O globo, n. 31129, 29/10/2018. Artigos, p. 3
Os espectros de Bolsonaro
Paulo Sternick
29/10/2018
O presidente eleito Jair Bolsonaro instrumentou seu temperamento provocador e construiu um personagem para uso eleitoral. Usou-o com mestria para ser porta-voz do ódio e desejo de vingança de parte do povo brasileiro contra o petismo e políticos tradicionais — responsabilizados pela sofrida degradação da situação brasileira.
Ele teve o dom de instigar emoções extremas. Dividiu os brasileiros, causando esperança e medo. Pastiche premeditado dos próprios sentimentos radicais, levou o eleitorado à véspera do paraíso, ou à iminência do terror. O campo para onde endereçou sua mensagem não foi a razão, mas o imaginário psíquico.
O psicanalista W.R.Bion diz que há três formas principais de vínculo: amor, ódio e conhecimento. A este último, Bolsonaro tem sido um desafio. De análises políticas a diagnósticos psicanalíticos, emoções se infiltraram e até causaram obesidade de sentidos. Pois ele mais assombra ou encanta do que enseja saber. Dotado de raciocínio simplista, com aquele sarcasmo da caserna, é um tanto magro de ideias e avesso ao debate.
Mas teve a perícia de fazer de si um símbolo — o herói que vai derrotar os políticos (especialmente petistas). Eles figuram no imaginário de seus seguidores como os culpados pela situação humilhante e revoltante na qual o Brasil estacionou, após quatro eleições vencidas pelo partido de Lula. No pacote de redenção, inclui-se o combate à criminalidade que transformou cidades em regiões conflagradas com milhões de pessoas vivendo sob a lei do tráfico
Sabe-se que os perversos são hábeis em seduzir. Ofertam inicialmente o que falta à sua vítima, para em seguida se converterem traiçoeiramente em predadores. O Brasil é bem servido de gente assim, ardilosa no aliciamento do povo com promessas não sustentáveis. Será Bolsonaro o próximo capítulo desta sequência de perversidade política, com sinal ideológico invertido? O que sabemos até agora é que sua ascensão, em parte, é pouco mais do que uma externalidade do petismo degradado. Bolsonaro se criou no caldo da indignação popular, a quem acenou com uma mudança heroica.
De novo com estupidez e arrogância, o PT achou-o mais fácil de derrotar no segundo turno. Pegou a imagem de Bolsonaro e tentou virar o feitiço contra o feiticeiro. Desenhou um ganho político mágico: de partido desmoralizado, com seu chefe máximo preso (e vários outros na fila), se converteria afinal em liderança de uma frente democrática, a resgatar o Brasil da iminente ameaça do fascismo. Sem atentar para o fato de que nossa sólida democracia não balança com espasmos histéricos, ou diarreias mentais, muitos caíram na lorota elaborada nos porões do petismo em desespero. Não se deram conta de que, se fugissem de Chico, apanhariam de Francisco — pois quem se arroga a liderar uma frente pela democracia teria que ter legitimidade. O que não é o caso de um partido que se valeu da democracia para usá-la de forma totalitária. E foi repelido: pelo Parlamento, pela Justiça e no voto.
O sádico repertório de “maldades” de Jair Bolsonaro (elogiando torturador e o golpe de 64) instigou naturais assombrações. E ajudou a construir um tenebroso perfil de homofóbico e fascista. Os espectros traumáticos da ditadura voltaram a assombrar. A comunidade sexualmente diversa entrou em pânico. Como se fosse viável abolir, por decreto, a sexualidade polimorfa da espécie. A terrível retórica extremista não incomodou, aliás, até atraiu setores conservadores (a caretice nacional). Ele agradou também aos afrontados pessoalmente pela mudança dos costumes — e que não sabem viver de forma inglesa. O Brasil profundo mostrou sua cara e confiou no capitão. Muitos deploraram, pois Narciso acha feio o que não é espelho.
Bolsonaro passa a engrossar, assim, a fauna dos bizarros líderes mundiais que vicejam nas adjacências da tão propalada crise das democracias liberais. Sua retórica de campanha atraiu votos, mas criou no imaginário dos que não o apoiam a figura de um pai tirânico de incalculável maldade. Qual inconsciente culpa coletiva autoriza tal pânico regressivo diante dele? Pois o capitão terá que, obrigatoriamente, deixar essa histeria de extrema direita de fora do Planalto, e apenas trabalhar para resgatar a confiança e a saúde econômica no Brasil. Com toda a certeza, os espectros de Collor e Dilma estarão rondando seu gabinete. Quem deveria estar com medo é ele.