Título: Em defesa do resgate dos fatos
Autor: Rothenburg, Denise; Mascarenhas, Gabriel
Fonte: Correio Braziliense, 23/06/2012, Política, p. 2

A declaração da presidente Dilma Rousseff reabre a discussão levantada pelo Correio/Estado de Minas desde domingo passado, com a revelação de mais detalhes sobre a tortura sofrida pela então militante Estela, em Juiz de Fora (MG). Especialistas acreditam que o tom da declaração foi coerente com o momento em que o Brasil vive, com a instalação da Comissão da Verdade, mas também sincero. Eles lembram que a finalidade da comissão não é vingar as agressões nem perdoar, e sim resgatar os fatos.

Para o professor do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) Carlos Mello, a presidente acertou no tom ao dizer que não guarda ressentimentos, mas também não perdoa a tortura. "Acho que está bem alinhada com o espírito da Comissão da Verdade. O espírito dela não é punir, remoer, julgar, mas também não é perdoar, não é deixar cair no esquecimento", pontua. Mello acredita também que passa para o resto do mundo, presente na Rio +20, uma postura madura do país em relação ao tema. "A instalação da Comissão da Verdade já foi um sinal eloquente com a presença de todos os ex-presidentes vivos. Aquilo mostra que é uma comissão de Estado e não de um partido político que chegou ao poder e foi à forra", sustenta. O professor do Insper acredita ainda que, mais do que ponderado, foi um relato sincero. "Ela não estava fazendo demagogia", analisa.

Outros países Já o professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB) Paulo Calmon ressalta que Dilma não é a primeira presidente que sofreu perseguição pelo militares e, posteriormente, como chefe de Estado, conduziu o processo de resgate histórico. Ele a compara, cada um em seu contexto, a Nelson Mandela, na África do Sul, e Václav Havel, primeiro presidente da República Tcheca, após a separação da Tchecoslováquia. "Dilma, por ter sido vítima dessas injustiças todas, tem uma liderança muito especial, uma liderança moral e política para conduzir esse processo", avalia.

O general Rocha Paiva, que já foi secretário-geral do Exército, pondera que a declaração não pode fazer com que se esqueçam das vítimas também dos movimentos armados. "Existem violações cometidas pela luta armada. Se a comissão não fizer essas investigações, está contrariando a própria a lei que a instituiu", avalia. Carlos Mello acredita que todos os casos devem ser investigados, e não acha que a declaração de Dilma possa desvirtuar os trabalhos da comissão. "Verdade é verdade. Ela não tem lados", diz.

Entenda o caso Detalhes dos porões da ditadura

Uma série de reportagens do Correio/Estado de Minas, iniciada no último domingo, revela documentos, até então inéditos, que comprovam que a presidente Dilma Rousseff foi torturada nos porões da ditadura em Juiz de Fora (MG), e não apenas em São Paulo e no Rio de Janeiro, como se pensava até então. Os documentos reproduzem o depoimento de Dilma dado em outubro de 2001, no qual ela relata com detalhes todo o sofrimento vivido em Minas como militante política de codinome Estela. A série de reportagens, que teve repercussão na imprensa internacional, levou a Comissão da Verdade a mobilizar um grupo de historiadores mineiros para analisar o testemunho.

O depoimento foi dado ao promotor de Justiça Antônio Aurélio da Silva, como parte do processo do Conselho Estadual dos Direitos de Minas Gerais (Cnedh-MG) que indenizou vítimas da ditadura que estavam sob tutela do estado. Nos relatos, Dilma conta as agressões sofridas, com as marcas deixadas pela tortura. "Minha arcada girou para outro lado, me causando problemas até hoje, problemas no osso do suporte do dente. Me deram um soco e o dente se deslocou e apodreceu", disse. "As marcas da tortura sou eu. Fazem parte de mim", completou.

A tortura sofrida pela presidente em Minas Gerais não era conhecida nem pelos seus companheiros de militância na época. Gilberto Vasconcelos, que era presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Direito de Uberaba, desconhecia o episódio. A identidade do homem que a torturou ainda não é conhecida.

O coordenador da Comissão da Verdade, o ministro do Superior Tribunal de Justiça Gilson Dipp, classificou como "chocante" o relato, que o motivou a pedir os demais documentos do Cnedh-MG, em busca de novas informações que possam elucidar os crimes cometidos da 4ª Região Militar de Minas Gerais. Na sede do conselho, existem outros 916 arquivos que estavam até então esquecidos.

Na sexta-feira, o Correio revelou documentos que detalham a atividade de Dilma enquanto militava contra a ditadura. Guardados no Arquivo Nacional, os registros do Conselho de Segurança Nacional afirmam que a presidente não pegou em armas em Minas Gerais, e que era responsável pela inteligência, além de ter cedido a casa para reuniões do grupo Colina.