Título: Forçados a fugir
Autor: Luna, Thais de
Fonte: Correio Braziliense, 18/06/2012, Mundo, p. 15

O número de novos refugiados no mundo é o maior em 12 anos. Conflitos em países árabes e efeitos das mudanças climáticas são os principais fatores para o fenômeno

Um relatório divulgado hoje pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) revela a triste situação dos que deixaram seus países em 2011. O número de novos refugiados em todo o mundo chegou a 800 mil no ano passado — o mais alto desde 2000. No mundo, cerca de 15,42 milhões de pessoas foram obrigadas a abandonar suas nações. Entre os principais motivos para a fuga, estão a continuação de antigos conflitos, como a guerra no Iraque; o surgimento de outros confrontos, como na Tunísia e no Egito; além dos desastres naturais e das mudanças climáticas. No total, 42,5 milhões de cidadãos estavam em situação de refúgio até dezembro passado, o que abrange refugiados, deslocados internos e solicitantes de refúgio. "O ano de 2011 vivenciou o sofrimento humano em uma escala épica. O custo pessoal foi enorme para todos aqueles que tiveram suas vidas drasticamente afetadas em tão curto espaço de tempo", lamentou o chefe do Acnur, António Guterres, por meio de um comunicado.

No relatório Tendências Globais 2011, destaca-se o papel da Primavera Árabe no deslocamento da população, em particular na Turquia, onde 16 mil pessoas pediram asilo, e na Síria, com 2,7 mil requisições. Em entrevista ao Correio, Andrés Ramirez, representante do Acnur no Brasil, destaca que a grande maioria dos refugiados se dirige para as nações vizinhas. "Em geral, 80% desses indivíduos ficam em países em desenvolvimento", detalha. O Afeganistão ainda é a principal origem dos que sofrem deslocamento forçado — 2,7 milhões de afegãos fogem para outros países.

A república islâmica é seguida na lista de "fonte de refugiados" pelo Iraque (1,4 milhão) e pela Somália (1,1 milhão). "A situação do Iraque é complicada. Há um grande número de refugiados iraquianos na Síria, país onde estão acontecendo graves problemas, quase uma guerra civil. Os confrontos ocorrem com tal intensidade que há sírios indo para a Turquia. No entanto, muitos iraquianos que vivem nesse país preferem se manter lá a voltar para casa, devido à instabilidade na área de segurança", relata Ramirez.

Cabe lembrar que, na última quinta-feira, um sírio da cidade de Al-Haffeh contou a uma delegação da ONU no país que 26 mil pessoas haviam deixado a região, fugindo das batalhas entre as tropas pró-governo e opositores. O documento traz um dado preocupante: dos 10,4 milhões de refugiados sob mandato do Acnur, aproximadamente 75% estão exilados há cinco anos ou mais, vivendo em campos de refugiados ou em situação de pobreza.

Na América Latina, apenas a Colômbia se destaca no ranking de origem dos refugiados. São 395,9 mil indivíduos que mudaram de cidade ou deixaram o território para migrar principalmente para o vizinho Equador. "Os conflitos internos com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) têm diminuído, mas, ainda assim, há cerca de 1,3 mil pessoas por mês atravessando a fronteira com o Equador", explica Ramirez. Apesar de o Brasil também fazer fronteira com a nação comandada por Juan Manuel Santos, a travessia de colombianos é pequena porque os estados próximos da divisa se encontram em situação mais tranquila. Atualmente, o Brasil acolhe 4,5 mil refugiados de 75 nacionalidades, incluindo angolanos, colombianos, congoleses e haitianos. O número é muito pequeno se comparado com o Equador, por exemplo, que abriga 55 mil indivíduos nessa situação.