O globo, n. 31041, 02/08/2018. Editoriais, p. 2

 

Integração tarifária nos transportes precisa ser discutida na campanha

02/08/2018

 

 

‘É grande a disparidade entre a necessidade da população e o que é oferecido’. Quem atesta é o próprio Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado da Região Metropolitana do Rio, um estudo sobre as demandas de transporte de uma população de cerca de 12,3 milhões de moradores que sofre diariamente no trajeto casa-trabalho-casa. Ou seja, diagnósticos existem, e são até sensatos, o problema é ir além disso.

Inegavelmente, o setor de transportes avançou nos últimos anos, especialmente na capital fluminense, empurrado pela Copa do Mundo, em 2014, e pela Olimpíada de 2016. O Rio implantou três linhas de BRT — Transoeste, Transcarioca e Transolímpico —, construiu a Linha 4 do metrô (Ipanema-Barra), um sistema de VLT e fez melhorias em trens e estações ferroviárias.

Mas, quando se trata da Região Metropolitana, qualquer morador sabe o quanto é difícil se deslocar de suas cidades para o Rio, onde se concentram os postos de trabalho. Especialmente por causa da falta de integração física e tarifária entre os transportes. Como mostrou reportagem do GLOBO, segundo um estudo do ITDP (Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento), apenas 31% dos moradores da Região Metropolitana do Rio estão a uma distância razoável de uma estação de transporte de média ou alta capacidade. Em Londres, o percentual é de 61,2%, e, em Paris, 52,2%.

O bilhete único intermunicipal (BU), que teve seu alcance limitado pela crise financeira do estado, não resolve o problema. Isso porque o transporte não é pensado sob uma perspectiva integrada, embora boa parte dos moradores da Baixada, de Niterói e São Gonçalo trabalhe na capital. O que se traduz em baldeações e maiores gastos.

Mesmo na cidade do Rio de Janeiro, os transportes não se comunicam. O passageiro que dispõe do bilhete único carioca (BUC) e pega dois ônibus para ir ao trabalho paga uma só tarifa; se ele pega um ônibus e o metrô, terá de desembolsar o valor de duas passagens, já que não existe integração tarifária nesses modais. Estima-se que essa seja inclusive uma das causas da subutilização da Linha 4, obra de R$ 10 bilhões construída para os Jogos.

Às vésperas do início da campanha eleitoral, a integração física e tarifária dos transportes é um assunto que deve fazer parte do debate dos candidatos a governador. Porque diz respeito ao dia a dia dos fluminenses e afeta diretamente o bolso dos cidadãos. Não é tarefa simples, à medida que envolve estado, prefeituras e concessionárias de transporte. Mas ter vontade política já é um passo para sair do lugar. E não é novidade no Brasil.