O globo, n. 31118, 18/10/2018. País, p. 6 e 7
Em busca da rejeição alheia
18/10/2018
Ataques marcam debate entre Witzel e Paes
No debate promovido pelos jornais O GLOBO e Extra e pela revista Época, os candidatos ao governo do Rio, Wilson Witzel (PSC) e Eduardo Paes (DEM), trocaram ataques e buscaram associar a imagem do adversário a políticos com altos índices de rejeição. O ex-juiz lembrou a relação de Paes com Sérgio Cabral; o ex-prefeito comparou Witzel a Crivella. Em um debate repleto de ataques, os candidatos ao governo do Rio Wilson Witzel (PSC) e Eduardo Paes (DEM) buscaram associar o adversário a políticos com altos índices de rejeição. Witzel lembrou da relação de Paes com o ex-governador Sérgio Cabral e citou o ex-secretário de Obras Alexandre Pinto, condenado recentemente. Já o exprefeito comparou o adversário ao prefeito Marcelo Crivella e falou do vídeo em que Witzel ensina a outros juízes um truque para obter uma gratificação.
Na reta final. Eduardo Paes e Wilson Witzel participam de debate quente: à direita, Lauro Jardim faz uma pergunta no encontro mediado por Berenice Seara
Em meio aos ataques, a discussão sobre propostas se restringiu aos desafios da segurança e da crise econômica do estado. O encontro foi promovido pelos jornais O GLOBO, Extra e pela revista Época, com o apoio institucional do banco digital Modalmais e da Fecomércio-RJ.
Crivella e a ‘alegria’ de Eduardo Paes
Após apoiar Anthony Garotinho, o PRB, de Crivella, fez aliança com o adversário. Paes questionou o exjuiz sobre sua opinião em relação à prefeitura:
— Minha maior alegria foi saber que o Crivella está apoiando sua candidatura. O que a gente vive na cidade do Rio é uma mistura de inexperiência e insensibilidade. Witzel desconversou: —Estou sabendo agora que o Crivella está me apoiando.
Guardanapo, joias, lancha, casa de praia...
Witzel associou o adversário a Cabral, que foi aliado político de Paes durante toda a sua gestão.
— Nunca dividi guardanapo com Cabral naquela fatídica festa —disse.
O ex-juiz fez referência ao episódio de 2009 que reuniu, em Paris, empreiteiros e políticos. Paes esteve no encontro, mas deixou o local antes do momento em que alguns deles colocaram guardanapos na cabeça.
Paes tentou se desvincular do ex-governador e ex-aliado:
—Não tenho ninguém da H.Stern me delatando, não tenho mulher comprando joia. O senhor Sérgio Cabral é um criminoso condenado.
Alexandre Pinto, um nome repetido por Witzel
O ex-juiz citou Alexandre Pinto, ex-secretário de Obras de Paes, condenado a 23 anos de prisão por lavagem de dinheiro. Pinto acusou Paes de coordenar fraudes em licitações e de receber propina.
— Na sua gestão foram criadas muitas escolas, e o Alexandre Pinto mostrou a razão: superfaturamento de obras. Isso você sabe fazer bem — atacou Wilson Witzel.
Eduardo Paes argumentou que sua relação com ele era “pública”.
—Era um quadro técnico, que eu chamei para ser secretário e infelizmente se envolveu com corrupção.
Mário Peixoto, um nome repetido por Paes
Paes insinuou que Witzel mantém relação com o empresário Mário Peixoto, um dos maiores fornecedores do estado do Rio no governo Cabral e próximo aos deputados afastados Jorge Picciani e Paulo Melo, do MDB:
—Você tem um sócio, Lucas Tristão, que é representante legal do Mário Peixoto junto às questões do governo do estado. Você é ex-juiz, até ontem estava na magistratura, não pode ter esse tipo de relação.
Witzel respondeu que pode ter encontrado Peixoto na campanha, mas não é próximo dele.
— Conversei com muita gente, esse pode ser mais um. Não faz parte da minha campanha. Contribuiu com ideias.
A ‘engenharia’ que virou ‘maracutaia’
Paes questionou o adversário sobre o vídeo em que Witzel ensina a juízes uma “engenharia” para o recebimento da gratificação de acúmulo. O adversário respondeu.
— O Estado economiza, porque, em vez de pagar um salário de R$ 29 mil para um juiz, vai pagar R$ 4 mil para ele despachar naquela vara.
E o ex-prefeito rebateu: — Eu chamo de maracutaia. É uma forma de usar um artifício legal, o que, na minha opinião, é imoral.
O fator Bolsonaro na corrida pelo Guanabara
Ao ser questionado sobre com qual presidenciável teria maior afinidade programática, Paes disse ser neutro no segundo turno, mas elogiou alguns pontos do programa do capitão da reserva.
— Bolsonaro tem agenda importante no campo da segurança. Como é uma agenda prioritária, eu não tenho dúvida de que tenho muito mais uma identidade programática nesse campo. A agenda econômica também é baseada naquilo em que mais acredito.
Witzel, por sua vez, declarou voto em Bolsonaro em diversos momentos.
Clube de tiro no debate da segurança pública
Witzel e Paes disseram que as UPPs foram insuficientes. Witzel citou o incentivo a clubes de tiro como uma de suas medidas.
— UPP não deu certo porque é um modelo de ocupação de território, de tática de guerra — disse. — Vamos trabalhar para ter mais clubes de tiros para apoiar a revisão do Estatuto do Desarmamento.
Paes ironizou a ideia. Depois, em entrevista coletiva, também criticou as UPPs:
— Nunca acreditei nas UPPs como política de segurança pública. Avançava em algumas áreas, mas não resolvia todos os problemas. Paes perguntou a Witzel sobre o vídeo em que ele aparece ao lado de candidatos do PSL que exibiam uma placa quebrada com o nome da vereadora Marielle Franco, assassinada em março. O candidato do PSC disse que não tinha conhecimento do que estava ocorrendo e que não admite intolerância. Paes disparou:
— Toda hora que você recebe uma crítica, você alega a tal da fake news. Você participou daquele ato com alegria e regozijo. Na hora que a placa foi arrebentada, você não demonstrou nenhuma surpresa.
Witzel afirmou que o exprefeito “insiste em mudar a verdade dos fatos”:
— Eu não tinha conhecimento de que aquela placa estaria lá e já manifestei isso publicamente em outras oportunidades —disse Witzel. —Se fosse advogado, teria perdido todas as suas ações, porque você insiste em mostrar uma realidade dos fatos que não existe. Você criou a fake news que eu era ficha-suja. O TRE-RJ mostrou que você mentiu.
Enfrentar o crime ou ‘amarelar’?
Paes e Witzel acusaram um ao outro de “amarelar” em momentos importantes de suas vidas públicas. Citando uma entrevista antiga do adversário, o candidato do DEM disse que Witzel foi “intimidado” pelo crime organizado quando atuava como juiz no Espírito Santo.
— Você não enfrentou o crime. Teve medo, amarelou, fugiu, veio para uma vara de execução fiscal no Rio —provocou Paes.
Witzel, por sua vez, negou que tenha se sentindo intimidado por criminosos, e creditou sua transferência do Espírito Santo para o Rio a uma “opção profissional”:
— É só olhar meu histórico de condenações para ver meu enfrentamento, como magistrado, a esse tipo de coisa. Já você amarelou quando teve oportunidade de armar a Guarda Municipal para combater o crime.
Revogação do regime de recuperação fiscal
Witzel criticou as regras de recuperação fiscal do Rio:
— Para alongamento da dívida, proponho o pagamento de parcela flexível, semelhante ao que se faz nas recuperações de empresas, com penhora de faturamento. Também proponho a revogação da lei de recuperação fiscal. Não adianta aumentar imposto, precisamos rearrumar a base do ICMS, combatendo sonegação.
Já o candidato do DEM prometeu repetir ações da sua gestão na prefeitura:
— Enfrentei duas crises mundiais e nacionais como prefeito e conseguimos arrumar as finanças. Hoje o custeio no estado está baixo. A questão é no campo das receitas. Tem como aumentar, melhorando a administração tributária e com olhar de lupa.
Obras públicas para retomar empregos
Os dois candidatos apresentaram planos para reduzir o desemprego. Witzel citou a solução construção civil:
— Temos que retomar investimentos em infraestrutura, como terminar o Arco Metropolitano e os BRTs.
Paes defendeu parcerias com o governo federal:
— Mais de imediato, tem o papelda Petrobras aquino Rio. Retomar o Comperj, olhar toda a base logística do pré-sal que pode ser feita em Itaguaí.
______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
O duelo das más companhias
Bernardo Mello Franco
18/10/2018
Eduardo Paes e Wilson Witzel chegaram ao debate de ontem com o mesmo objetivo. Um queria mostrar que o outro andava em más companhias. O duelo poderia terminar empatado, porque os dois tinham razão.
Witzel lembrou que Paes era unha e carne com Sérgio Cabral, condenado apenas que somam mais de 183 anos de prisão. Chegou a participar do jantar que terminou na animada farra dos guardanapos, em Paris. “Você é o candidato do Cabral. O Cabral tá pedindo voto pra você na penitenciária ”, provocou o ex-juiz.
Paes lembrou que Witzel compete pelo PSC, o partido do Pastor Everaldo. Pau-mandado de Eduardo Cunha, ele também foi acusado de receber propina para tabelar com Aécio Neves nos debates de 2014. “Traz o Pastor Everaldo para um evento”, desafiou o ex-prefeito.
Em outro round, Witzel cobrou Paes pela condenação de Alexandre Pinto, seu ex-secretário de Obras. Na semana passada, ele foi sentenciado a 23 anos de prisão por embolsar dinheiro de empreiteiras.
O ex-prefeito questionou o rival pela proximidade com Mário Peixoto, um dos maiores fornecedores doestadona era Cabral. O empresário foi acusado de pagar um mensalão de R$ 200 mil a conselheiros do TCE.
Os candidatos também trocaram farpas ao falar de alianças. Witzel lembrou que Paes é apoiado por Luiz Fernando Pezão, o impopular governador do estado. Paes disse que Witzel é o preferido de Marcelo Crivella, o detestado prefeito da capital.
Na hora de se defender, os dois candidatos foram pouco convincentes. “Eu tive que conviver com um monte de gente esquisita, infelizmente. Na política, você convive com pessoas assim”, enrolou Paes. “Eu tô sabendo agora que o Crivella tá me apoiando. Não tava sabendo”, desconversou Witzel.
O ex-juiz também se fez de distraído quando Paes criticou sua presença no comício em que dois bolsonaristas quebraram a placa que homenageava a vereadora Marielle Franco. “Eu não tinha conhecimento de que a placa estaria lá”, embromou. Pode ser, mas as imagens deixam claro que ele não se constrangeu nem um pouco com a selvageria.