Correio braziliense, n. 20202, 12/09/2018. Política, p. 2

 

Decisão por Haddad veio perto do fim

Paulo Silva Pinto

12/09/2018

 

 

ELEIÇÕES 2018 » Partido chancela troca de Lula por Haddad, algo que era considerado oficialmente fora de cogitação por lideranças do partido. Demora na substituição reduz chances de ir para o segundo turno, dizem especialistas

O PT desistiu, ontem, da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a presidente da República. Mesmo com o nome dele indeferido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no início deste mês, o partido tinha expectativa de mantê-lo na disputa, com recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF). Mas avaliou que teria poucas chances de mudar o quadro. À tarde, depois do anúncio da substituição de candidatos, o ministro Celso de Mello, do Supremo, negou liminar para postergar a decisão. Todas as ações sobre o tema devem ser agora arquivadas na Corte.

No lugar de Lula, agora concorre o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que era candidato a vice. A segunda posição na chapa é ocupada por Manuela D´Ávila (PCdoB). A presidente da legenda, senadora Gleisi Hoffman (PR) e outros líderes do partido negavam, até a semana passada, que essa troca fosse cogitada.

As chances de Haddad no pleito são bem menos favoráveis do que a do ex-presidente, que, antes de ter a candidatura indeferida, aparecia em primeiro lugar nas pesquisas de intenção de voto. No levantamento divulgado ontem pelo Ibope (Leia mais na página 3), Haddad está em quinto, depois de Jair Bolsonaro (PSL), Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (Rede) e Geraldo Alckmin (PSDB). Ainda que, pela margem de erro, esteja tecnicamente empatado com os quatro últimos, mantendo chances razoáveis de ir para o segundo turno, especialistas veem essa possibilidade com reservas. “A decisão veio tarde demais, deveria ter sido tomada ainda em agosto. Nesse caso, teria sido possível fazer uma campanha em torno de Haddad. Mas isso só ocorreria se o PT fosse um partido de fato, e não uma organização em que uma pessoa, Lula, manda em tudo”, afirmou o cientista político David Fleischer, professor da UnB.

A mudança de nome foi chancelada em uma reunião da Executiva do PT de manhã, em Curitiba. Mera formalidade, pois a decisão já estava tomada. Integrantes da Executiva contam que viram material de campanha com o nome da Haddad como candidato a presidente. Na segunda-feira, Haddad teve dois encontros com Lula, que está preso na sede da Polícia Federal na cidade. Às 18h, os advogados do PT protocolaram a troca de nomes no TSE, que ainda precisa ser chancelada.

No fim da tarde, foi lida uma carta de Lula, em frente à PF. Depois de se declarar, mais uma vez, vítima de injustiça tanto em relação à condenação quanto ao impedimento de concorrer às eleições, ele conclama os apoiadores a abraçar o novo nome do partido no pleito. “Quero pedir, de coração, a todos que votariam em mim, que votem no companheiro Fernando Haddad para presidente da República”, afirmou. A ex-presidente Dilma Rousseff participou do evento, que se encerrou com um discurso de Haddad.

Qualidade da campanha

Para o cientista político Murillo Aragão, sócio da Arko Advice, a transferência de votos dependerá da qualidade da campanha do PT. O agora presidenciável não é tão conhecido quanto o ex-presidente nas duas regiões mais pobres do país — Norte e o Nordeste —, onde o PT tem grande apelo do eleitorado. A sigla inevitavelmente vai tentar reforçar o legado das gestões de Lula e associar a imagem do ex-presidente com a de Haddad como estratégia de campanha, prevê Aragão. A dúvida é se isso será o bastante para absorver votos suficientes para chegar ao segundo turno, uma vez que Ciro Gomes, do PDT, deve partir para o confronto (Leia texto abaixo). “Em uma eleição com um líder (Bolsonaro) e quatro embolados (Marina, Ciro, Alckmin e Haddad), tudo pode acontecer”, ressaltou.

O senador Paulo Paim (RS), que estava ontem em Curitiba, acredita que a narrativa do PT é forte suficiente para emplacar a transferência de votos de Lula para Haddad e consolidar a candidatura do novo presidenciável. “Vamos mostrar os bons resultados acumulados, com o programa Minha Casa, Minha Vida e investimentos na educação, com escolas técnicas, e apontar para frente, mostrando o que ainda pode ser feito”, declarou. Além da herança de Lula, o senador avalia que o candidato é alguém com preparo para assumir o bastão.

Outro petista, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, que também foi a Curitiba, acredita que o partido terá sucesso na corrida eleitoral. “A transferência de votos já está acontecendo. As pesquisas estão mostrando isso. As últimas já mostram o Fernando Haddad crescendo, e, daqui para frente, isso vai acelerar. Eu não tenho nenhuma dúvida de que a gente coloca o companheiro Haddad no segundo turno. E vamos ganhar a eleição, com a força do Lula, com a indicação dele e o amplo apoio da população brasileira”, afirmou o governador mineiro, que é candidato à reeleição.

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Disputa acirrada na esquerda

12/09/2018

 

 

O embate na esquerda vai se acirrar a partir de agora. Carlos Melo, cientista político e professor do Insper, em São Paulo, afirma que o atentado contra Jair Bolsonaro (PSL) consolida a presença dele no segundo turno, uma tendência que já era forte. Sobra, portanto, apenas uma vaga. Com a candidatura de Fernando Haddad oficializada, o PT apostará as fichas no horário eleitoral para chegar ao segundo turno. Ciro Gomes, do PDT, terá de evitar o crescimento petista. Uma aposta do pedetista é emplacar o discurso de que o adversário político sequer conseguiu ser reeleito prefeito de São Paulo.

O cientista político Murilo Aragão, da Arko Advive, aposta, porém, que Ciro vai tomar cuidado. “Ele quer poder contar com o apoio do PT lá na frente”, ponderou. Mas David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB), acha que isso não é uma grande preocupação. “Se Ciro for para o segundo turno, os petistas não têm opção. Não podem votar em Bolsonaro. Nem mesmo anular o voto”, aponta o especialista.

Para Melo, o discurso de Ciro continuará a ser ambíguo. “Ele diz que Lula sofreu injustiça, mas ataca o PT”. Melo explica que essa ambiguidade é comum na política em geral e, nesta eleição, em particular, entre os vários candidatos. “Mesmo Bolsonaro defende o regime militar, mas tem como assessor econômico o liberal Paulo Guedes”, nota.

A disputa de Marina Silva, Ciro e Haddad será pelo voto de esquerda. Se um deles conseguir chegar à segunda etapa, terá de ganhar o centro, que será decisivo. “Mesmo Haddad terá de se esforçar para conquistá-los, com críticas ao governo da ex-presidente Dilma Rousseff e à nova matriz econômica que ela promoveu”, disse. Na campanha de Ciro, a avaliação é de que o pedetista terá facilidade para conquistar esses votos, já que foi filiado ao PSDB e é visto como moderado. Alckmin está em uma situação diferente: teria de conquistar o voto de esquerda no segundo turno. Suas chances, porém, são vistas como decrescentes, sobretudo depois da prisão ontem do ex-governador tucano do Paraná Beto Richa, suspeito de corrupção.

Vitimização

Para o sociólogo e cientista político Paulo Baía, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Haddad vai explorar no primeiro turno a herança política de Lula. Somado a isso tem a capilaridade da coligação petista no Norte e Nordeste, bem como o apoio prestado pelo PSB em estados chaves, incluindo no Sudeste, em Minas Gerais, que conferem capacidade de impulsionamento.

A narrativa de radicalização construída pelo PT, de perseguição política a Lula, também jogam a favor de Haddad, pondera Baía. Para ele, o partido vai reforçar a vitimização e atacar eleitoralmente o candidato do PSL, Jair Bolsonaro. “Ciro não tem um discurso contundente de vitimização. É parte racional e parte passional. O atentado a Bolsonaro reforça um ambiente para os discursos passionais do PT”, avalia. (PSP e RC)