O globo, n. 31074, 04/09/2018. Rio, p. 12
Munida só de coragem, ' brigada de heróis' salva parte do acervo
04/09/2018
Professores, funcionários, alunos e voluntários se uniram para entrar no edifício enquanto bombeiros tentavam apagar o fogo
Comovidos com o incêndio que transformava em pó 200 anos de ciência brasileira, professores, funcionários e alunos do Museu Nacional, ajudado por voluntários, não pensaram duas vezes antes de se arriscarem para tentar salvar um pouco da memória nacional. Com parte do prédio em chamas, e sem nenhum equipamento de proteção, eles entraram nos setores que ainda não haviam sido atingidos pelo fogo decididos a resgatar o que fosse possível. O grupo teve que derrubar uma porta no primeiro andar para acessar as instalações.
Uma das integrantes da “brigada de heróis” foi a vicediretora da instituição, Cristiana Serejo. Quando ela chegou diante do museu e viu o cenário de devastação, se jogou ao chão, desesperada. Mas, logo depois, passou do choque para a reação, entrando e saindo do edifício diversas vezes. Na manga de sua blusa, enxugava tanto as lágrimas quanto a fuligem. Ao lado de colegas, ela conseguiu resgatar lupas, microscópios e computadores da sala de crustáceos. O biólogo Paulo Buckup, que trabalha no museu desde 1996 e correu para a Quinta da Boa Vista assim que soube do incêndio, conseguiu salvar raridades do departamento de paleontologia.
— A gente decidiu selecionar o material de maior valor científico e insubstituível. São exemplares usados na descrição de novas espécies da fauna brasileira e sul-americana. Eles são únicos, são restos de animais que baseiam as publicações científicas. A maioria deles não existe mais, inclusive havia espécies ainda não descritas — contou Buckup, ontem à tarde.
Foram salvos milhares de exemplares, a maioria moluscos, “mas isso é nada perto dos milhões de objetos que existiam aí dentro”, lamentou o pesquisador.
Segundo Buckup, o que foi resgatado vai permitir que algumas pesquisas continuem sendo realizadas:
—Perdemos grandes exemplares de peixes que não existem mais na costa brasileira. Felizmente, o material da minha pesquisa e de outros colegas ficava em outro prédio.
RISCO PARA VOLUNTÁRIOS
Um técnico da instituição que sabia onde estavam os exemplares mais valiosos do departamento de malacologia serviu de guia do grupo, que incluía, além de Paulo e Cristiana, um paleontólogo, técnicos do setor de assistência ao ensino, que mantém o acervo educacional da instituição, e voluntários.
Os funcionários e voluntários correram riscos enquanto tentavam salvar parte do acervo. Paulo lembra que, e mm ei oà fumaça, o medo de todos era de que houvesse queda de parte da estrutura:
— Havia desabamentos constantes enquanto estávamos lá dentro, além de muita fumaça. Numa das áreas, percebemos risco real de desabamento, não dava para avaliar quando o terceiro andar iria cair —diz o biólogo, que se recorda de ter entrado nas áreas do acervo, no setor de assistência o ensino, ena área de pesquisas obre moluscos brasileiros, no primeiro pavimento do terceiro prédio dos fundos. —Paramos de entrar perto da meia-noite, quando o fogo já tinha tomado o prédio todo. Não faltaram braços para salvar as coisas, faltou tempo.
Pró-reitor de planejamento da UFRJ, Roberto Gambine saiu de casa, na Ilha do Governador, rumo ao museu, assim que soube do incêndio. Ele levou amulhero filho para também tentarem ajudar no resgate. Durante o mutirão familiar, o trio ajudou a recolher equipamentos, documentos e alguns experimentos. Gambine lamentou que aparte central do prédio, onde estava o acervo técnico da instituição, tenha sido amais atingida. Ele conseguiu entrar pela torre à direita do edifício, que dá para um estacionamento interno. E também se comoveu com o empenho de funcionários técnicos e administrativos:
—Agente vive para isso aqui. Tenho mais de 30 anos de UFRJ, é parte da minha vida, foi onde conheci minha mulher, também servidora. Vi muita gente com os olhos cheios de lágrimas, chorando como se tivessem perdido um enteque rido. Éoam orque as pessoas têm pelo museu.
Eduardo Serra, pró-reitor de graduação da UFRJ, também correu para o museu para tentar ajudar. Ele estava em casa, na Tijuca, quando foi avisado por um colega sobre o incêndio. Ele deixou tudo o que estava fazendo para trás, pegou o carro e, em 15 minutos, chegou à instituição, onde permaneceu até 1h , “quando não tinha mais como entrar”. Sua foto fazendo o resgate de alguns exemplares e equipamentos foi parar nas redes sociais:
— Foi um esforço conjunto para tentar salvar parte do patrimônio. Conseguimos resgatar peças de pesquisas, documentos e equipamentos. Só não entro umais gente porque a segurança não deixou.
Serra, que está na universidade desde 1987, disse que foi emocionante ver o empenho dos funcionários para salvar parte do que ainda não havia sido consumido pelo fogo. Ele estima que por suas mãos passaram cerca de 40 vidros contendo espécies de animais conservados em álcool, além de documentos, equipamentos e fósseis.
Ontem, o trabalho dos heróis anônimos continuou. Durante amanhã, professores e alunos entra ramno prédio para retira roque tivesse sobrado. À tarde, manifestantes se reuniram na Cinelândia em defesa do Museu Nacional. Eles marcharam em direção à Assembleia Legislativa do Rio e cobraram mais investimentos nas instituições públicas de ensino, na ciência e na tecnologia.