Título: BC pode reduzir juros para até 7,5% ao ano
Autor: Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 09/06/2012, Economia, p. 15
Ata da última reunião do Copom reforça previsão de baixa. Taxas no mercado futuro fecham em queda
Apesar de já ter atingido o menor patamar da história, ao ter sido fixada em 8,5% ao ano na semana passada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), a taxa básica de juros (Selic) deverá sofrer pelo menos mais um, senão dois cortes seguidos de 0,5 ponto percentual. Essa é a interpretação de economistas que analisaram a ata da última reunião do colegiado, divulgada ontem pelo Banco Central (BC). Há quem arrisque ir mais além: "uma taxa de 7,5% ao ano está caminhando para ser o teto, e não piso da taxa Selic", disse Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora.
As avaliações de que a trajetória de baixa está mantida provocaram ontem uma forte queda nas operações do mercado futuro de juros. No final da tarde, o contrato com vencimento em janeiro de 2013 foi negociado por 7,8% ao ano, ante cotação anterior de 7,89%. Os negócios para liquidação em janeiro de 2014 passaram de 8,28% para 8,14%.
Alguns analistas, como Luis Otávio de Souza Leal, economista-chefe do ABC Brasil, e Flávio Serrano, do BES Investimento, no entanto, preferem apostar somente num corte de 0,5 ponto na próxima reunião, na primeira quinzena de julho, deixando em aberto a avaliação subsequente. É o que permite concluir a palavra "parcimônia", mais uma vez citada na ata para definir os próximos passos da política monetária. "Movimentos adicionais vão depender dos números da economia brasileira e dos desdobramentos da crise internacional", frisou o representante do BES.
"Está chegando a hora do Copom interromper a queda da Selic, o que poderá acontecer na próxima reunião, ou na de agosto", disse Serrano. Mas tudo vai depender, acrescentou, do cenário externo e da velocidade de crescimento da economia brasileira, que o próprio Comitê avalia estar muito abaixo do potencial, já que o consumo das famílias continua elevado. Como os movimentos da taxa de juros têm efeitos defasados sobre a economia, a velocidade pode se acelerar no segundo semestre, refletindo as reduções já efetuadas. Com a economia mais forte, o processo de baixa poderia ser interrompido.
Gasolina O economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, avalia a visão que o Copom tem hoje da economia global "é nitidamente mais azeda do que a apresentada na reunião anterior", ecoando a piora da crise do Euro, a lenta recuperação dos Estados Unidos e do Japão, e a redução das metas de crescimento da China. Em relação ao Brasil, segundo ele, prevalece a avaliação de que as condições são favoráveis para a que a inflação caminhe para a meta de 4,5%. Essas, inclusive, são as projeções para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) nos cenários considerados pelo Copom: 4,5% em 2012 e um pouco acima disso em 2013. Nessas estimativas, o órgão avalia que não haverá alta nos preços da gasolina e do gás de cozinha neste ano.
A conjuntura favorável à continuidade do ciclo de queda da taxa Selic já fizera com que pelo menos quatro bancos revisassem, para baixo, suas projeções de juros básicos. O Santander, que mantinha a previsão de apenas mais uma diminuição de 0,5 ponto percentual, na reunião do próximo mês, já passou a contemplar uma redução adicional da mesma magnitude. O mesmo fizeram a corretora Bradesco, que passou a trabalhar com dois cortes de meio ponto, o Barclays Capital e o BTG Pactual.
"O tom é de continuidade do processo. Devemos esperar queda Selic para algo abaixo dos 8% esperados para a reunião de julho", disse o economista Lima Gonçalves, do Banco Fator. As duas baixas esperadas, segundo os analistas, são para o cenário do momento, ou seja, com a concretização de indicadores de crescimento interno mais consistentes no segundo semestre, como espera o BC, e sem novos acirramentos da crise internacional. E se o pior acontecer e vier uma reedição da turbulência vivida em 2008? "Nesse caso pode-se contar com uma reunião extraordinária do Copom para trazer os juros diretamente para 7% ou até menos", avaliou Luis Otávio de Souza Leal, do ABC Brasil.