Título: Relator vira alvo de colegas
Autor: Valadares, João
Fonte: Correio Braziliense, 09/06/2012, Política, p. 3

Irritada com Odair Cunha, oposição vai usar instrumento regimental para votar requerimentos de convocação na CPI

Pressionado desde o início da CPI do Cachoeira por ter, segundo oposicionistas, selecionado alvos específicos levando em conta questões partidárias, o relator da comissão, deputado Odair Cunha (PT-MG), declarou que ainda não há nenhum indício que justifique a convocação do dono da empreiteira Delta, Fernando Cavendish, mesmo com a empresa no foco de todo o escândalo. Ele deixou claro que não vai defender, na próxima reunião administrativa, que deve ocorrer na quinta-feira, a votação do requerimento para convocar o dono da Delta. O parlamentar também ainda não se convenceu sobre a necessidade de chamar o ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antônio Pagot, que já declarou inúmeras vezes pela imprensa que tem muito a contribuir com os trabalhos investigativos.

"O caso do Pagot é diferente. Estou analisando ainda", disse Odair Cunha. Informações de bastidores apontam que a bancada do PT vai se reunir, segunda-feira, para avaliar o posicionamento em relação às convocações de Pagot e de Cavendish. Existe o receio de que os depoimentos dos dois tragam dados novos que respinguem no Palácio do Planalto. "Não estive e nem conversei com a presidente Dilma sobre o tema nem antes nem depois da CPI. Nem direta nem indiretamente", rebate o relator.

O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) informou que vai utilizar o instrumento do chamado requerimento de preferência para tentar evitar qualquer tipo de blindagem. "Isso é utilizado quando um grupo de integrantes se reúne e assina a convocação de maneira coletiva. Esses requerimentos, de acordo com o regimento, têm preferência e devem ser colocados em pauta para votação. Vamos fazer isso nos casos de Pagot e de Cavendish." Só em relação ao ex-diretor do Dnit, há nove solicitações na fila. Outros 196 requerimentos aguardam apreciação.

O senador Randolfe Rodrigues (PSol-AC) assegurou que solicitará uma questão de ordem no início da próxima reunião administrativa para que os requerimentos considerados prioritários sejam votados. "Não podemos aceitar essa seleção de alvos. Há 28 requerimentos meus, todos relacionados a empresas fantasmas abastecidas pela Delta, que nem sequer foram apreciados. Uma CPI tem que investigar tudo, independentemente de questões partidárias", criticou. Na avaliação do parlamentar, a investigação acaba sendo prejudicada por uma CPI "pela metade".

Obstáculos Na última reunião administrativa da comissão, ocorrida em 5 de junho, deputados e senadores pressionaram pela aprovação dos requerimentos. Os pedidos não foram votados por decisão do presidente interino da CPI do Cachoeira, deputado Paulo Teixeira (PT-SP).

Já Odair Cunha disse que a CPI tem "foco", e usou um velho chavão para justificar sua atitude: "Quem quer investigar tudo não quer investigar nada". Pragmático ao extremo, o parlamentar mineiro salientou que a CPI não pretende apurar a relação da Delta com os governos estaduais. "A CPI investiga a relação do senhor Carlos Cachoeira com governos."