Título: Governo da Espanha dá sinais de fragilidade
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Fonte: Correio Braziliense, 11/06/2012, Economia, p. 9

Analistas afirmam que primeiro-ministro mente ao dizer que Europa não pediu austeridade

Sob intenso tiroteio e fragilizado no cargo, o chefe de governo da Espanha, Mariano Rajoy, assegurou ontem que o resgate aos bancos do país — uma fatura que pode chegar a 100 bilhões de euros — foi uma iniciativa de sua gestão e não dos sócios europeus. Disse ainda que, graças às medidas de austeridade adotadas em seu país, conseguiu escapar de uma intervenção com as da Grécia, de Portugal e da Irlanda. "Não fui pressionado e não sei se deveria dizer isso. Mas quem pressionou fui eu, porque queria uma linha de crédito para recapitalizar o setor bancário", afirmou. Há menos de duas semanas, ele havia afirmado, de maneira categórica, que as instituições espanholas não precisariam de resgate. Primeira Bolsa de Valores do mundo a abrir depois do socorro à Espanha, Tóquio operava com alta de quase 2% até o fechamento desta edição.

No poder desde dezembro de 2011, o conservador Rajoy aprovou sucessivas reformas, com cortes de benefícios a trabalhadores, a aposentados e à de saúde e à educação. Tudo com a promessa de reduzir o deficit fiscal do país de 8,9% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2011, para 5,3% neste ano e acalmar os mercados. "Se não tivéssemos feito o que fizemos nos últimos cinco meses, ontem (sábado, quando a Europa aprovou o resgate espanhol), teria acontecido a intervenção do reino da Espanha", assinalou.

Apesar do desgaste, o primeiro ministro espanhol disse estar "muito satisfeito" com a ajuda e frisou que os 100 bilhões de euros, a serem repassados a bancos problemáticos, servirão para dar mais credibilidade à moeda comum europeia. "O euro ganhou credibilidade", destacou. "Enviamos uma mensagem muito clara e muito contundente, e isso fará com que a credibilidade no projeto europeu aumente muito mais", completou.

Muito criticado por ter fugido, no sábado, da entrevista na qual o ministro da Economia, Luis de Guindos, explicou as condições da ajuda europeia, Rajoy anunciou que não modificaria sua agenda e viajaria ontem, como previsto, a Polônia para acompanhar a estreia da seleção espanhola na Eurocopa, contra a Itália. "Vou porque a seleção espanhola é a campeã do mundo e acredito que é bom que o presidente do governo esteja na partida inaugural", afirmou. O jogo terminou empatado: 1 x 1.

Agora, acreditam os especialistas, começará um período crucial para Rajoy. Se ele não conseguir tirar proveito do processo de recuperação dos bancos, poderá perder o cargo. "É um êxito difícil de crer", afirma o filósofo e analista político Josep Ramoneda. "Não há ninguém no mundo que dê 100 bilhões em troca de nada", diz. Para ele, ao contrário do que afirma o governo espanhol, o socorro europeu levará a mais austeridade. "A mensagem tranquilizadora de Rajoy demonstra a ocultação da realidade que ele está praticando há algum tempo", sentencia.

PROMESSA 5,3% Meta de deficit fiscal para este ano

Poupança é prioridade

Sete antigos bancos de poupança da Espanha, que já receberam ajuda do governo, serão os primeiros a usar recursos de fundos europeus solicitados pelo país em uma fila que pode crescer com a inclusão de todas as instituições exceto os principais maiores bancos do país. Os bancos da Espanha concederam grandes volumes de empréstimos a empresas do setor imobiliário durante o boom de prosperidade que durou uma década no país e que acabou em 2008, deixando credores com empréstimos podres de construtoras e complexos de edifícios de apartamentos inacabados.

As incertezas sobre se a Espanha pediria ou não um resgate para seus bancos, e, principalmente, em que condições, duraram até o último minuto, em um novo episódio da crise na Europa marcado por tensas negociações, reuniões secretas e por desmentidos oficiais.

"A partir de quarta e quinta-feira, houve contatos constantes e estava claro que era preciso atuar rapidamente", explicou um alto funcionário do governo europeu, que revelou a existência de uma primeira teleconferência do Eurogrupo, na quinta-feira pela manhã. Foi nesse momento que iniciou-se o processo. A primeira armadilha veio da nação espanhola, que não queria dar a impressão de estar pedindo ajuda.

"Foi feito todo o possível para que o governo espanhol falasse primeiro", contou uma fonte diplomática. Em público, os dirigentes europeus não diziam nada, mas em privado multiplicavam as pressões contra Madri. A segunda dificuldade eram as condições do acordo. Segundo o alto funcionário governamental, a Espanha "precisava ser respeitada e não queria ficar sob tutela ou sob um novo programa de austeridade", como foi o caso das condições draconianas que a UE e o Fundo Monetário Internacional (FMI) impuseram à Grécia, à Irlanda e a Portugal. A partir do momento em que a Alemanha aceitou a ideia de contrapartidas unicamente bancárias, Madri teve sua vontade atendida.