Título: Loterias investigadas
Autor: Correia, Karla
Fonte: Correio Braziliense, 13/06/2012, Política, p. 3

A oposição ao governador Marconi Perillo quer investigar, na CPI da Assembleia Legislativa de Goiás criada para analisar a relação do bicheiro Carlinhos Cachoeira com autoridades goianas, o caminho traçado pela empresa Gerplan, considerada pelos petistas como a gênese da atuação de Cachoeira na máquina estadual. Sócio principal da empresa, o bicheiro ganhou, ainda em 1995 — durante a gestão do peemedebista Maguito Vilela, hoje prefeito de Aparecida de Goiânia — a concorrência para administrar todas as loterias de Goiás. "Foi o momento que Cachoeira entrou em contato com o poder local, preparando-se para o salto que daria quatro anos depois", afirmou o petista Mauro Rubem, responsável pelo pedido de informações sobre a empresa.

Ontem, durante depoimento à CPI do Congresso, Marconi admitiu a atuação de Cachoeira na Gerplan. Esquivou-se afirmando que o contrato foi assinado em uma gestão anterior à sua e, em 21 de janeiro de 1998, um novo contrato aditivo. Mas as coisas começaram a mudar naquele ano, durante o segundo turno das eleições para o governo de Goiás. Então candidato do PMDB, Íris Rezende fez uma denúncia de corrupção contra Perillo, que foi desmontada pelo então procurador-geral do estado, Demóstenes Torres.

Perillo adorou a ajuda e usou a defesa no horário eleitoral gratuito. Derrotou Íris e convidou Demóstenes para ser secretário de Segurança. "Começa, nesse instante, a aproximação mais intensa entre Demóstenes e Cachoeira para exploração das máquinas de caça-níqueis", afirmou o petista. "Até então, ele não atuava nesse ramo, que se tornaria a principal fonte de financiamento da quadrilha", completou Mauro Rubem.

No plano nacional, as máquinas eram consideradas jogos de azar. Em Goiás, com base em uma liminar, elas não eram consideradas assim. Recebiam, inclusive, um selo de autorização dado pela Secretaria de Segurança, controlada por Demóstenes. "Quem não tinha esse selo era apreendido. Como Cachoeira tinha parceria com Demóstenes, só eram apreendidas as máquinas da concorrência", disse o deputado estadual Mauro Rubem.

Faturamento O eixo de atuação da quadrilha consolidou-se em Goiânia, na região metropolitana da Capital e no entorno de Brasília. O negócio ganhou corpo. O esquema contava com 11,4 mil máquinas regularizadas — com selo concedido pela Secretaria de Segurança Pública — e outras sete mil irregulares. O faturamento mensal da quadrilha era de aproximadamente R$ 20 milhões. Como a Gerplan, em paralelo, operava as loterias estaduais, ela era uma grande pagadora de impostos.

Segundo dados levantados pelo PT na Assembleia, a empresa pagava cerca de R$ 2 milhões em impostos, dinheiro que era utilizado pelo governo de Perillo nos programas sociais, suspeita Mauro Rubem. Tudo isso contava com a "boa vontade" de parte do aparato policial do Estado. Durante a CPI do Congresso, Perillo disse que Goiás conta com, aproximadamente, 14 mil policiais militares e três mil civis. "Deste total, 34 foram presos na Operação Monte Carlo, senador Pedro Simon. É muita gente? É. Mas é minoria dentro das forças policiais do estado", defendeu Perillo.

Em postos-chave O deputado petista Mauro Rubem tem uma visão diferente da situação do contingente policial do estado envolvido com o esquema. Ele afirma que o reduzido número de profissionais não deve ser parâmetro, já que parte deles estava em postos de comando. "Prova disso é que, das 23 pessoas que convocamos para a CPI, 10 são policiais militares, todos com patentes e postos importantes, incluindo um ex-diretor-geral da Polícia Militar de Goiás", completou.