Título: O Rio para a humanidade
Autor: Melo, Max Milliano
Fonte: Correio Braziliense, 24/06/2012, Ciência, p. 26
Começa hoje a reunião que pode transformar a capital fluminense em patrimônio cultural mundial, devido à sua peculiar integração entre o homem e a naturezaNotíciaGráfico
"No mar estava escrita uma cidade." A frase de Carlos Drumond de Andrade, eternizada junto da sua escultura na Praia de Copacabana, resume a íntima relação entre a natureza e o Rio de Janeiro, metrópole que cresceu entre montanhas e praias, entre o oceano e a floresta. A cidade exaltada pelo poeta, e por tantos outros artistas do mundo, pode em breve se tornar não apenas uma joia dos brasileiros, mas um patrimônio da humanidade, chancela conferida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) aos lugares de valor inestimável no planeta. A candidatura carioca ao título será um dos assuntos em pauta na 36ª Sessão do Comitê Mundial do Patrimônio (WHC, na sigla em inglês), que começa hoje e segue até 6 de julho em São Petersburgo, na Rússia. No encontro, serão debatidos outros temas de interesse do Brasil, como possíveis ameaças ao Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, e ao Parque Nacional das Emas, entre Goiás e Mato Grosso do Sul (leia mais abaixo). É nessa reunião ainda que será entregue o relatório sobre o tombamento de Brasília, apesar de não haver previsão de discussão sobre o texto. Assim como, em 1987, Brasília fez história ao ser o primeiro monumento moderno a ser reconhecido como bem mundial, quebrando o paradigma de que apenas sítios antigos poderiam receber a chancela, a candidatura carioca também tem um quê de ineditismo. Caso o Rio seja reconhecido, será a primeira vez que uma paisagem cultural urbana receberá o título. A cidade já foi candidata duas outras vezes. Na primeira, em 2001, devido à forma sem precedentes do pedido, a Unesco solicitou mais detalhes ao Brasil. Há três anos, a cidade tentou uma candidatura mista — como bem cultural e ambiental —, mas o órgão da ONU sugeriu que os bens culturais da cidade recebessem atenção especial.
As paisagens culturais são regiões em que a interação entre homem e natureza resultou em um bem de singular valor. Atualmente, esse conceito é restrito à cultura rural ou de comunidades tradicionais, como a cultura do café na Colômbia e os terraços de arroz nas Filipinas, ambos já reconhecidos como patrimônio da humanidade. No caso do Rio de Janeiro, o que está sendo avaliado é a convivência entre o homem e o espaço que o cerca, dentro de uma das maiores cidades do mundo. "O maior patrimônio do Rio é a relação única entre o homem e a natureza que o cerca. É o contexto cultural da cidade, a apropriação dos espaços pelas pessoas", explica Luiz Fernando de Almeida, presidente do Instituto Nacional do Patrimônio Artístico e Arquitetônico (Iphan).
Boas chances
Embora algumas regiões tenham sido inventariadas e catalogadas para especial proteção, o principal elemento do Rio que se pretende tombar é a forma como a população se apropria e interage com essas regiões. Mais do que uma montanha, um parque ou uma enseada, o patrimônio carioca estará nas rodas de samba ao ar livre, nas partidas de futebol nas areias das praias, na ocupação de montanhas com monumentos como o Cristo Redentor. "É impossível imaginar o Pão de Açúcar sem o morro da Urca e o bondinho que os liga. É esse o patrimônio carioca que será tombado", completa Almeida.
O parecer do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos, na sigla em inglês) — organização da sociedade civil que assessora a Unesco nas questões de patrimônio cultural — sugere que o processo relativo ao Rio seja devolvido ao Brasil para que algumas questões relacionadas ao processo de gestão e proteção do sítio sejam melhor explicados. "O que o Icomos envia é uma sugestão e, na hora da votação, os países podem acolher ou não essa decisão", explica Jurema Machado, coordenadora de Cultura da Unesco no Brasil. "Apesar de sugerir o detalhamento de algumas questões relacionadas à gestão do sítio, de maneira geral o parecer é bastante positivo. Acredito que o Rio tem boas chances de ser reconhecido", completa.
A exemplo de Brasília, o grande desafio do Rio será a gestão de seu patrimônio. Diferentemente do que acontece em cidades históricas, onde a salvaguarda dos bens está nas políticas patrimoniais, no caso das duas capitais brasileiras, a gestão está ligada ao desenvolvimento da região, que engloba questões como infraestrutura, transporte, habitação e meio ambiente. "A chance de aceitação (do Rio como um patrimônio mundial) é total. As questões que o Icomos levantou serão desenvolvidas após o reconhecimento da cidade. Não dá para haver uma gestão anterior ao reconhecimento", afirma Luiz Fernando de Almeida, presidente do Iphan.
Iguaçu e cerrado
Dois sítios naturais do país receberão atenção especial da Unesco na reunião que começa hoje. O Brasil precisará explicar ações que podem colocar em perigo a integridade do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, e do Parque Nacional das Emas, entre Goiás e Mato Grosso do Sul. No caso de Iguaçu, o problema é a Estrada do Colono, uma via construída no fim dos anos 1990 que cruza o parque. O caminho fez a área entrar na lista de patrimônios ameaçados, situação que permaneceu até a fechada do caminho, em 2001. "Um projeto de lei pretende reabrir a estrada, o que preocupa a Unesco. O parque não apresenta nenhum problema, a discussão será preventiva", explica Bernardo Issa, assessor da Diretoria de Criação e Manejo de Unidades de Conservação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). O Parque Nacional das Emas será motivo de discussão devido à diminuição de seus limites legais. "Uma decisão do STF diminuiu o tamanho do parque. Embora essas áreas continuem protegidas de outras formas, com a presença de reservas particulares, ela não está mais no parque nacional", conta Issa. "Convidaremos a Unesco para visitar o parque e conferir a preservação da região. Além disso, estamos trabalhando para recompor a integralidade do parque." (MMM)