O Estado de São Paulo, n. 45699, 30/11/2018. Política, p. A8

 

CCR relata caixa 2 para campanhas de tucanos

Fausto Macedo e Julia Affonso
30/11/2018

 

 

Em acordo com o MP paulista, empresa cita 15 políticos, entre eles, Alckmin e Serra

 

Repasses. Os ex-governadores Serra e Alckmin são citados nos depoimentos da CCR

Em acordo de leniência fechado com o Ministério Público de São Paulo, o Grupo CCR relata o repasse via caixa 2 de R$ 30 milhões para campanhas eleitorais de ex-governadores e deputados no Estado. Pelo menos 15 políticos são citados em depoimentos, entre eles, os ex-governadores Geraldo Alckmin e José Serra, do PSDB, o deputado estadual Campos Machado (PTB) e a senadora Marta Suplicy (ex-PT e MDB, hoje sem partido). Também há menção de repasse ao ministro de Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab, para a criação do PSD.

De acordo com o relato de executivos da CCR – que opera contratos de concessão de rodovias, aeroportos e metrô –, o dinheiro teria chegado às campanhas de Alckmin e de Serra por meio de intermediários. No caso de Alckmin, é citado o cunhado do ex-governador, Adhemar Ribeiro. Os executivos dizem que Ribeiro teria sido “destinatário diversas vezes” de recursos “por fora”. Em 2010, o montante chegou a R$ 4,5 milhões, informaram os colaboradores.

No caso de Serra, R$ 3 milhões teriam sido liberados para sua campanha à Presidência em 2010. O receptor desses recursos, pelo que consta no termo de leniência, teria sido Márcio Fortes, ex-tesoureiro das campanhas do tucano.

Em relação a Campos Machado, os colaboradores da CCR disseram que o repasse teria sido de R$ 1 milhão, mesma cifra para Marta Suplicy. Já Kassab teria recebido R$ 2,8 milhões. Questionados sobre esses dados, os promotores que subscrevem o acordo disseram que não vão se manifestar até o fim das investigações.

Assad. O ponto de partida da investigação foi o depoimento dado em fevereiro pelo empresário Adir Assad ao Ministério Público de São Paulo, como parte da Lava Jato, relatando ter sido o emissário de recursos ilegais da CCR para políticos no Estado.

Nesta primeira fase, o acordo vai tratar de caixa 2 eleitoral. Ouvidos pela Promotoria, os executivos da CCR apresentaram documentos indicando a prática irregular. Numa segunda etapa, a investigação deverá abranger a área criminal – corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Além de relatar o suposto esquema, a empresa se compromete a pagar multa de R$ 81 milhões – dos quais, R$ 17 milhões serão doados à Biblioteca da Faculdade de Direito da USP.

Defesas. Os políticos citados negam a existência de irregularidade. Em nota de seus advogados, Alckmin diz que “jamais recebeu recursos, a qualquer título, da empresa mencionada” e que o financiamento de suas campanhas “sempre foi realizado na forma da lei e sob fiscalização da Justiça Eleitoral”.

Serra afirmou que suas campanhas foram realizadas “com rigor técnico para demonstrar aos eleitores as melhores propostas ao Brasil”. “E as contas, sempre aprovadas pela Justiça Eleitoral, ficaram a cargo do partido.” Foi o mesmo posicionamento de Campos Machado. “As doações que recebi em todas as minhas campanhas foram exclusivamente dentro das exigências da lei.”

Já a defesa de Kassab afirmou que ele “aguarda com serenidade os argumentos utilizados pelo Ministério Público para demonstrar a legalidade de todos os atos de sua gestão”. Procurada, Marta Suplicy não respondeu até a conclusão desta edição.

 

Multa

R$ 81 mi‚Äč é o valor que a CCR se comprometeu a pagar, a título de multa, como parte do acordo de leniência assinado com o MP de São Paulo; desse total, R$ 17 milhões serão doados à Faculdade de Direito da USP.