Título: Bingos abasteciam propina
Autor: Jeronimo, Josie
Fonte: Correio Braziliense, 31/05/2012, Política, p. 6
Relatórios de movimentações financeiras analisados pela CPI do Cachoeira apontam que, apesar de o bicheiro lucrar quatro vezes mais com o esquema de obras públicas da Delta, a contravenção era indispensável para a quadrilha, por ser uma fonte de dinheiro vivo, sem fiscalização. O mapa dos recursos movimentados mostra que Cachoeira “vendia” dinheiro não rastreável para a Delta e a empreiteira utilizava o aporte como uma espécie de capital de giro para manter a rede de influência política abastecida com o pagamento de propinas e financiamento de campanhas.
No período de 8 de junho de 2010 a 29 de abril de 2011, Cachoeira fez movimentações financeiras de duas naturezas. O montante de recursos, estimado em R$ 50 milhões, foi dividido em R$ 11 milhões relacionados ao lucro com casas de bingos e R$ 39 milhões em depósitos e transferências da Delta para contas de empresas de fachada registradas em nome de pessoas ligadas ao contraventor.
A ascensão de Cachoeira ao esquema das empreiteiras teria ocorrido graças à ausência de um grande doleiro em Goiás para suprir as necessidades das empresas que precisavam de dinheiro vivo. Servidores públicos viciados em jogos e que tiveram conversas registradas pela Polícia Federal no âmbito da investigação relataram ao Correio que a prática nas casas era entregar um cheque ao dono da casa de jogatina, pegar fichas e, ao fim da aposta, para resgatar o cheque, o jogador pagava as dívidas em dinheiro. Alguns viciados em jogos chegam a apostar R$ 5 mil em uma noite. Do dinheiro pago pelos apostadores e dos cheques não resgatados, fazia-se o caixa da contravenção de Cachoeira. O contraventor foi preso com R$ 1,5 milhão em casa.
Com o esquema de cobrança pela exploração de pontos de bingos, o contraventor centralizou a estrutura de recolhimento em dois comparsas: Geovani Pereira da Silva e Valmir José da Rocha. O primeiro figura na investigação como o contador da quadrilha, e Valmir era o responsável por fazer a leitura das máquinas e conferir se os “arrendatários” dos pontos de bingos estariam cumprindo o acordo de repassar porcentagem dos lucros a Cachoeira.
Movimentação
Laudo de perícia criminal e financeira de três contas-correntes de Valmir registra movimentação de R$ 8,1 milhões nos últimos três anos. Desse montante, R$ 4,4 milhões foram depósitos em dinheiro e cheques, totalizando 3.977 operações. Do varejo dos depósito nas contas dos comparsas, o contraventor montava seu capital de giro para abastecer as necessidades da rede de influência composta por políticos, policiais e demais servidores públicos.
Enquanto as contas de Valmir estavam mais diretamente ligadas aos recursos movimentados pela contravenção, Geovani movimentava dinheiro maior, vindo das empreiteiras. As investigações mostram que o contador era figura central no esquema de retroalimentação da quadrilha. Em dezenas de escutas gravadas pela Polícia Federal, Cachoeira contata Geovani, solicitando grandes importâncias em dinheiro — muitas vezes, os recursos eram convertidos em dólares. “Compra 15 mil dólares e entrega para o Cláudio (Abreu, ex-diretor da Delta), ele vai para Miami”, ordena o contraventor a Geovani, em uma das conversas.
De acordo com as investigações, Gleyb Ferreira da Cruz, um dos principais operadores de Cachoeira, estava se cacifando como doleiro do grupo. Gleyb foi escalado para cuidar das transações internacionais da quadrilha e já dominava operações de dólar-cabo, como é conhecida a movimentação de compra e venda do dinheiro estrangeiro por meio de transferência eletrônica, sem o manuseio do papel-moeda. Por meio da operação, fraudadores conseguem enviar dinheiro para o exterior usando informações fictícias sobre importação ou subfaturamento de produtos.
Habeas corpus O Ministério Público Federal enviou parecer ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região no qual recomenda a rejeição de um novo pedido de habeas corpus apresentado pela defesa de Cachoeira. Os advogados do bicheiro pedem a liberdade dele e também a suspensão do andamento da ação penal contra o contraventor, sob o argumento de que os grampos feitos contra ele foram ilegais.
R$ 11 milhões Valor relacionado ao lucro da quadrilha com bingos entre 8 de junho de 2010 e 29 de abril do ano passado]]>