Título: Governo em defesa da violência
Autor: Rothenburg, Denise; Mascarenhas, Gabriel
Fonte: Correio Braziliense, 23/06/2012, Política, p. 2
Os documentos revelam que a ordem era ignorar as denúncias internacionais, mas os militares estavam preocupados com o estrago que a repercussão das agressões poderia causar na imagem do Brasil no exterior. A ordem interna era tratar os relatos como "técnica subversiva de tornar a imagem negativa do país no exterior". Para contornar as críticas que recebia de instituições internacionais que monitoravam as violações aos direitos humanos, os militares criaram um gabinete interministerial para avaliar as denúncias que chegavam. O Itamaraty seria o responsável por reunir os relatos, como coordenador do grupo de trabalho.
Mas uma ordem expressa em um ofício do Ministério das Relações Exteriores deixa claro que toda informação terá que ser compartilhada, acabando assim com qualquer possibilidade de a pasta responsável pelo contato com instituições estrangeiras cuidar sozinha das denúncias. "O Ministério da Justiça funciona como órgão interno de coordenação ao qual serão transmitidas as informações recebidas pelo Itamaraty dos organismos internacionais", ordenaram os militares, para controlar as informações que chegavam do exterior.
Em vez de apurar as denúncias, os documentos mostram que os militares se apressaram em escalar consultores jurídicos para elaborar a "defesa" do Brasil na ONU, se o organismo internacional decidisse questionar o país de forma mais incisiva. As informações sobre violações de direitos humanos eram tratadas como "dossiês" contra o governo. "No sentido de que o presente processo deva ser instruído para servir de base à resposta que o Brasil deva apresentar como defesa, no âmbito da ONU. Assim, proponho o seu encaminhamento à DSI deste ministério para que informe a respeito das acusações formuladas no dossiê anexo", orientou o consultor jurídico Hélio Fonseca, antes de o governo decidir ignorar a resposta ONU.
No documento, o Ministério da Justiça também lista nome de desaparecidos e mortos políticos que representariam o maior "risco" para a imagem do país, pois o episódio dos crimes não tinha suporte jurídico elaborado pelos consultores. Além da denúncia da Federação Sindical Mundial, o governo militar foi acionado a responder por agressões a outros 1.081 cidadãos brasileiros relacionados pela ONU. (JJ)
"Técnica subversiva de tornar a imagem negativa do país no exterior" Classificação dada pelo governo militar aos relatos feitos à ONU