Título: Silêncio e intimidação
Autor: Jeronimo, Josie
Fonte: Correio Braziliense, 25/05/2012, Política, p. 2

A sessão de ontem da CPI do Cachoeira, em que deveriam ser ouvidos os três acusados de pertencer à organização criminosa comandada pelo bicheiro, ficou marcada pela ausência de respostas. O único dos depoentes a se pronunciar, o ex-vereador Wladimir Garcez, limitou-se a ler um texto em que enviou recados a integrantes do governo e da oposição, complicou-se ao tentar explicar a compra da casa do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), paga com cheques assinados por um sobrinho de Cachoeira, e desqualificou as gravações obtidas pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo.

Os ex-agentes da Abin Idalberto Matias de Araújo, o Dadá, e Jairo Martins, apontados pela PF como responsáveis pelo esquema de escutas ilegais implantadas pela quadrilha, agiram como Cachoeira, na última terça-feira: serviram-se do direito constitucional de não responder às perguntas dos parlamentares e foram dispensados pelo presidente da CPI, Vital do Rêgo (PMDB-PB). Em poucos minutos, voltaram ao Complexo Penitenciário da Papuda.

Garcez, o primeiro a ser ouvido pela comissão, negou envolvimento com atividades ilegais e listou "amigos" no poder, incluindo governistas e oposição. Uma tentativa, segundo parlamentares, de inibir as investigações. "Conheço muitas lideranças deste país, a começar pelo ministro José Eduardo Cardozo. Sou amigo e coordenador da campanha do doutor Henrique Meirelles (...) Conheço desde criança o prefeito, ex-governador e senador Iris Rezende, de quem também sou amigo", disse.

Além do ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff, Garcez registrou sua relação com Olavo Noleto, assessor do Palácio do Planalto, sobre quem foram levantadas suspeitas de envolvimento com Carlinhos Cachoeira. "Prezo da amizade do doutor Olavo Noleto", pontuou Garcez. O ex-vereador destacou ser "amigo e companheiro do governador Marconi Perillo".

Influência O ex-vereador citou ainda o senador Paulo Paim (PT-RS), o ex-governador Mário Covas e o prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT). Garcez relatou ter sido contratado para assessorar politicamente Cachoeira e a empresa Delta devido a sua suposta influência em órgãos públicos: "Foi esse um dos motivos que levou a Delta a me contratar, pois mantinha contatos com o governo estadual, municipal, inclusive com o governo federal".

Garcez recusou-se a responder perguntas e provocou em alguns momentos: "Isso teria que perguntar para o próprio Cachoeira" e "se eu fosse relacionar o nível de amizade que tenho no campo político, seriam inúmeros". Na saída, o advogado Ney Moura Teles reforçou a tese de que as gravações devem ser invalidadas pela Justiça. "A CPI não vai dar em nada, as provas serão anuladas porque foram obtidas de forma ilegal", disse.

Colaborou Paulo de Tarso Lyra

"A CPI não vai dar em nada, as provas serão anuladas porque foram obtidas de forma ilegal" Ney Moura Teles, advogado de Wladimir Garcez