG em seu nome, Dadá buscou parceria com clubes de handebol já formados, com o objetivo de conseguir um CNPJ "limpo". "Você tem que ter um endereço, é igual casa", afirma a uma interlocutora a quem tenta convencer. Em troca da parceria, o araponga de Cachoeira oferece patrocínio da Delta a uma viagem da equipe para um torneio na Paraíba.

A influência de Cachoeira também é oferecida como moeda de troca na busca do sargento da Aeronáutica em regularizar a associação. Dadá oferece a possíveis parceiros a utilização dos clubes recreativos das polícias como espaço para o treinamento das equipes que pretende comandar na ONG. Para isso, avisa, seria necessário um processo de cadastramento dos interessados para a confecção de uma carteirinha, com dados dos "cenourinhas", apelido dado graças à cor do uniforme dos funcionários da Delta.

Laços políticos Relatórios da Polícia Federal listam a rede política de Cachoeira, composta por prefeitos e vereadores de grandes municípios goianos. No âmbito do Congresso, o contraventor se relacionava com os deputados Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO), Sandes Júnior (PP-GO), Rubens Otoni (PT-GO) e o senador Demóstenes Torres (sem partido). O monitoramento telefônico de Cachoeira indica que o contraventor interferia nos desdobramentos da política local, acompanhando movimentação partidária de aliados e pesquisas de intenção de votos. Sandes foi flagrado nas conversas fazendo lobby para ser escolhido vice de Demóstenes caso o senador decidisse concorrer à capital de Goiás nas eleições deste ano.