Título: A hora da defesa de Agnelo
Autor: Tahan, Lilian; Campos, Ana Maria
Fonte: Correio Braziliense, 13/06/2012, Política, p. 6

Governador do DF reúne assessores, parlamentares e advogados em intensivo de preparação para a CPI do Cachoeira. Petista vai ao vice-presidente Michel Temer costurar o apoio do PMDB LILIAN TAHAN ANA MARIA CAMPOS

A preparação para o depoimento de Agnelo Queiroz (PT) na CPI do Cachoeira mobilizou todo o estafe do governador do Distrito Federal na última semana. Assessores, deputados, advogados e marqueteiros se envolveram na construção do discurso e da postura do petista na arena da investigação sobre favorecimento do grupo liderado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira e dos negócios da Delta Construções no Distrito Federal. Os desdobramentos da Operação Monte Carlo, tema que ele está seguro para responder, não são o único desafio do político. Ele também será cobrado por integrantes da comissão a explicar assuntos do passado, como a atuação no Ministério do Esporte e na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e sua evolução patrimonial.

Pego desprevenido na convocação, Agnelo procurou se cercar em todos os campos para evitar nova surpresa. Montou um comitê jurídico liderado pelo escritório do advogado Luís Carlos Alcoforado, que o acompanha há anos, e reforçado pelo criminalista José Gerardo Grossi, uma estrela nos tribunais e em CPIs. Desse grupo, também participam o presidente da Companhia Imobiliária de Brasília (Terracap), Antônio Carlos Lins, e até pessoas próximas do ex-chefe de gabinete de Agnelo Cláudio Monteiro, cuja atuação será um dos temas certos a serem abordados hoje. O ex-assessor é citado nas gravações da Polícia Federal como elo possível entre o grupo de Cachoeira e o Governo do Distrito Federal. Mereceu um tópico nos slides em Power Point que o gabinete de crise preparou com a linha de defesa (leia abaixo).

Afastado do cargo em função das denúncias, o próprio Monteiro esteve na Residência Oficial de Águas Claras nos últimos dias para ajudar a construir o discurso sobre a parte que lhe cabe. Ao enfrentar os membros da CPI, Agnelo precisará mais que argumentos para rebater as acusações sobre Cachoeira e a Delta no DF. Assim como teve o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), no depoimento prestado ontem, o petista deseja contar com a ajuda de aliados. A expectativa é de que o relator, Odair Cunha (PT-MG), e o presidente, Vital do Rêgo (PMDB-PB), sejam escudos contra tentativas da oposição — especialmente do senador Alvaro Dias (PSDB-PR) e do deputado Fernando Francischini (PSDB-PR) — de desviar o foco dos embates e explorar assuntos como denúncias de desvios de recursos do Ministério do Esporte, o suposto lobby na Anvisa e a evolução patrimonial.

A justificativa da tropa de choque é que a CPI tem um objeto específico e, portanto, não caberia tratar ali de outras questões. O apoio do PT foi o ponto de partida para Agnelo construir um colchão que lhe dê o mínimo de conforto na CPI. Mas precisará também da camaradagem dos peemedebistas, que ficaram sob suspeita de omissão no episódio da aprovação do requerimento de convocação. O governador do DF pediu pessoalmente o apoio do vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), numa reunião no Palácio do Jaburu na noite de segunda-feira. Saiu de lá com o compromisso de que a bancada do PMDB dará respaldo e fará eco às explicações do petista, assim como agiu o PSDB de Francischini e Carlos Sampaio (SP) com Perillo.

Na tarde de ontem, três petistas escalados para organizar a defesa de Agnelo no Congresso, os deputados federais Paulo Tadeu (DF), Geraldo Magela (DF) e o secretário de Administração, Wilmar Lacerda, se reuniram com parlamentares na Liderança do PT no Senado. Na segunda-feira da semana passada, Agnelo pediu a Magela e a Paulo Tadeu — os dois secretários do primeiro escalão do GDF — que reassumissem os mandatos na Câmara dos Deputados porque conhecem em detalhes a linha de defesa do governador.

Força-tarefa Agnelo aproveitou o feriado para treinar sua participação ao lado de aliados. Na quinta-feira (Corpus Christi), passou o dia todo na Residência Oficial de Águas Claras com Paulo Tadeu e o presidente da Câmara Legislativa, Patrício (PT). Houve uma romaria de políticos. Embora afastado nos últimos tempos, Patrício é um dos que estará presente ao depoimento de Agnelo, assim como o vice-governador Tadeu Filippelli (PMDB). Vários distritais da base aliada também confirmaram presença. Os deputados Chico Vigilante (PT), Arlete Sampaio (PT), Chico Leite (PT), Wasny de Roure (PT), Rôney Nemer (PMDB) e o vice-presidente da Câmara, Dr. Michel (PSL), são alguns dos que vão compor a claque política do governador.

Na condição de testemunha, Agnelo não enfrentará um ambiente hostil como encontraram o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) e Cachoeira, que foram convocados como investigados. Um acordo, sem o qual dois governadores em campos adversários ficariam expostos, arrefeceu a guerra entre o PT e o PSDB na CPI. Perillo foi tratado com deferência, mesmo quando questionado sobre assuntos espinhosos, como a venda de uma casa em que vive Cachoeira. Saiu sem ser massacrado.

Um dos poucos momentos de desconforto, no entanto, partiu de um grande aliado de Agnelo. O deputado Ronaldo Fonseca (PR-DF), já no fim do depoimento, subiu o tom ao defender o governador do DF e acabou constrangendo Perillo. A atitude pode ser um pretexto para tucanos ávidos por espetar o petista.

Clientes de peso Na estratégia do direito penal, Agnelo Queiroz escolheu um dos mais conceituados criminalistas do país. O advogado José Gerardo Grossi foi ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre os clientes estão o ex-presidente Lula na área eleitoral, o ex-governador do DF José Roberto Arruda, o ex-secretário-geral da Presidência da República Eduardo Jorge e o assessor do Senado José Carlos Alves dos Santos.

O discurso do governador Veja os pontos que serão abordados por Agnelo em depoimento na CPI

» Agnelo fará um resumo do cenário político e administrativo do Distrito Federal de quando assumiu o governo.

» Falará das dificuldades de gestão e de avanços que considera ter protagonizado. Entre os pontos que podem ser abordados, estão providências tomadas na transição para manter a continuidade dos serviços essenciais, entre eles os contratos com a Delta.

» Agnelo fará um cronograma da passagem da Delta pelo DF. Vai dizer que antes das investigações da Monte Carlo virem a público, o governo havia determinado a abertura, via Secretaria de Transparência, de uma auditoria para investigar a execução dos contratos de lixo no DF.

» Sobre a ligação do GDF com a Delta, Agnelo dirá que o serviço de coleta de lixo foi contratado por força de uma determinação judicial, ocorrida ainda no governo anterior.

» O governador vai abordar a trajetória de três dos personagens citados nas investigações: o ex-assessor especial da Casa Militar Marcello de Oliveira Lopes (Marcelão), o ex-subsecretário de Esportes João Carlos Feitosa (Zunga) e o seu ex-chefe de gabinete Cláudio Monteiro.

» Dirá que não tinha contato próximo com os dois primeiros. Vai enfatizar que todos foram afastados do governo e que se tornaram alvo de investigação interna, com quebra de sigilos já em análise pela Secretaria de Transparência.

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