Título: O suspense como estratégia
Autor: Lyra, Paulo de Tarso; Jeronimo, Josie
Fonte: Correio Braziliense, 23/05/2012, Política, p. 4

Defesa de Carlinhos Cachoeira diz que há uma chance, remota, de o contraventor falar no Congresso depois de junho. Mas admite que ele pode jamais revelar o que sabe

Após o constrangedor depoimento do bicheiro Carlinhos Cachoeira na CPI Mista do Congresso Nacional, o advogado de defesa do contraventor e ex-ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, afirmou que seu cliente só poderá se pronunciar na Comissão após as audiências que terá na Justiça de Goiânia, dias 31 de maio e 1º de junho. O depoimento na Justiça serviu para justificar o "silêncio constitucional" no qual Cachoeira se fechou ao longo das quase três horas de sessão. "Mas pode ser que ele não fale nunca, ele não poderá ser prejudicado se agir assim", completou Thomaz Bastos.

Márcio Thomaz Bastos ainda colocou outras duas condicionantes para que Cachoeira decida contar parte do que sabe aos parlamentares. A primeira é a análise minuciosa dos dados em poder da CPI. "Tivemos acesso à parte da Operação Monte Carlo. Ainda precisamos analisar a Operação Vegas e os encontros fortuitos", disse o advogado. A segunda é o êxito no julgamento de um habeas corpus, impetrado no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, para tentar anular as provas obtidas durante a operação Monte Carlo.

O advogado de Cachoeira estima que todo esse processo deva consumir um tempo de até sete semanas. Thomaz Bastos descartou qualquer possibilidade de um acordo de delação premiada. "Isso não está em discussão neste momento", assegurou aos jornalistas.

Principal estrela do rol de advogados que defendem os acusados na CPI do Cachoeira, Márcio Thomaz Bastos fez questão de ir pessoalmente ao Congresso acompanhar o seu cliente no depoimento frustrado na tarde de ontem. Pouco antes das 13 horas, dirigiu-se com sua assistente, Dora Cavalcanti, para a sala 15 no subsolo do corredor das Comissões. Lá funciona a sede administrativa do CPI do Cachoeira. Os dois advogados queriam conversar com o relator Odair Cunha (PT-MG) e o presidente Vital do Rêgo (PMDB-PB) antes do início do depoimento.

Vital chegou ao local do encontro por volta das 13h. Dez minutos depois chegou Odair. A portas fechadas, Márcio Thomaz Bastos afirmou aos parlamentares que seu cliente estava depondo por conta da decisão do STF. Mas que exerceria o direito constitucional de manter-se calado durante todo o depoimento. E reclamou da falta de tempo e estrutura para examinar todas as informações envolvendo Cachoeira. "Precisamos ainda metabolizar esses dados", disse ele aos integrantes da cúpula da Comissão.

Silêncio previsto O encontro durou aproximadamente meia hora. "Ele nos disse o que já esperávamos ouvir", confirmou ao Correio o presidente da Comissão, Vital do Rêgo. O peemedebista negou que tenha havido algum atrito entre a comissão e os defensores de Cachoeira após a disputa travada no Supremo Tribunal Federal (STF) em torno do depoimento de Cachoeira à comissão. "Não houve qualquer constrangimento. Ele fez o trabalho dele e nós, o nosso", declarou.

A defesa definiu do bicheiro definiriu que ele não vai depor hoje como testemunha de defesa do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO). "A gente já fez uma petição dizendo que ele declina do convite", afirmou Thomaz Bastos — dizendo "não saber" se isso prejudicaria Demóstenes.

Tanto Thomaz Bastos quanto a assistente Dora Cavalcanti gostaram do desempenho do cliente na CPI. "Correu tudo muito bem, a sessão foi extremamente tranquila e a CPI foi respeitosa", disse Dora, na chapelaria do Congresso.

Colaborou Júnia Gama

"Correu tudo muito bem, a sessão foi extremamente tranquila e a CPI foi respeitosa" Dora Cavalcanti, advogada de defesa de Cachoeira

Primeira-dama do bicho provoca alvoroço A mulher de Carlinhos Cachoeira chegou causando frisson na Comissão Parlamentar de Inquérito criada para investigar o contraventor. Enquanto os homens se revezavam em elogios à beleza de Andressa Mendonça, a ala dos fashionistas contabilizava as grifes que compunham o visual da loira. A bolsa, segundo amantes da moda, era um modelo Channel. O dourado do relógio e do cinto também chamaram a atenção, mas os observadores não chegaram a um consenso sobre o preço dos acessórios. No fim da sessão da CPI, Andressa, que ganhou o apelido de "musa da CPI" reclamou de mal-estar, mas elogiou a participação do marido na reunião, dizendo que ele estava "ótimo, tranquilo". Andressa não quis dar entrevista, alegando que os advogados também a orientaram a ficar calada. (JJ)

Cenas de uma CPI

Computadores ruins O advogado de Carlinhos Cachoeira, Márcio Thomaz Bastos, sacou do paletó um novo argumento para o silêncio do contraventor. Segundo o ex-ministro da Justiça, nos computadores do Senado que equipam a sala secreta da CPI, não é possível acessar o volume de informações das operações que investigaram seu cliente. As máquinas travam.

Miss CPI Durante o depoimento silencioso do contraventor Carlinhos Cachoeira, o corredor das comissões foi invadido por um grupo de misses (foto) de vários estados brasileiros. A mais requisitada das modelos foi a Miss Goiás. Questionada sobre os rolos de Cachoeira e seus conterrâneos, a moça não segurou. "Pois é, por isso estou aqui para melhor a imagem de Goiás".

Esperando Cachoeira Durante o plantão da imprensa na garagem do Senado, aguardando a chegada de Carlinhos Cachoeira, o deputado Valdemar da Costa Neto (PR-SP) e o senador Alfredo Nascimento (PR-AM) conversavam calmamente no elevador que dá acesso ao estacionamento, como se estivessem esperando o contraventor. As investigações indicaram dedo de Cachoeira na queda de Nascimento, que perdeu o posto de ministro dos Transportes depois de denúncias envolvendo sua gestão na pasta e no Departamento de Infraestrutura de Transportes (Dnit), que era comandado por Luiz Antonio Pagot.

Santo Expedito Os agentes penitenciários descobriram em Carlinhos Cachoeira um homem muito católico. Recentemente, um emissário tentou passar ao contraventor uma imagem de Santo Expedito, com uma oração escrita em letras muito miúdas atrás. Desconfiaram de mensagens cifradas e não deixaram o santinho entrar na Papuda. O episódio se transformou em uma piada, pois Santo Expedito é conhecido como o intercessor nos negócios urgentes e a frase mais repetida por Cachoeira na Papuda é "vou ser libertado esta semana".

"Ai, me pegaram" A paródia do hit de Michel Telló Ai, se eu te pego virou a música do dia na CPI do Cachoeira. Tudo porque uma das supostas autoras da obra, Maria Eduarda Lucena dos Santos, seria funcionária fantasma no gabinete do presidente da comissão, Vital do Rêgo (PMDB-PB). Ela teria sido admitida no escritório como parte do pagamento de uma dívida do parlamentar com o jornalista Adelson Barbosa. Ela teria sido nomeada em fevereiro de 2011 como assistente parlamentar com salário de R$ 3,45 mil, de acordo com o jornal Folha de S. Paulo.

O irônico Mesmo diante do clima tenso durante o depoimento, o deputado Rubens Bueno (PPS-PR) encontrou espaço para fazer piada. Diante da negativa de Cachoeira de responder qualquer questionamento, perguntou ao bicheiro: "Que bicho vai dar hoje?" Em seguida, ironizou o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) ao dizer ao contraventor: "Não somos teu (sic)".