O globo, n. 31103, 03/10/2018. Sociedade, p. 26

 

Nobel de física

Cesar Baima

03/10/2018

 

 

Três laureados por avanços na técnica e no uso de lasers

No fim do século XIX, o inglês H.G.Wells, em seu clássico da ficção científica“Aguerra dos mundos ”, imaginou os marcianos armados com“raios de calor” nas uainv as ãoà Terra. Cerca de 60 anos depois, em 1958, os cientistas Charles Townes e Arthur Schawlow lançaram as bases para “concentrar” radiação infravermelha e luz visível em um raio estreito e potente, aproximando ficção e realidade.

Conhecida como laser, poucos anos depois a tecnologia ganhou corpo coma construção dos primeiros aparelhos emissores, logo recebendo aplicações que vão da ciência básica à medicina.

Agora, passados mais 60 anos, avanços na sua técnica renderam ao americano Arthur Ashkin eàdupl aformada pelo francês Gérard Mourou e a canadense Donn aS tricklando Nobel de Física, anunciado ontem na Suécia. Ashkin ficará com metade do prêmio de 9 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 4,1 milhões), coma outra metade sendo dividida entre Mourou e Don na.

“As invenções honradas neste ano revolucionaram a física dos lasers. Objetos extremamente pequenos e processos incrivelmente rápidos agora estão sendo vistos sob nova luz. Instrumentos de precisão avançados estão abrindo áreas inexploradas de pesquisa e uma multitude de aplicações industriais e médicas”, justificou a Real Academia Sueca de Ciências.

Don naéa primeira mulher a recebera láurea de Física nos últimos 55 anos (leia mais ao lado ). Já Ashkin, de96,éapesso amais velha a receber um Nobel na História. Pesquisador dos Laboratórios Bell, nos EUA, ele passou mais de 20 anos estudando as propriedades dos lasers, em especial seu potencial para mover objetos. O fenômeno, inicialmente proposto no século XVII pelo astrônomo alemão Johannes Kepler para explicar porque as caudas dos cometas apontam na direção contrária do Sol, só veio a ser provado experimental menteno início do século XX, evidenciando o quão fraca é aforça exercida por ele.

Progressos na Medicina

Com o advento dos lasers, no entanto, Ashkin imaginou que eles “concentrariam” essa força. Em uma série de experimentos, mostrou que era possível usar lasers para mover partículas microscópicas, percebendo que elas tendiam ase encaminhar para o centro do feixe, onde ele é mais intenso. Com isso, Ashkin também usou lasers par afazer as partículas“levitarem ”, contrabalançando a gravidade coma pressão de radiação.

Mas o grande achado de Ashkin viria a seguir. Colocando lentes para focar ainda mais os raios, o americano usou lasers para criar uma “armadilha” capaz de segurar e manipular primeiro as partículas microscópicas, depois, átomos — até que, em 1987, ele e sua equipe usaram a tecnologia, hoje conhecida como “pinças óticas”, para capturar uma bactéria, depois vírus e outras células vivas, abrindo caminho para o estudo de seus processos sem destruir a membrana celular ou outras estruturas internas que levariam à sua morte.

Mourou e Donna, por sua vez, receberam o Nobel pelo desenvolvimento de técnicas que permitem aumentar enormemente a intensidade dos feixes de laser e produzir pulsos extremamente curtos (veja acima), baseadas em pesquisas feitas por ela nos anos 1980. Então, abus capara produzir lasers cada vez mais potentes tinha atingi doum abarreira. Obtidos a partir de uma reação em cadeia em que as partículas de luz, os fótons, geram cada vez mais fótons, os feixes estavam ficando tão intensos que destruíamos meios usados para amplificá-los.

A solução para o problema, batizada “amplificação de pulso chilreado” e descrita em artigo de 1985, consiste em separar e “esticar” as ondas de luz antes de amplificá-las. Depois, elas são novamente unidas e “comprimidas”, resultando em pulsos muito mais potentes.

Atécnica abriu caminho para diversas novas aplicações da tecnologia. Um uso comum desses lasers hoje são as cirurgias refrativas, na qual oftalmologistas mudama curvatura da córnea de forma a corrigir problemas de visão como a miopia.

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Cientista europeu é suspenso após declaração sexista

03/10/2018

 

 

Em apresentação do Cern, italiano disse que física é ‘assunto de homem’ e questionou presença de mulheres em cargos da área

A Organização Europeia de Pesquisa Nuclear (Cern) suspendeu anteontem sua colaboração com o cientista italiano Alessandro Strumia, que afirmou que a física era um “assunto de homens” e acusou as mulheres de obter cada vez mais postos graças ao debate da igualdade.

As declarações foram dadas em uma apresentação, na última sexta-feira, durante a oficina “Teoria de altas energias e gênero”, organizada pelo Cern. Várias cientistas que também participaram do evento em Genebra acusaram Strumia nas redes sociais por ter feito declarações sexistas.

A AFP teve acesso à apresentação do cientista da Universidade de Pisa, na qual ele sugere, com equações e gráficos, que os homens enfrentam uma discriminação cada vez maior no campo da física.

Ele afirmou que o crescimento da importância do papel das mulheres nos empregos relacionados com a física não se deve a suas qualificações, mas ao aumento do debate sobre questões de igualdade de gênero.

Conteúdo 'chocante'

Na apresentação, ele escreveu: “A física foi inventada e construída pelos homens, não entramos por convite”. E acrescentou: “A física não é sexista em relação às mulheres. Mas a verdade não importa, porque isso faz parte de uma batalha política que vem do exterior. Não sabemos quem vai ganhar”.

Em um comunicado, o Cern, dirigido pela italiana Fabiola Gianotti, qualificou como “particularmente chocante” a apresentação. A organização detalhou que não conhecia o conteúdo da apresentação antes da oficina e decidiu retirá-la de seu sistema de arquivos on-line.

“A diversidade faz parte do Cern e é também um dos valores fundamentais sob nosso código de conduta. A organização está plenamente comprometida com a promoção da diversidade e igualdade, em todos os níveis”, apontou.

Em um segundo comunicado, o Cern, onde apenas 20% dos funcionários são mulheres, anunciou a “suspensão com efeito imediato do cientista de toda atividade na instituição, à espera de uma investigação sobre o incidente da semana passada”.