O globo, n. 31048, 09/08/2018. País, p. 4

 

O PRIMEIRO ROUND

Silvia Amorim

Jussara Soares

Dimitrius Dantas

Eduardo Bresciani

Jeferson Ribeiro

Fernanda Krakovics

09/08/2018

 

 

 Recorte capturado

Alckmin e Bolsonaro devem rivalizar no debate de hoje

Numa  pré-campanha marcada por ataques entre pré-candidatos, o debate de hoje à noite na TV Bandeirantes deve reforçar o confronto entre Geraldo Alckmin (PSDB), que tem o maior número de partidos aliados, e Jair Bolsonaro (PSL), líder das pesquisas nos cenários sem o ex-presidente Lula (PT). Já prevendo uma polarização, as campanhas do tucano e do ex-capitão avaliam que o confronto direto, no entanto, dependerá da dinâmica do programa, principalmente das perguntas feitas por jornalistas.

Segundo a equipe de Bolsonaro, ele deve contra-atacar as críticas de Alckmin citando escândalos da Dersa, empresa de obras rodoviárias do governo paulista atingida na Lava-Jato. O presidenciável tem se reunido com especialistas de diversas áreas para ter melhor desempenho em temas que não domina. A exemplo do economista Paulo Guedes, seu consultor para assuntos econômicos, ele tem sido orientado, por exemplo, por especialistas em saúde e educação. Durante o debate, contudo, Bolsonaro continuará com perfil “autêntico” e combativo nas respostas aos seus adversários.

Os coordenadores da campanha consideram que Bolsonaro se sai bem no improviso e sua autenticidade nas respostas tem força com o eleitorado. O discurso deve defender seu plano de governo, que, segundo ele, tem de começar com um combate mais severo à corrupção. Segundo o deputado federal e filho do presidenciável, Eduardo Bolsonaro, o seu pai está preparado para rebater de pronto ataques:

—Talvez os opositores dele já tenham se dado conta que não é a melhor ideia atacá-lo, porque as respostas de bate-pronto, respostas inusitadas, elas surtem um efeito contrário ao que os adversários desejam.

MARINA CONTRA O CENTRÃO

Já a equipe de Geraldo Alckmin (PSDB) está entre duas escolhas que deverão ser feitas pelo tucano. A primeira diz respeito ao conteúdo, que passa por eleger o adversário preferencial para um confronto ao vivo. No debate de hoje, não haverá participação de um petista, portanto, a tendência é que Alckmin, se for polarizar com algum adversário, escolha Bolsonaro.

A segunda escolha a ser feita é sobre a forma como ele se apresentará. O trunfo de Alckmin é vender-se como o político mais preparado para governar. O ex-governador não é de rompantes, e aliados dizem que ele se mostrará assertivo, mas sem ser agressivo .

Segunda colocada nas pesquisas sem Lula, Marina Silva (Rede) tem outra perspectiva. Sua campanha a considera calejada em debates e, portanto, não precisa de uma preparação extra. Professora de História antes de entrar para a política, a ambientalista passou o dia se preparando para o primeiro debate na televisão relendo o esboço de seu programa de governo. Marina estudou a estratégia que adotará com cada um dos adversários, mas não fez um treinamento de mídia formal, como publicitários gostam de fazer, simulando um debate.

A estrutura da campanha da ex-senadora não conta com um marqueteiro, ao contrário de seus adversários. Marina montou sua estratégia acreditando que o debate não deverá ter a polarização entre PT e PSDB.

Em 2010 e 2014, a ex-ministra se apresentou como uma espécie de terceira via. Contudo, em declarações recentes, Marina tem trabalhado para evitar a impressão de que fica “em cima do muro” e vem se contrapondo de forma mais forte ao que chama de “velha política”. Um dos principais alvos de ataques é a aliança entre Alckmin e o centrão.

Ciro Gomes, do PDT, foi orientado por sua equipe e por aliados a tentar controlar o pavio curto no debate. Os exageros verbais têm sido o calcanhar de aquiles de Ciro na campanha.

— Estamos tentando ver se ele passa uma tranquilidade maior — disse o presidente do PDT, Carlos Lupi.

O objetivo, segundo auxiliares, será mostrar a diferença de suas ideias e de seu projeto em relação aos demais candidatos, e não partir para o ataque.

O senador Alvaro Dias (Podemos) será o primeiro a fazer pergunta, mas não quis revelar quem será seu alvo. O parlamentar diz que não precisa fazer uma preparação especial porque todo candidato deve estar sempre pronto a debater os principais temas do país.

MAIS BÍBLIA

O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles (MDB) vai passar o dia em reunião com assessores. Ele está preparado para questionamentos sobre os escândalos de corrupção do governo Michel Temer e responderá dizendo que só cuidou da economia, sustentando ser ele o responsável por retirar o país da recessão.

Guilherme Boulos, do Psol, tem três objetivos hoje: não ficar preso às polêmicas da esquerda como a prisão de Lula e as crises na Venezuela e Nicarágua; criticar o governo Temer e mostrar o “mal que o golpe causou”; e contrastar essas críticas com propostas do partido.

Cabo Daciolo, do Patriota, é muito espiritualizado, segundo sua assessoria, e a preparação para o debate está centrada no aumento do número de horas de oração e estudo da Bíblia.

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Encontro supre tempo curto de campanha

Lucas Altino

09/08/2018

 

 

“A depender do calor do debate, pode se tornar algo que tenha repercussão continuada”

Mauro Paulino, diretor do Instituto Datafolha

Em um dia a dia com grande circulação de informações das mais diferentes fontes, seria possível imaginar certa irrelevância do debate eleitoral para a definição de voto do eleitores. Mas o contexto da disputa deste ano traz fatores que vão além das mudanças nas formas de comunicação.

Com o tempo e orçamento de campanha mais curtos, candidatos precisam aproveitar toda brecha de exposição midiática, explicam especialistas. Além disso, os efeitos da crise econômica estimulam a oferta de soluções muito distintas.

O cientista político e professor da UnB Leonardo Barreto explica que o contexto atual passa por uma “questão clássica de teoria política”:

— O candidato costuma direcionar seu discurso ao eleitor médio, ou seja, aquele que reúne as principais características do eleitorado. Mas hoje não há uma identificação muito clara do que o eleitor quer, não há consenso entre as campanhas —diz Barreto, que usou como exemplo um cartaz que encontrou de Alckmin, em 2006, que dizia: “É o que está sendo feito, mas com honestidade e eficiência”. —Ou seja, apesar de ser oposição, ele ia dar alguma continuidade no programa de governo, porque era o que o eleitorado queria. Mas agora você tem soluções muito diferentes, desde a economia à condição do país e percepções da Lava-Jato.

Diretor do Instituto Datafolha, Mauro Paulino acredita que o debate de hoje será o marco para que o “eleitor perceba que estamos no período eleitoral”.

— A depender do calor do debate, pode se tornar algo que tenha repercussão continuada. Mesmo com o sentimento antipolítica, o eleitor vai se envolver porque sabe que esta eleição pode melhorar ou piorar a situação —analisa.

Desde a redemocratização, poucos foram os casos em que o presidente eleito participou de todos os debates. Isso só ocorreu com Lula, em 2002, e Dilma, em 2014. Em todas as outras campanhas, o candidato vencedor faltou a, no mínimo, duas das datas.

Desta vez, Bolsonaro ameaçou não participar de sabatinas ou debates, mas reviu a sua decisão.

Normalmente, os candidatos que se davam ao luxo de não participar dos encontros estavam em busca da reeleição. Já neste ano, não há um candidato forte da situação ou um franco favorito nas urnas.

Na opinião de Barreto, esta é a eleição mais dramática desde 1989, e o eleitorado está tendo essa noção, o que também aumenta o interesse na sociedade. Para ele, a ameaça de Bolsonaro em não participar dos debates servia para reforçar seu discurso contra o sistema e a mídia.

O tempo curto de campanha e o orçamento menor também explicam a importância do debate para os candidatos. A diretora do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari, diz que não existe um padrão sobre a influência ou não do resultado do debate para a opinião do eleitor. Mas ela destaca as novas regras eleitorais, que limitam a propaganda, para reforçar a relevância dos momentos de exposição na televisão.