Título: Duas faces de um dilema
Autor: Ribas, Sílvio
Fonte: Correio Braziliense, 17/06/2012, Economia, p. 18
Os principais líderes políticos em disputa nas eleições legislativas de hoje representam bem mais do que o choque de duas visões antagônicas para a mesma crise econômica e social da Grécia. Eles são, também, o embate de duas gerações políticas. O conservador Antonis Samaras, de 62 anos, líder do Nova Democracia, começou sua carreira aos 26 anos, como um dos mais jovens deputados no parlamento e uma estrela do campo conservador, antes de cair em desgraça nos anos 1990. Hoje, é o senhor Europa. Na mão inversa, Alexis Tsipras, de 37, líder do Syriza, é a figura emblemática da esquerda radical e grande novidade eleitoral do país. Apesar disso, o jovem rival de Samaras tem duas décadas de vida pública. Saído das juventudes comunistas no fim dos anos 1980, o engenheiro de estilo despojado estreou na política na década seguinte, nos protestos de estudantes de ensino médio contra a reforma liberalizante do sistema educacional. No início dos anos 2000, Tsipras ajudou a criar a agremiação rompida das esquerdas favoráveis à Europa. Deputado desde 2009, surpreendeu o mundo ao liderar a segunda força política de um país dividido. As origens dos rivais também os separam. Tsipras nasceu em 1974, logo após o fim da ditadura militar, em um bairro popular de Atenas. Samaras, por sua vez, é filho de uma grande família e sua bisavó foi a escritora Penelope Delta, figura histórica do patriotismo grego. Ex-ministro das Relações Exteriores, deixou o governo em 1991, em razão de sua oposição à Macedônia, Estado criado após a divisão da Iugoslávia. Só ressurgiu na política em 2009, quando assumiu a presidência do Nova Democracia, o partido do qual havia sido excluído durante um tempo. (SR)
Cenários
Contexto » A Grécia apresenta indicadores econômicos cada vez piores, apesar da ajuda externa. O Produto Interno Bruto (PIB, a soma das riquezas produzidas) despencou 6,5% no primeiro trimestre e o desemprego já bateu em 22,6%. Para piorar, os saques aos bancos se aceleram diariamente.
» Sem apoio financeiro, o Estado grego corre risco de falir até julho, suspendendo pagamentos. Primeiro a sucumbir à crise das dívidas, o país se beneficiou do pacote oferecido pela União Europeia (UE), pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
» Em dois anos, o governo grego recebeu 347 bilhões de euros de ajuda, em dois empréstimos de 110 bilhões e 130 bilhões até 2015, que se somaram a um deságio de 107 bilhões de euros da dívida, coordenada com bancos privados. O montante equivalente a uma vez e meia seu PIB.
» Antes mesmo do resultado das eleições legislativas, o Banco Central da Grécia estimava uma contração de 4,5% na economia local neste ano, em seguida a um retrocesso de 6,9% em 2011. Ao mesmo tempo, a Comissão Europeia adiou para 2014 a sua expectativa de volta do país ao crescimento.
DESDOBRAMENTOS Vitória do governo » Uma eventual virada favorável aos partidos que costuraram o acordo com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional (FMI) acalmaria mercados, mas não eliminaria tensões e dificuldades econômicas do país. O primeiro ganho seria o fim da suspensão temporária da parcela de 2,6 bilhões de euros de ajuda.
Vitória da oposição » Antes mesmo do anúncio de medidas do novo governo, a eventual maioria de partidos contrários ao pacote de ajuda europeu explodiria a confiança local e internacional com a economia grega, levando à provável quebra do país. O quadro imporia controle de fluxos de capital e de saques bancários, além da volta do papel do banco central e da moeda nacional (dracma), que valeria menos da metade do euro.