Título: Advogado aponta torturador
Autor: Rothenburg, Denise; Mascarenhas, Gabriel
Fonte: Correio Braziliense, 23/06/2012, Política, p. 2
O advogado Genival Tourinho, deputado cassado durante a ditadura militar, revelou que o então tenente-coronel Octávio Aguiar Medeiros torturou presos quando estava lotado nas dependências da 4ª Região Militar, em Belo Horizonte. Conhecido à época apenas como Medeiros, o oficial do Exército teria sido o responsável pelo espancamento de vários presos políticos, durante o período de repressão. O general, que chefiou o temido Serviço Nacional de Informações (SNI), de 1978 a 1985, tem seu nome na relação de torturadores do livro Brasil, tortura nunca mais. Em seu depoimento ao Conselho de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), em 25 de outubro de 2001, a presidente Dilma Rousseff citou como um de seus torturadores um homem que atendia pela alcunha de dr. Medeiros.
O general Medeiros cruzou o caminho de Dilma ao presidir o Inquérito Policial Militar (IPM), que resultou na prisão da então militante, em 1970, no Rio de Janeiro. À época, o militar chefiava o Centro de Preparação de Oficiais da Reseva, em Belo Horizonte. Medeiros ganhou notoriedade nacional ao conseguir pôr fim ao Comando de Libertação nacional, o Colina, ao qual a presidente era filiada.
A perseguição a Dilma Rousseff teria iniciado a partir da informação de que ela planejava a fuga de um dos cabeças do movimento, Ângelo Pezzuti, que estava preso no presídio de Linhares, em Juiz de Fora, na Zona da Mata. O advogado Genival Tourinho, que defendeu vários presos políticos a partir de 1965, contou que viu o então tenente-coronel Medeiros várias vezes na sede da 4ª Divisão do Exército em Belo Horizonte. "Nunca falei com ele. Mas posso atestar que ele participou de vários espancamentos na Rua Juiz de Fora."
Tourinho revela que, além do general Medeiros, o também temido general Golbery do Couto e Silva, viveu por dois anos em Belo Horizonte, servindo também na 4ª Divisão do Exército, ainda no posto de major. Segundo o advogado, Golbery — considerado um dos ideólogos do golpe militar de 1964 — não via Medeiros com bons olhos. O advogado lembra que Golbery, depois de deixar o governo, classificou o colega de farda como "trapalhão", durante encontro na sede do Banco Cidade de São Paulo, em Brasília. "Golbery queria se inteirar das circunstâncias do atentado que sofri em 1980" Tourinho teve o carro alvejado por tiros logo depois de denunciar envolvimento de oficiais do Exército em ações de extrema direita.
Trapalhada Segundo Tourinho, que relatou o encontro em seu livro Baioneta calada e baioneta falada, depois de ouvir a descrição do atentado, Golbery apontou o general Medeiros como suposto autor. "Está me cheirando a coisa do Medeiros ... Eu não tenho dúvida nenhuma em dizer que efetivamente isso foi trapalhada do Medeiros", conta o advogado em um trecho do livro. Antes do atentado, Genival Tourinho denunciou os generais Antônio Bandeira, Milton Tavares de Souza e José Luiz Coelho como responsáveis pelo que chamou de Operação Cristal, que incluía uma série de atentados terroristas.
A denúncia de Tourinho não foi investigada, mas lhe rendeu um processo com base na Lei de Segurança Nacional, que resultou, em 1981, na sua condenação a seis meses de prisão.
Memória
Um golpe frustrado A passagem do general Golbery do Couto e Silva por Belo Horizonte foi motivada por uma tentativa frustrada de golpe contra o governo de Juscelino Kubitschek. Em 24 de agosto de 1954, quando Getúlio Vargas se suicidou, Golbery era adjunto do Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra (ESG). Em fevereiro de 1955, JK foi lançado pelo Partido Social Democrático (PSD) como candidato a presidente da República, tendo como vice João Goulart. O grupo militar da ESG, liderado por Golbery, não apoiou Juscelino e, quando ele foi eleito, tentaram impedir sua posse com um golpe. Suas aspirações foram barradas no Movimento de 11 de Novembro, chefiado pelo ministro da Guerra de João Café Filho, general Henrique Lott, que assegurou a posse de JK e Goulart. Em razão disso, Golbery foi preso por oito dias e depois transferido para a 4ª Divisão do Exército na capital mineira.