Título: Saída do Afeganistão precisa ser planejada
Autor:
Fonte: Correio Braziliense, 20/05/2012, Mundo, p. 18

Dez anos após o início da guerra do Afeganistão, o tema promete ser um dos mais importantes na cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), neste fim de semana, em Chicago. De acordo com um cronograma aprovado na conferência de 2010, em Lisboa, os líderes tentarão chegar a um consenso sobre um plano de transferência da responsabilidade de segurança para as forças locais até o fim de 2014. O think tank NATO Watch, de observação das atividades da Otan, afirma que o calendário deixou muitas respostas a serem respondidas e os líderes deveriam aproveitar o encontro nos Estados Unidos para sanar essas questões. Nos últimos dias 14 e 15, em Washington, o instituto debateu e apresentou o que considera os principais desafios sobre o tema em um seminário com analistas e militares da Aliança Atlântica. O primeiro ponto e mais importante, segundo o NATO Watch, é garantir a sustentabilidade e a autonomia das forças de segurança após a saída total das tropas ocidentais. Para isso, o Afeganistão deve obter um acordo de financiamento de US$ 4,1 bilhões por ano. A questão será debatida diretamente com o presidente afegão, Hamid Karzai, convidado para o encontro em Chicago. O instituto sustenta que, após a retirada das tropas, pequenos contingentes militares deveriam permanecer até que as forças de segurança locais estejam totalmente preparadas.

Mas para garantir a estabilidade, será necessário restabelecer as conversações de paz entre governo e Talibã — retirado do poder com a invasão do país em 2001, em seguida aos atentados de 11 de setembro. Pesam contra o grupo as ligações com a rede terrorista Al-Qaeda. Com um início conturbado, as negociações estão paralisadas e sua retomada, com a participação dos Estados Unidos, pode ser oficializada em Chicago. Segundo o NATO Watch, até agora, o governo norte-americano tem falhado em tomar medidas para viabilizar esse diálogo.

Problema também na parceria estratégica com o Paquistão, outra questão-chave exposta pelo instituto. A permanência das tropas no Afeganistão ficou ameaçada depois que Islamab suspendeu o acordo que permitia a passagem de suprimentos em uma rota através de suas fronteiras com o país vizinho. A decisão foi tomada em resposta aos ataques de drones (aviões teleguiado) norte-americanos matando civis e militares paquistaneses. O tema, porém, parece próximo de ser solucionado. Semana passada, o presidente do Paquistão, Asif Ali Zardari, aceitou o convite para participar da cúpula em Chicago depois que seu Ministério de Relações Exteriores ter adiantado que a fronteira com o Afeganistão seria reaberta.

Ainda sobre a logística, o NATO Watch defende que a retirada das tropas ocidentais precisa ser extremamente organizada e coordenada, já que envolverá o deslocamento de 130 mil soldados e de 70 mil veículos carregados com equipamentos. Mas, além dos assuntos militares, segundo o instituto, o Afeganistão se depara com grandes desafios relacionados às áreas sociais e dos direitos humanos, e o país continuará necessitando da assistência das nações que por mais de uma década ocuparam seu território. (RT)