Título: Uma vítima em meio aos processos
Autor: Luiz, Edson
Fonte: Correio Braziliense, 19/06/2012, Política, p. 2

Ex-militante que chegou a ficar dois anos no Dops de Belo Horizonte relembra o cárcere e o andamento dos pedidos de indenização em Minas Gerais

Aos 74 anos, Emely Salazar permanece até hoje na ativa na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde era mais forte a militância política mineira. Ela chegou a ficar quase dois anos presa na carceragem do Dops de Belo Horizonte. Décadas mais tarde, convidada a presidir a Comissão Especial das Vítimas de Minas Gerais (Ceivt-MG), em 2001, Emely deu pouca atenção ao processo de Dilma. Para se ter uma ideia, Emely esqueceu-se de assinar o processo de Dilma, entre dezenas de casos analisados por ela.

"Da turma de esquerda presa naquela época, quase ninguém conhecia Dilma. Ela era a namorada do Galeno (jornalista Cláudio Galeno [Lobato], que sairia do país no sequestro do avião para Cuba e mora hoje na Nicarágua). Ele foi preso ao mudar para o Rio", justifica Emely. Na época do depoimento, Dilma era secretária das Minas e Energia no Rio Grande do Sul, filiada ao PDT e a léguas de distância de ser eleita presidente do Brasil. "Tinha de esquecer de assinar logo o processo da presidente? Só podia ser a Emely", brinca o filósofo Robson Sávio, hoje professor da PUC Minas e responsável na época por colher o depoimento de Dilma Rousseff. "Na verdade, todos os ex-militantes tinham a mesma importância histórica. Nosso trabalho não era identificar celebridades, mas sim as verdadeiras vítimas da ditadura", pontua Robson, lembrando que a falta da assinatura não inviabilizou sair a indenização de R$ 30 mil a Dilma, que receberia a quantia em março de 2002.

"Quem entrou com o pedido de indenização dentro do prazo teve direito a abrir processo. No meio da trabalheira, ainda tivemos de convencer os colegas a fazer o pedido. Muitos estavam desiludidos ou ficavam com medo de falar e daquilo virar contra eles. Quer saber? Quem sofreu tortura não acredita mais na possibilidade de reparação do Estado", desabafa Emely.

Ela e o então namorado de 22 anos, o médico Herculano Mourão Salazar, que mais tarde se tornaria seu marido, sofreram nas mãos de torturadores. "Anos mais tarde, cheguei a encontrar com o tenente Marcelo (Paixão Araújo) em uma festa de casamento. Comecei a chorar e não acreditei que estava respirando o mesmo ar que ele. Meu marido (que morreu há 10 anos, de um câncer) me mandou ficar quieta. Mas não aguentei. Cheguei perto dele e perguntei: lembra de mim, tenente Marcelo? Ele fez que não sabia e eu emendei: Quem bate esquece. Quem apanha não esquece jamais. O senhor já contou para sua família que foi torturador na ditadura?", revela Emely, emocionada, que parece uma gigante do alto de pouco mais de um metro e meio de altura.