Título: Grécia abala o mundo
Autor: Fren, Carlos
Fonte: Correio Braziliense, 24/05/2012, Economia, p. 14

A Grécia provocou ontem novo abalo nos mercados financeiros globais. A insegurança levou os investidores a deixarem as bolsas de valores e correrem para o dólar e os títulos da dívida norte-americana, considerados um porto seguro em tempos de crise. Num mercado extremamente sensível, bastou um simples comunicado do Banco Central da Alemanha, o Bundesbank, afirmando que a Zona do Euro e a Alemanha poderão lidar sem constrangimento com uma eventual saída da Grécia do bloco econômico, para o humor dos analistas mudar depois do dia anterior de alta das bolsas. O comunicado foi percebido como aval para planos de contingência para a saída da Grécia do bloco. Com isso, os pregões caíram em efeito dominó na Europa e, horas depois, na América Latina e nos EUA.

A notícia de que, em uma teleconferência, a equipe de trabalho do Eurogrupo, que reúne especialistas das pastas de Finanças da Zona do Euro, teria sido acertado que cada país da região deveria preparar planos individuais para o caso da Grécia abandonar o bloco, deu mais combustível às especulações. A informação foi negada pelo Ministério das Finanças grego em comunicado, mas já era tarde e o estrago estava feito.

Com isso, os principais indicadores da Europa fecharam em queda, a exemplo do FTSEurofirst, que reúne as principais ações europeias, e recuou 2,18%, a 972 pontos, eliminando os ganhos do dia anterior, quando se dava como certo o lançamento de bônus para o resgate de dívidas soberanas de países da Zona do Euro, como a Grécia.

A bolsa de Londres fechou em baixa de 2,53%, movimento acompanhado pela bolsas de Frankfurt (-2,33%), de Paris (-2,62%), de Milão (-3,68%) e de Madri (-3,31%).

A Bolsa do Japão teve queda de 1,98%, enquanto a de Hong Kong fechou no vermelho pela 13ª vez nos últimos 15 pregões, além da Grécia, o mercado é afetado pelo temor dos efeitos da crise europeia sobre a China. Em Pequim, o índice Xangai Composto fechou em baixa de 0,4%.

Pessimismo O pessimismo atravessou o Atlântico e derrubou também as bolsas de Nova York, no início da manhã, com os principais indicadores experimentando fortes oscilações até o fim do dia, quando os principais indicadores encerraram os pregões em divergência. Enquanto o índice Dow Jones fechou em baixa de 0,05%, a 12.496,15 pontos, o Nasdaq fechou em alta de 0,39%, a 2.850,12 pontos. Nem as informações de investigações sobre o lançamento de ações da rede social Facebook abalaram o apetite dos investidores por papéis de empresas de tecnologia.

Hoje, em nova e aguardada rodada, o foco do mercado financeiro será a reunião de cúpula da UE. É a primeira vez que os dois principais líderes do bloco, os primeiros-ministros da França e da Alemanha não se reuniam antes, informalmente, para validar decisões ou apresentar propostas. O que também leva analistas de mercado a amplificar os temores de uma possível saída da Grécia do bloco dada as divergências de opinião entre a alemã Angela Merkel e o francês François Hollande.

As dificuldades da Grécia são decorrentes da forte crise americana de 2008 — das hipotecas vencidas decorrentes de forte inadimplência com grandes bancos cerrando as portas por falta de garantias reais — que teve impacto no valor das moedas — desde os anos 1970, com a substituição do padrão ouro pelo dólar, a divisa norte-americana passou a ser o lastro monetário de todos os países.

Em retração, os EUA, reduziram importações, empregos e, mesmo com estímulo ao crédito e a liberação facilitada de recursos sociais, o consumo caiu. E o mundo passou a viver momentos de pessimismo. A Grécia, diz um analista de grande banco europeu, é apenas a ponta de um iceberg e, por isso, os mercados estão nervosos.